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sábado, 2 de junho de 2012

10 erros dos líderes novatos


Você S/A / Desenvolva sua carreira / Edição 162 / Carreira - Liderança | 10 erros dos líderes novatos


Os jovens profissionais estão se tornando gestores cada vez mais cedo. Conheça as falhas mais comuns entre os novos chefes e saiba como corrigi-las

Camila Mendonça (redacao.vocesa@abril.com.br)   | Edição: Murilo Ohl /  10/12/2011

Crédito: Ilustração: Alexandre Deruiz
 - Crédito: Ilustração: Alexandre Deruiz
Nos últimos anos, o mercado de trabalho no Brasil vive a seguinte situação: com a economia em crescimento, abriram-se vagas e faltou gente qualificada para preenchê-las. A maneira que a maioria das empresas encontrou para resolver essa questão foi promover seus jovens mais bem avaliados internamente para ocupar as novas posições. 

Essa solução tem dois efeitos positivos para a companhia que a adota: ela consegue preencher o posto vazio e, ao mesmo tempo, dá um aumento ao funcionário promovido, o que ajuda a retê-lo num momento em que o mercado está atrás de gente. O problema desse processo começa a ser sentido de forma nítida agora: há muita gente imatura em posição de liderança. "Vivemos a fase do profissional em sua primeira vez: primeira vez gerente, primeira vez diretor, primeira vez presidente", diz Marcelo Cuellar, headhunter da Michael Page, empresa de recrutamento de executivos.

A sucessão dos cargos de gestão sempre aconteceu nas organizações. A diferença é que agora esse movimento se dá numa escala e numa velocidade sem precedentes no país. O resultado da inexperiência dos líderes é uma gestão mais exposta a erros, que são inerentes ao aprendizado, mas se tornaram mais corriqueiros. 

"Líder você não pega na prateleira", diz Marcelo Cuellar. "Se as empresas estão colocando inexperientes em postos de comando, têm de estar dispostas a pagar um preço e a conviver com falhas."

Obviamente, não é dado aos líderes tempo de maturação na posição, o que faz com que aprender na prática seja a única alternativa para os funcionários recém-promovidos. "As companhias não se prepararam adequadamente para esse crescimento", diz Janaína Ferreira Alves, coordenadora de pós-graduação do Ibmec, escola de negócios do Rio de Janeiro.

"Os profissionais que hoje estão ocupando pela primeira vez cargos de liderança normalmente tiveram uma ascensão acelerada, o tempo natural da carreira não foi respeitado, e isso tem consequências." Mesmo com pouca experiência na cadeira de gestor, é possível corrigir as falhas. 

A VOCÊ S/A ouviu chefes que assumiram cargos de liderança há pouco tempo e já aprenderam algumas lições. Também foram consultados especialistas em gestão de pessoas, liderança e recursos humanos. Esses profissionais apontaram os dez principais erros (e suas soluções) cometidos por gestores novatos. Confira.


1 O problema
Baixo foco em pessoas 
Um dos principais problemas de líderes jovens é a dificuldade de gerenciar pessoas, segundo todos os especialistas consultados. "É um erro acreditar que ser gestor é ser o técnico dos técnicos", diz o coach Silvio Celestino, de São Paulo. "Eles se esquecem das pessoas e lideram pela pressão, colocando em risco a questão da qualidade de vida deles e da equipe", diz Vera Martins, professora do curso Liderança Assertiva da Fundação Vanzolini, de São Paulo.

A solução 
Olhe para o lado Para gerir pessoas, dizem os especialistas, a solução é olhar para o lado e prestar atenção no que dizem e querem os subordinados. Tratar todos com respeito e educação é fundamental. Cursos de liderança, livres ou oferecidos por instituições de ensino, abordam o tema gestão de pessoas e até podem ajudar. "Eles amenizam as falhas, mas não resolvem o problema", diz Marcelo Cuellar, da Michael Page.



2 O problema
Não ter propósito de carreira
Erram os líderes que assumem o posto por status e salário. "Esse, com certeza, é o pior erro que o gestor pode cometer", diz Silvio Celestino. Para ele, quem lidera de olho na conta bancária não consegue

A solução 
Defina o que você quer Ter uma meta é importante em qualquer momento da carreira. Se a ideia é ser gestor, veja como alcançar o objetivo da melhor maneira possível para a sua trajetória profissional, avaliando o que ainda é preciso desenvolver para conseguir o que quer.



