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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Os rumos para treinamento



Especialistas apontam estratégias e avaliam a realidade da área
Foco na estratégia de negócios. Atualização constante e educação continuada. Estes e outros termos estão em evidência na política de treinamento e desenvolvimento das empresas. Mas alguns especialistas notam que, apesar da propagação desses conceitos, as muitas organizações ainda pautam suas ações de treinamento em questões pontuais e não fazem intervenções em longo prazo.
Para o vice-presidente do Instituto MVC, Luiz Augusto Costacurta Junqueira, “o treinamento está mais para o fast food que para o banquete”. Ele embasa sua metáfora nas consultas feitas por empresas em busca de intervenções sistemáticas, solicitações de cursos muitas vezes para atender uma programação anual em que um curso não tem nada a ver com o outro, outras vezes voltadas para necessidades individuais. “As necessidades organizacionais, às vezes, são colocadas em segundo plano, em benefício de necessidades pessoais e até familiares, o que faz com que o treinamento seja visto como commodity, descartável, que a gente encontra facilmente”, critica.
As empresas, de uma maneira geral, têm uma dificuldade muito grande em perceber a educação continuada como uma ação estratégica. Por isso, a maioria dos treinamentos visa atender somente uma necessidade imediata. “Neste contexto de competitividade e imediatismo, as empresas esquecem que a vantagem competitiva vem das pessoas e que, se eu não pensar no longo prazo, provavelmente o curto prazo vai me matar”, adverte Jorge Flavio Ferreira, gerente de departamento de qualidade e desenvolvimento da Sabesp.
Neste contexto, a área de treinamento deverá cada vez mais assumir uma posição estratégica. “As pessoas irão buscar o seu autodesenvolvimento, o treinamento das empresas vai ajudar a adquirir esse autoconhecimento dando mecanismos, ferramentas e possibilidades, e não simplesmente montar conteúdos programáticos”, acredita Walter Sigollo, superintendente de recursos humanos e qualidade da estatal.
O gerente de desenvolvimento social e educação da Rhodia, José Emidio Teixeira, acredita que parte dessa indefinição das reais necessidades de treinamento está no fato de haver um hiato entre profissionais muito experientes e profissionais que estão iniciando carreira na área. “É evidente que muitas empresas têm profissionais muito jovens, com pouca experiência, atuando na área de treinamento e desenvolvimento”, constata. “É claro que ser jovem implica em algumas coisas, mas acredito que se eles são mais ousados por outro lado falta background, experiência mesmo, para tomar decisões mais fortes”, analisa.
Soluções alternativas
Modismos, novas técnicas, sempre inovadoras, radicais e alternativas surgem freqüentemente na área de treinamento, mas fica a dúvida se estas técnicas realmente trazem resultados a organização. “Toda e qualquer atividade de treinamento pode ter resultados ótimos ou péssimos e isso vai depender muito de dois fatores: do objetivo pré-estabelecido e do foco que se dirige durante o treinamento”, explica Vanderlei Cozzo, presidente da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento, ABTD. “Se você tiver essa questão muito bem definida, o tipo de treinamento, convencional ou alternativo, presencial ou à distância, é só uma questão de metodologia”, esclarece. “Agora, usar estes métodos alternativos só porque é moda ou porque o pessoal se diverte, então é melhor você levar no parquinho e soltar na montanha russa”, ironiza.
Para Costacurta, algumas técnicas alternativas de treinamento como jogos de empresas, incursões ao ar livre, entre outras, não devem ser classificadas como modismos. “O grande problema das tecnologias, como qualquer outra, é a questão do conteúdo, por exemplo, vai chegar um momento que o camarada subiu numa árvore, se divertiu, e vai ser necessário que ele faça um briefing do treinamento, que é a ponte entre a experiência pessoal e a realidade organizacional, e 50% das vezes não tem conteúdo”, avalia.
Teixeira concorda com Costacurta e acredita que esse tipo de técnica é válido desde que se use também o bom senso. “É preciso ter alguns cuidados para não expor um treinando a situações de ridículo ou impróprias, como fazer um sexagenário ficar subindo em árvores desnecessariamente”, exemplifica.
Para o diretor de recursos humanos da Nestlé, Carlos Faccina, os treinamentos experienciais são meios para trocas de experiências e obter interação, mas nunca no sentido de ser a solução dos problemas. “Em toda o processo de formação há um momento em que você se liberta das amarras e coloca suas emoções, vontades, mas este tipo de treinamento deve ser usado como meio auxiliar”, recomenda. “Quando se radicaliza o conceito geralmente acaba gerando frustrações, tanto do treinando quanto da empresa”, constata.
Mesmo com algumas ressalvas feitas por especialistas, a utilização de práticas esportivas como ferramenta para treinamento tem sido cada vez mais difundidas e vários esportistas estão explorando esse filão. Em 1998, os pilotos brasileiros do Rali Paris-Dakar, André Azevedo e Klever Kolberg criaram o Seminário Rally, em que os participantes aprendem disputando um rali de regularidade e colocando em prática os conceitos de planejamento estratégico, trabalho em equipe, administração de riscos e decisões em conjunto, ou seja, desafios que qualquer pessoa enfrenta no dia-a-dia de uma empresa.
Mas ainda têm-se dúvidas se essa técnicas trazem resultados efetivos para as empresas. “É claro que numa palestra de 60 minutos, mais ou menos, não se pode esperar ganhos enormes”, revela Kolberg. “Porém, é muito raro uma empresa nos contratar do nada, porque nossas atividades devem fazer parte de um plano de treinamento, o seminário sozinho não vai fazer milagres”, revela.
Essas atividades têm o objetivo de resgatar conceitos e motivar os colaboradores e não, por si só, promover mudanças organizacionais. “Quando apresentamos nosso trabalho, não estamos levando nenhuma novidade, estamos apenas trabalhando com a prática”, explica Kolberg.
O piloto explica que os seminários surgiram como uma forma de dar continuidade às palestras. “Adaptamos nosso know how ao mundo corporativo, de uma prova de 10 horas, adaptamos para duas, afinal nosso objetivo não era medir o grau de resistência das pessoas”, resume. “Só que surgiu a necessidade de fazer um follow up, porque não dava para estar em cada carro, apontar os erros e chamar a atenção para alguns pontos”, revela. Para sanar essa necessidade, o seminário conta com a participação de um consultor, que pode ser indicado pela empresa, para encerrar o evento e chamar a atenção para os pontos importantes, a intenção é que os participantes aprendam com seus erros e acertos. “Depois tudo termina em comemoração, já que as empresas esqueceram o quanto é importante comemorar”, ressalta.
Educação corporativa
Uma das vedetes das políticas de treinamento atualmente é a universidade corporativa. Segundo Costacurta, do Instituto MVC, a universidade corporativa, no fundo, é um instrumento de lubrificação da cadeia de valor da empresa, o que significa que ela idealmente, deve abranger o cliente interno, o cliente externo, o fornecedor, a comunidade, a família do funcionário, o acionista, enfim, é um alargamento dos horizontes educacionais da empresa.
Apesar de não ter uma universidade corporativa formalmente instituída, a Rhodia trabalha com o conceito há quase 20 anos. Segundo José Emidio Teixeira, gerente de desenvolvimento social e educação, no início da década de 80, a multinacional montou um programa de desenvolvimento de chefes, gerentes e supervisores muito semelhante ao conceito de universidade corporativa que existe no mercado.
Teixeira afirma que a Rhodia tem uma tradição em formar profissionais e acredita ser uma decorrência o fato desses profissionais, posteriormente, deixarem a empresa. “Não é possível pensar em formar profissionais para a própria empresa, principalmente num mercado com a característica que nós temos, em que as pessoas migram”, constata. “A Rhodia não vai trocar a filosofia de formadora para uma filosofia de compradora de profissionais prontos; é claro que ocasionalmente podemos contratar alguns profissionais que já estejam prontos antes de virem para a empresa”, define.
O diretor de RH da Nestlé, Carlos Faccina, vê a universidade corporativa como uma fonte de várias vantagens para a empresa. Ele acredita que pelo fato das organizações trabalharem com recursos escassos, ou seja, menos gente e mais necessidade de trabalho gerada pelo processo de produtividade, é necessário ter pessoas mais focadas nos resultados do negócio e desenvolver programas que possam trazer benefícios ao negócio e às pessoas, como retribuição, em termos de progresso profissional.
Ele acredita em um modelo de universidade corporativa terceirizada, em parceria com as universidades tradicionais. “Eu posso montar meu curso e usar as estruturas administrativas e logística do meu parceiro, diminuindo minha estrutura de treinamento, mas trabalhando qualitativamente, de forma pensante, crítica, analítica e proponente de programas”, analisa.
Para Faccina, a universidade corporativa abre a empresa para o mundo, porque ela pode permitir uma interação entre empresas não concorrentes que podem fazer um pool e ter uma formação a custos muito mais baratos e com resultados melhores. “Dessa forma, é possível montar um senhor programa de formação em qualquer área, utilizando os melhores professores das melhores Universidades, pelo melhor resultado e focada para business”, acredita.
Contudo, a universidade corporativa é um conceito que precisa ser analisado com muito cuidado para evitar que seja utilizada mais como um modismo, servindo mais como uma ferramenta de marketing interno e externo. “É muito fácil colocar a plaquinha de universidade corporativa, mas, em muitos casos, o sistema da empresa é tão arcaico e tradicional como o mais antiquado dos T&Ds”, reprova a professora-doutora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), e especialista em Educação Corporativa, Marisa Éboli.
Ela destaca que muito mais importante que o rótulo, é a mentalidade da empresa em relação ao desenvolvimento das pessoas. É muito comum ver empresas que têm toda a estrutura e sistemática de uma Universidade Corporativa, mas que não anunciam que as têm.
O grande avanço que as universidades corporativas trouxeram para as organizações foi a ampliação do objetivo de formação e educação para toda a cadeia de agregação de valores, ou seja, não se limita ao público interno, mas a todos os sistemas que podem trazer um diferencial competitivo. “Ás vezes uma competência crítica não diz respeito a algo interno, mas a algo que está na cadeia, por isso a universidade corporativa também deve estar preocupada em desenvolver o público externo”, reconhece Marisa.
Para a professora, a responsabilidade de formação deve cada vez mais sair da área de RH para o dia a dia do funcionário, estimulando a auto-aprendizagem e o autodesenvolvimento. “Deve haver coerência entre as ações de treinamento e educação com um ambiente favorável à aprendizagem, com os líderes no papel de educadores, isso é que vai reforçar a mentalidade de aprendizagem”, prega Marisa.
Para quem imagina que educação corporativa está ao alcance apenas das grandes empresas, o conceito também pode ser adaptado com facilidade para as pequenas e microempresas. “Tudo é uma questão de mentalidade, porque o empresário não precisa montar um instituto maravilhoso, basta criar condições favoráveis para desenvolver as pessoas, esse é o grande diferencial”, afirma Marisa.
Resultados
Seja qual for a ação de treinamento, ela deve ser avaliada para que se possa medir seus resultados efetivos. “Se um treinamento não for quantificado nos seus resultados, não é treinamento; pode até ser uma ação de benefícios, dar bem estar ao funcionário, deixá-lo mais motivado, mas não é uma ação de treinamento, porque ela tem outros objetivos, outros focos e outros resultados a atingir”, condena Vanderlei Cozzo, presidente da ABTD. “Quando se faz planejamento de uma ação de treinamento devem estar previstos alguns processos de avaliação, que vai avaliar os resultados obtidos com aquela ação”, completa.
A metodologia é importante porque vai dar o contexto, vai dar as pré-condições para atingir estes objetivos, mas é só um método. O treinamento deve estar estruturado de forma a atingir seus objetivos, que devem estar diretamente relacionados com a estratégia do negócio. Ações pontuais de treinamento são necessárias para resolver problemas imediatos, mas a empresa precisa investir em ações de treinamento em longo prazo. “Os programas de trainees são um exemplo, não é uma ação de treinamento, mas sim uma ação estratégica, preparando o trainee para ser o presidente da empresa”, avalia Cozzo.
Para Teixeira, da Rhodia, ainda não existe um instrumental que permita fazer uma avaliação absolutamente científica com os resultados obtidos no final do treinamento. “Tudo depende dos objetivos do treinamento”, alega. “Se estou treinando uma pessoa para trabalhar em grupo, eu consigo obter dados, mas ao longo do tempo, e para saber se ele está trabalhando efetivamente em grupo, basta saber quais comportamentos eu quero que sejam exibidos por ele”, acredita. Ele cita o exemplo da avaliação anual feita na Rhodia em que são definidas algumas competências que a empresa deseja e é verificado se pessoas exibem esses comportamentos. “A empresa não deve estar preocupada com a avaliação imediata, porque alguns resultados dos programas de treinamento só serão sentidos ao longo do tempo, não alguma coisa que se muda da noite para o dia”, avalia.
Para Faccina, da Nestlé, o treinamento no Brasil carece ainda de um problema bastante grave e que ainda não foi resolvido, a falta foco no treinamento e o retorno do investimento feito. “É efetivamente medir a relação do treinamento com o que a empresa está fazendo em relação ao seu negócio”, sentencia. Ele acredita que uma das áreas mais críticas é o treinamento gerencial. “Ainda temos uma grande dificuldade de organizar os programas atingindo realmente aquilo que a empresa está precisando”, condena.
Na opinião de Costacurta, o segredo da avaliação em treinamento não é fazê-la em quatro ou cinco níveis, mas nos resultados práticos e financeiros para a empresa. “O que falta, no fundo, em treinamento, não é o instrumental para a avaliação, é a vontade de usar esse instrumental e a coragem de usá-la”, argumenta. Ele exemplifica a avaliação de resultados citando, hipoteticamente, um treinamento em negociação. A empresa deseja que a rentabilidade das negociações aumente. No ano anterior, a soma do que foi negociado deu uma rentabilidade média de 6% e a meta para o ano corrente é de 7%. “Essas coisas nem sempre são mensuráveis no curto prazo, mas se a rentabilidade aumentar 1% e isso for definido como uma hipótese, medi-la depois de um ano e descobrir que realmente aumentou 1%, chega-se à conclusão que o treinamento ajudou”, analisa.
A busca das empresas pela certificação das normas ISO e a ISO 9001, em particular, começou a exigir das organizações um programa de treinamento, para que ele não fosse intuitivo, mas uma ação planejada e focada, ou seja, estratégica. No ano passado, uma nova norma foi lançada para atender especificamente a área de treinamento e educação, a ISO 10015. “Esta ISO fala de como fazer um treinamento ou como implantar um processo de educação permanente cujos resultados possam ser avaliados e quantificados objetivamente, justamente para suprir aquela falha da ISO 9000 que era genérica, esta é específica e serve tanto para os processos de treinamento das empresas como para a educação convencional”, explica Vanderlei Cozzo, da ABTD.
Assim como as Universidades Corporativas, as certificações ISO também assumem, em muitas organizações, outras intenções. “Muitas empresas se sujeitam a toda aquela burocracia da certificação ISO somente para veicular a sua marca, a sua propaganda, ou seja, como um instrumento de marketing”, critica. “E nessas empresas, as ações de treinamento passam a ser burocráticas e não estratégicas”, constata Cozzo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Continuada ou permanente?

27 de maio de 2012  (nelson.moschetti@bdobrazil.com.br



Nos idos de 1970, meu avô me falava sobre uma nova teoria da educação, chamada de educação permanente. Dizia ele que a escola, em todos os seus níveis, era insuficiente para nos formar como cidadãos.
John Dewey, educador e filósofo norte-americano, considerava ser de vital importância que a educação não se restringisse ao ensino do conhecimento em sala de aula, mas que o saber e a habilidade dos estudantes pudessem ser integrados a sua vida como cidadão, pessoa e ser humano.
Ou seja, a educação deve estar permanentemente centrada no desenvolvimento da capacidade de raciocínio e espírito crítico do aluno. O apoio e a implementação de programas e políticas públicas são ferramentas que consolidam este processo.
Além da educação formal, outros espaços sociais são igualmente importantes e não podem ser substituídos como vetores educacionais. Família, amigos, grupos, vida profissional, participação política e artes em geral compõem o nosso cotidiano como fontes potenciais de aprendizagem. Não significa negar a importância do papel da escola - do primeiro grau à universidade. Significa, sim, que esse conjunto é um processo rico para quem sabe aproveitá-lo no seu crescimento pessoal e profissional.
Meu avô já se foi. E o tema da moda agora é a educação continuada. A tendência atual é focar nossa educação, mesmo depois de formados, em MBAs, mestrados, doutorados, treinamentos promovidos pelas empresas etc. Ou seja, qualificação constante. Mas isso é importante? MUITO IMPORTANTE.
John Dewey entende a educação continuada como fator permanente de desenvolvimento humano, que acontece quando o indivíduo transmite, de geração a geração, a experiência de sua formação acadêmica, incluindo também o processo de comunicação entre os grupos sociais. O indivíduo passa, portanto, os valores e experiências vivenciadas socialmente, por meio do diálogo dos mais velhos para os mais novos, além da sua maneira de pensar, de sentir e de agir humanamente. O conhecimento não fica recluso nas salas de aula.
Na teoria, é fácil dizer que podemos aprender tudo e em todos os lugares, que a vida nos ensina muito. E é verdade. Na prática, muitas vezes ficamos prisioneiros de belos discursos e longe de tornar nossas atitudes coerentes com ideias ou ideais que professamos.
Como meu avô me ensinou, prefiro a denominação educação permanente, pois me dá mais força para encarar as oportunidades de aprendizagem existentes na sociedade como um todo.
Para tanto, basta estar atento, senão vejamos um pequeno acontecimento do cotidiano. Os fatos são verdadeiros. Os personagens, fictícios. Pedro acordou cedo, estava alegre. O sol brilhava no horizonte. Era inverno com cenário de primavera. Iria levar sua filha e genro ao aeroporto. Saiu de casa brincando, com espírito genuinamente infantil. Parou no posto para reabastecer. Não conseguiu retornar imediatamente à avenida, pois uma jovem motorista não lhe deu passagem. Pensou: vou brincar com ela. Entrou logo atrás do carro da moça, buzinando estridentemente. Isso durou até o próximo semáforo, quando Pedro fez a ultrapassagem e foi embora. Nesse momento seu genro falou:
- Você é mais vingativo do que eu!
Pedro não fez por vingança, foi infantilidade, brincadeira. Mas a frase do genro continuou a martelar em sua cabeça. Quantos conflitos de trânsito surgem por esse tipo de comportamento: pouco importa se é vingança ou brincadeira. Viver socialmente implica em conviver. Há a necessidade de normas sociais regulando a vida entre as pessoas, indicando limites e tornando a vida mais harmoniosa.
No entanto, as normas sociais são insuficientes se não forem acompanhadas de atitudes que facilitem o convívio, gerando respeito recíproco entre os cidadãos. Foi com essa reflexão que Pedro decidiu genuinamente nunca mais ter atitudes infantis ou vingativas no trânsito. Ele estava atento às oportunidades de aprendizagem que o cotidiano oferece, fazendo lembrar novamente de que podemos ser eternos aprendizes e, com uma ponta de saudade, resgatando a abordagem de educação permanente que meu avô me transmitiu.
Enfim, Pedro compreendeu que a sua decisão, mesmo tendo um pequeno resultado, apresentava um grande potencial de mudança de comportamento para a vida em sociedade. É uma mudança de conceito, com novas maneiras de agir para as pessoas conviverem melhor. Afinal, ATITUDE MUDA TUDO.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,continuada-ou-permanente--,878562,0.htm

terça-feira, 8 de maio de 2012

Do T&D tradicional à Universidade Corporativa: o que mudou?




Você sabe qual é a diferença do T&D (Treinamento e Desenvolvimento), nomenclatura utilizada ha muito tempo nas empresas, para a UC (Universidade Corporativa), título que ficou em voga mais recentemente no mercado?

Essa é uma pergunta que ouço sempre e acho importante abordar a questão e tentar, por aqui, clarear um pouco. Não se tem definido, ao certo, quando surgiram as Universidades Corporativas. Há, sim, alguns autores que indicam que elas já existiam nos EUA na década de 50, mas, independentemente disso, mesmo sem adotar essa nomenclatura, as mudanças na economia mundial e o aumento da competitividade forçaram as empresas a investirem em treinamento para seus colaboradores.

Uma primeira diferença fundamental que identifico está no fato de que as ações de T&D sempre tinham ou ainda tem hoje, no caso de muitas empresas, o objetivo definido de atender a uma necessidade pontual, com início, meio e fim da aplicação. No conceito de UC, apropria-se o nome de universidade para designar um apanhado de ações, recursos e estratégias voltadas ao desenvolvimento e educação de todos os públicos de interesse ligados ao negócio da empresa, de forma continuada, sempre interligadas com as metas e objetivos da organização.

Outras diferenças são apresentadas a seguir:
T&D CONVENCIONAL
UC
ATENDIMENTO DESCENTRALIZADO – VÁRIAS ÁREAS SOLICITANTES AO MESMO TEMPO
CENTRALIZA PROGRAMAS DE TREINAMENTO E OS ORGANIZA CONFORME DEMANDAS DO NEGÓCIO
AMBIENTES DE APRENDIZADOS BASEADOS EM RELAÇÃO EMISSOR/RECEPTOR, COM UTILIZAÇÃO DE RECURSOS TRADICIONAIS (SALAS DE AULA, EXPOSIÇÕES, TESTES ETC.)
AMPLIA O LEQUE DE POSSIBILIDADES DE FERRAMENTAS PARA INSERÇÃO DO COLABORADOR (NOVAS TECNOLOGIAS E METODOLOGIAS DE ENSINO AGREGADAS)
APRENDEDOR COM AÇÃO RESTRITA NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
CONCEDE MAIOR AUTONOMIA AO APRENDEDOR E INCENTIVA A INTERATIVIDADE
FOCO EM AUMENTAR HABILIDADES TÉCNICAS NECESSÁRIAS AO TRABALHO
DESENVOLVIMENTO DAS COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS PARA O NEGÓCIO


Obviamente existem outras diferenças, mas o objetivo aqui é contribuir com mais informações sobre o tema. Há vários estudos que defendem as UC’s como estruturas consistentes, que agregam valor ao negócio na medida em que reforçam a educação e o conhecimento empresarial e estimulam os colaboradores a desenvolverem suas competências e habilidades. Há também aqueles que acreditam se tratar de mais um modismo, como tantos outros que surgem e rapidamente caem em desuso ou simplesmente recebem outros nomes.

Pelo que tenho vivenciado, corroboro com a visão daqueles que acreditam nas UC’s, até mesmo porque, dentro delas, é necessário dar continuidade às ações de T&D. A mudança fundamental está justamente na visão e na estratégia que irão reger essa estrutura de maior complexidade. A UC deve operar como uma unidade de negócio dentro da empresa, gerindo os investimentos na educação corporativa de forma racional e coerente com o negócio, porque assim, será também agregadora de valor na cadeia de resultados.

Já participou ou participa de uma UC? Como você vê essas duas realidades? Compartilhe suas experiências conosco!

Até o próximo!

Ubirajara Neiva
Gestor e-Lead
Twitter: @e_lead

Educação para a diversidade nas empresas



“Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe”.

João Guimarães Rosa (Grande sertão veredas)

É com esta citação que quero despertar o tema de hoje. E o uso da palavra despertar é proposital porque a intenção do texto é exatamente essa. O que caracteriza o nosso tempo? Uma dinâmica insana de ponteiros disparados, muitas responsabilidades simultâneas, muita gente. E é aí que quero chegar. Na gente que faz tudo isso girar. Em qualquer lugar que se olhe, há tanta gente e tanta particularidade. É a tão falada diversidade. E como as empresas são organismos vivos e espelho social, são obviamente compostas por indivíduos únicos, movidos por um objetivo comum.

Estou falando não apenas das diferenças de raça, gênero, crença, orientação sexual ou mobilidade. Há muito mais que se entender e perceber nesse trato com pessoas. E é urgente que se compreenda que a educação é essencial nessa mudança dos tempos. Ela pode ampliar a visão dos grupos sobre cada indivíduo e oferecer a esse indivíduo o acolhimento que lhe é de direito. Charles Taylor (1994) aponta que um indivíduo ou um grupo de pessoas podem sofrer um verdadeiro dano, uma autêntica deformação se a gente ou a sociedade que os rodeiam lhes mostram como reflexo, uma imagem limitada, degradante, depreciada sobre ele.

E tudo começa na escola. É na educação básica que o trabalho de quebra das desigualdades e das percepções equivocadas precisa ser iniciado e construído. A idéia da escola inclusiva não pode estar restrita a grupos de alunos “diferentes”. A ação pedagógica deve contemplar a visão igualitária dos indivíduos e responder aos desafios que são atribuídos no cumprimento da função formativa, reconhecendo e valorizando a diversidade como um elemento enriquecedor do processo de ensino e aprendizagem.

Como sabemos que essa é uma tendência atual, várias gerações não foram abordadas ou sensibilizadas satisfatoriamente para essa necessidade. Aqui entra a importante contribuição das empresas, com o auxílio da educação. Retomando o início do texto, as empresas como espelho social estão expostas à diversidade e dela se apropriam para seus propósitos. E, assim sendo, sua contrapartida pode e deve ser feita de várias maneiras.

Edgar Morin diz que é necessário promover o remembramento dos conhecimentos oriundos das ciências naturais, a fim de situar a condição humana no mundo, dos conhecimentos derivados das ciências humanas para colocar em evidência a multidimensionalidade e a complexidade humanas, bem como integrar, na educação, a contribuição inestimável das humanidades. Não poderia dizê-lo melhor. A experiência social proporcionada pelo convívio na empresa oferece, aos profissionais que fazem a educação naquele ambiente, uma multiplicidade de sinais, informações e evidências que compõem uma rica fonte, que precisa ser visitada, revisitada e revirada diariamente.


Sabemos que beira à utopia a questão da igualdade de direitos e acesso às oportunidades, mas quanto melhor for o uso dos recursos educacionais focados na valorização das diferenças, mais igualitária será a prática. E alguns pontos precisam ser lembrados nesse processo:

- Toda a cadeia de valor da empresa e seus públicos de interesse precisam estar envolvidos nas estratégias educacionais;

- O comprometimento deve ser de toda a cadeia hierárquica. Não basta solicitar envolvimento da diretoria da empresa, por exemplo. É preciso contemplar esse público também nas ações, considerando suas características e diferenças;

- As pessoas que planejam, executam ou conduzem os processos educacionais nas empresas precisam estar integrados ao grupo e ter uma visão muito crítica e cuidadosa para a forma que vão dar a cada programa. O respeito à diversidade começa na abordagem das pessoas;

- O investimento em ações educacionais precisa ser planejado muito além da ação em si. É preciso entender que há outras necessidades até de caráter estrutural que precisam ser atendidas. Se a empresa deseja aplicar um treinamento em um lugar determinado, ela precisa garantir que todos terão acesso. Recursos para facilitar a mobilidade de portadores de deficiência física ou acompanhamento com profissional especializado em linguagem de sinais para portadores de surdez, por exemplo, são fundamentais;

- A criação de espaços e o incentivo à expressão de diferentes opiniões enriquece o processo educacional, proporciona a troca de conhecimentos e torna a dinâmica do trabalho mais rica.

E aproveitando o que disse o fantástico Guimarães Rosa, tudo se torna mais fácil quando se tem amor. Amor pelo que se faz, respeito e amor pelo outro. Uma empresa pode investir milhões em educação e treinamento e não ter o resultado esperado, se as pessoas não são valorizadas como indivíduos únicos, que são, e iguais, ao mesmo tempo, como partícipes e colaboradores da vida daquela empresa.

E como disse o filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey, “a educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”.

Contribua com a discussão! Deixe aqui seu comentário!

Até o próximo!

Ubirajara Neiva
Gestor de Educação Corporativa e Relacionamento

Andragogia aplicada à educação nas empresas





Com o passar dos tempos, novos conceitos vão surgindo ou antigos conceitos vão sendo difundidos e entram na pauta das organizações, sejam como modismo ou como alternativa educacional. Um desses termos em voga no nosso tempo é a andragogia. Muitos defendem que é mais um campo da pedagogia, outros que é um campo distinto da ciência. Há registros de que o termo surgiu em 1833, com Alexander Kaap e melhor desenvolvido em 1926, por Eduard Lindeman. Certo mesmo é que estamos falando de uma teoria sobre os melhores métodos de educação para os adultos.

Para melhor compreensão, vamos primeiro apresentar uma diferenciação fundamental entre a pedagogia e a andragogia:

PEDAGOGIA
ANDRAGOGIA
Ciência que estuda como ensinar crianças;
Modelo de ensino onde o professor é quem decide sobre o que será ensinado aos alunos, como este conteúdo será trabalhado e resolve a forma de avaliar se o conteúdo foi aprendido. Neste modelo de ensino, o aluno tem uma postura de submissão aos ensinamentos do professor.
Entende que o adulto não aprende com a mesma metodologia de ensino. Aandragogia questiona o modelo da pedagogia aplicado à educação de adultos, porque entende que o adulto é sujeito da educação e não o objeto desta.
Knowles (1970)

Explorando um pouco mais o tema e trazendo-o para a conformação da vida prática nas organizações, fica mais fácil visualizar essa diferenciação dada na teoria. O centro da discussão está mesmo no adulto, que aprende melhor na experiência prática, na vivência das situações, mesmo que com diferentes níveis de retenção, conforme os estilos de aprendizagem. Em uma situação de treinamento, por exemplo, o adulto precisa estabelecer uma ligação entre o que ele sabe e  vivenciou e o que aprenderá, com prejuízo de sua participação e interesse caso ele não identifique essa ligação. 

Assim, o planejamento de uma ação de educação deve estar fundamentada em informações prévias sobre o público-alvo, primando por atividades que estabeleçam uma conexão entre o conceitual e o prático, comum à atuação das pessoas na empresa. Estimular a troca de conhecimentos e experiências é outra preocupação que deve ser contemplada desde o início de qualquer ação, para proporcionar a autonomia necessária no processo de aprendizagem.

Na educação a distância, especialmente nos projetos focados na cena corporativa (o chamado e-learning/e-training), a andragogia é amplamente empregada como forma de garantir cada vez mais a proximidade dos conteúdos à realidade dos treinandos, usando os métodos e ferramentas de interatividade e simulação para criar esse ambiente de reconhecimento e conformação contínuos. Ilustrações de personagens, animações, cenários reais reproduzidos, testes interativos, jogos virtuais e outras alternativas semelhantes servem ao propósito de criar esses ambientes e gerar um certo conforto para a melhor fluidez do processo de aprendizado.

Mas não somente na educação a distância é possível construir os “cenários” propícios, defendidos na andragogia. Zezina Soares Bellan traz uma contribuição extremamente importante em seu livro Andragogia em Ação: Como Ensinar Adultos Sem se Tornar Maçante, de 2005, no qual oferece algumas técnicas para educação de jovens e adultos à luz da andragogia que podem ser adaptados à educação nas empresas:

SE OS APRENDEDORES ADULTOS...
O FACILITADOR/MULTIPLICADOR PODE...
Sentem-se mais confortáveis e confiantes em um ambiente informal
Criar um clima sem competitividade, onde haja respeito e confiança mútua
São responsáveis por seu próprio aprendizado
Dar oportunidade de escolha, deixando que os aprendedores façam opções dentro do processo de aprendizagem
Motivam-se mais quando há variedade de atividades
Programar atividades de aprendizagem envolvendo o uso dos cinco sentidos dos aprendedores
Iniciam melhor seu aprendizado orientados por uma tarefa
Planejar suas ações de formação com criatividade, usando diversidade nas técnicas de ensino e recursos audiovisuais
Aprendem melhor quando vêem, ouvem e fazem
Planejar atividades executadas pelos próprios aprendedores, mesmo que isto tome um tempo maior, evitando a simples demonstração
Preferem participar ativamente da aprendizagem ao invés de apenas receber informações
Permitir que os aprendeores participem de todas as etapas de seu aprendizado
Relacionam a aprendizagem com aquilo que já sabem
Pesquisar fatos da vivência dos aprendedores e usar estas informações como ferramenta para o ensino
Necessitam de exemplos reais e relevantes à sua vida
Incluir na ação de formação exemplos reais e cases como exemplo, desde que estejam integrados ao assunto
Bellan (2008, p. 60)

A aplicação da andragogia no trabalho com educação nas empresas traz um diferencial ao processo tradicional da aprendizagem e a descentralização das responsabilidades, incentivando a correponsabilização pelo aprendizado, tem resultados muito positivos. É importante estar sempre atento a essas possibilidades em todas as ações de formação e capacitação nas empresas. Assim como os tempos mudam, as pessoas também vão mudando sua maneira de pensar e suas expectativas. O engajamento delas deve ser feito pensando sempre em oferecer as alternativas mais ricas de troca de conhecimento e contínuo exercício do aprendizado.

E você? Já conhecia a andragogia? Deixe aqui seu comentário!

Até o próximo post!

Ubirajara Neiva
Gestor de Educação Corporativa e Relacionamento

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BELLAN, Zezina Soares. Andragogia em Ação: Como Ensinar Adultos Sem se Tornar Maçante. Santa Bárbara d’Oeste, SP: SOCEP Editora, 2005

KNOWLES, Malcolm. The modern practice of adult education. New York: Association Press, 1970.

Os talentos que estão “dentro de casa”



Disse Benjamin Franklin, certa vez, que “o talento sem a educação é como a prata na mina”. Assim como dizemos popularmente e fazendo uma analogia direta ao pensamento de Franklin, acredito muito na “prata da casa”, e é triste perceber como as empresas desperdiçam valores humanos importantes pela falta do olhar mais apurado e, consequentemente, de um sistema de identificação, resgate ou valorização de seus talentos.
Mas o que é o talento? Há como classificar ou catalogar? Para entendermos melhor, deixem-me contar uma história que presenciei há poucos anos. Havia, numa grande multinacional, um grupo de trabalho designado pela alta direção para melhorar os processos internos e alavancar os índices positivos de segurança no trabalho. De cada área foi determinado um representante, geralmente de cargos mais altos. De uma das áreas foi designado um especialista operacional, com formação para tal. Já na primeira reunião do grupo de trabalho, esse especialista mostrou-se extremamente seguro, um pouco inflexível e até arrogante.
Uma das ações acordadas pelo grupo foi a de fazer visitas técnicas nas áreas operacionais para identificar, catalogar e reforçar as melhores práticas de operação e segurança. Na primeira visita, justamente na área em que trabalhava aquele especialista, uma situação interessante aconteceu. Uma das máquinas com maior risco de acidentes parou de funcionar e o especialista então tomou a frente para apontar os erros de seus subordinados em frente ao grupo de trabalho. Por alguns minutos, ele listou ações equivocadas, apontou pessoas e, quando ia listar o procedimento para o reparo da máquina, um rapaz, de seus poucos 20 anos, se ofereceu para avaliar a avaria, o que foi prontamente negado pelo especialista.
Um dos membros do grupo de trabalho então resolveu chamar o especialista e sugerir que ele ouvisse o que o rapaz tinha a dizer, até mesmo por uma questão de respeito e educação. Mesmo contra sua vontade, o especialista abriu espaço para o jovem que, em menos de 5 minutos, abriu a máquina, encontrou a falha e apontou para uma forma mais rápida e eficaz de se resolver o problema. Fora o constrangimento do especialista, o que ficou para o restante do grupo foi que ali se encontrava um grande talento na empresa, até então subjugado a uma gestão equivocada do líder da área.
Essa história me veio à lembrança quando resolvi falar do assunto de hoje. Ficou muito marcado para mim esse acontecimento e, por diversas outras vezes, já vi o mesmo se repetir em várias empresas. É fato que existem muitos talentos nas empresas, que não são devidamente aproveitados exatamente porque não existe um ambiente propício para que sejam vistos, descobertos, aperfeiçoados.
Como também sou amante do esporte, vejo como alguns clubes e entidades desportivas, de várias modalidades, trabalham incessantemente na busca de talentos. É um investimento na base, na pesquisa de novos atletas em potencial e na formação desses atletas, que na maioria das vezes, irão para outros clubes e times numa próxima temporada. Esse é, para mim, um grande exemplo e outra excelente analogia que podemos fazer com o meio corporativo. Quando falo sempre aqui em educação nas empresas, busco sempre referendar exatamente esse trabalho visando o crescimento pessoal e profissional dos colaboradores nas empresas. Obviamente que devemos aí pensar numa lógica inversa, já que o interesse é para que a pessoa vá lapidando suas habilidades e competências para o crescimento junto com a empresa em questão, mas assim como no esporte, não se pode esperar que as pessoas se desenvolvam sozinhas, sem suporte e ambientes educacionais propícios.
Sabemos hoje que os maiores desafios das empresas no que diz respeito à gestão de talentos e carreiras são a identificação, o desenvolvimento e a retenção desses talentos. Uma mudança estratégica que acredito ser importantíssima e urgente está no incremento das práticas educacionais nas empresas com foco na descoberta e fomento dos talentos internos. Assim como na história que contei, é certo que há muitas pessoas com talentos incríveis dentro das equipes e que, por questões práticas e demandas do cotidiano, acabam por não serem conhecidos e, claro, ficam inutilizados, quando poderiam trazer enormes contribuições.
Mas como evitar uma revoada de talentos, quando o mercado é tão dinâmico e oferece oportunidades atrativas diariamente?
Nas ações educacionais numa empresa é possível perceber, catalogar e criar um sistema de talentos, que vai gerar informações úteis a todas as áreas da empresa. E isso não é tão complicado quanto parece. A conscientização de profissionais de RH que atuam em educação corporativa, e estes, por sua vez, criando acordos de trabalho com as lideranças, podem sim estruturar uma rede interna de identificação e fortalecimento de talentos. Em ações de treinamento, de cunho colaborativo, por exemplo, haverá sempre a oportunidade de perceber esses potenciais, com base nas contribuições que os colaboradores dão para discussões e processos de trabalho.
Os trabalhos de mapeamento de competências, confrontados com as necessidades da empresa e atrelados às trilhas de carreira construídas para cada profissional, possibilitam aos gestores e profissionais de educação orientar melhor as ações de educação, focando no desenvolvimento dos talentos. Uma das chaves para o sucesso de qualquer ação é a imersão dos colaboradores em atividades desafiadoras, que possibilitem um passo a frente nesse desenvolvimento, não somente conceitual, mas também prático, de expressão e relacionamento.
Educar não é simplesmente repassar um conhecimento. Nos tempos de hoje, a educação na empresa e em todas as instâncias da vida é também oportunidade de aprender, conhecer e reconhecer novas fontes de saber. Se a visão estratégica para a educação numa empresa for definida como um projeto de desenvolvimento a longo prazo, com incentivo constante à colaboração, é certo que os talentos da casa serão descobertos com mais facilidade. E com essa descoberta, outras ações devem ser desencadeadas para a sustentabilidade da empresa como formadora de talentos. É preciso reter esses talentos com política de remuneração adequada e sempre apontar para novas possibilidades de crescimento com os processos de recrutamento e seleção interna, o que certamente irá incentivar os colaboradores a buscar esse crescimento sem sair da empresa.
Espelhando o tema de hoje com outra experiência que já vivi, um dia ouvi um senhor que trabalhava comigo dizendo que uma pessoa talentosa criava suas oportunidades, mas que, com muita vontade ela criaria não somente oportunidades, mas o próprio talento. Será que todos não temos talentos que desconhecemos e precisamos mesmo é de incentivo? Será que as empresas estão perdendo tempo e dinheiro numa busca incessante por talentos e profissionais prontos, quando, na verdade, poderiam redirecionar esse tempo e investimento para descobrir e formar seus próprios talentos?
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Até o próximo!
Ubirajara Neiva
Gestor de Educação Corporativa
03/04/2012