3 O problema
Descuidar-se da comunicação 
Comunicar-se bem é uma obrigação do gestor. Ele é o responsável por traduzir para a equipe a estratégia da empresa. Quem falha nesse quesito terá problemas de desempenho. "Eu falhei ao tentar fazer mudanças de gestão sem alinhar com meus sócios", diz Gustavo Gomes, de 33 anos, diretor executivo do Grupo Núcleos, de clínicas médicas. "Teria gastado menos energia se tivesse identificado algumas pessoas-chave para me ajudar nesse processo." 

A solução 
Seja transparente "Ouvir e dar abertura para as pessoas exporem ideias é imprescindível", diz Taís Amaral, professora de pós-graduação da Trevisan Escola de Negócios, em São Paulo. Comunicar claramente aos subordinados os passos que a organização dá faz do líder uma referência. "Se as coisas não estiverem bem, diga que não estão bem", diz Janaína Alves, coordenadora de pós-graduação do Ibmec.



4 O problema 
Comprometer-se demais 
Por insegurança ou ambição, o jovem líder pode assumir prazos e outros tipos de compromisso sem saber se pode cumpri-los. No passado, o economista Sacha Dowek, de 32 anos, gerente comercial da Adina, importadora e produtora da indústria têxtil, prometeu a clientes prazos que dificilmente conseguiria arcar. "Foi ingenuidade", diz. Hoje, com três anos na gerência da área comercial da empresa, Sacha aprendeu o valor de pensar a longo prazo. "Sou menos impulsivo", afirma. 

A solução
Visualize o futuro "Comprometer-se além da conta é um erro quase inevitável e faz parte do perfil do jovem", diz George Stein, gerente de programas abertos do Insper, escola de educação executiva. Por mais tentador que seja, diga "não" quando não tiver certeza. "Planejando, o risco de errar é menor", avalia George.


Compromisso demais 
[ SACHA DOWEK, 32 ANOS, GERENTE DA ADINA ]
Em seus primeiros passos como gestor, o economista Sacha Dowek, gerente comercial da Adina, importadora e produtora têxtil, do Rio de Janeiro, assumiu com clientes compromissos que no fundo ele sabia que não poderia cumprir. "Hoje, tenho mais consciência", diz ele.


5 O problema
Comportar-se como um colega Dois sentimentos distintos podem surgir quando se alcança um posto de liderança: arrogância ou condescendência. O medo de perder a amizade daqueles que, até então, eram seus pares é o que mais acomete líderes jovens, acredita Taís, da Trevisan. 

O receio faz com que eles deixem de fazer cobranças mais pontuais para tentar ser vistos como colegas. "Via mais o lado do colaborador do que o da empresa e cheguei a me exceder com um superior por isso", diz Renata Honorato, de 29 anos, gerente de vendas e marketing há dois anos do E.Group, rede de pousadas e hotéis de luxo. 

"Fui solidária demais." Quando teve de demitir duas pessoas a pedido da empresa, sob a justificativa de corte de pessoal, Renata sofreu. "Fiquei até doente." 

A solução 
Equilibre os dois pratos da balança Quando um colega assume um cargo de chefia, ocorre uma mudança na relação de poder, o que pode gerar atrito. O líder deve mostrar que tem seus valores e que eles estão alinhados aos da organização.

Como fazer? Preservando a coerência entra a fala e a ação no dia a dia. Manter o equilíbrio entre as crenças pessoais e considerar as necessidades da companhia e dos subordinados são os principais passos para evitar o estresse pessoal e na relação com a equipe.


Amizade com a equipe 
[ RENATA HONORATO, 29 ANOS, GERENTE DO E.GROUP ]
Há sete anos ocupa cargo de gestão. Há dois, assumiu a gerência de vendas e marketing do E.Group, rede de pousadas e hotéis de luxo. No começo, tomava partido dos funcionários. "Fui solidária demais."


6 O problema 
Focar apenas em resultados
Um líder que fica de olho apenas no fim do processo, que na maioria dos casos são metas financeiras, tende a criar atalhos para alcançá- lo mais rápido. 

"Muitas vezes, esses atalhos trazem resultado imediato, mas comprometem a empresa no longo prazo", diz Stella Angerami, especialista em counselling, de São Paulo. Apresentar resultado de cara é a grande preocupação de uma pessoa nova no cargo. Mas forçar a equipe a apresentar números não dá em nada. "Isso pode levar a equipe a tomar atitudes ilegais ou antiéticas", diz Silvio Celestino. 

A solução
De olho no caminho A conquista de resultados é um processo. Administrar a pressão desde o primeiro dia evita que ela cresça muito no final. Além disso, diz George Stein, gerente de programas abertos do Insper, esse cuidado auxilia o gestor a planejar e distribuir tarefas de uma maneira organizada

7 O problema 
Dificuldade em dar feedback 
O líder é responsável por explicar a seus subordinados se o trabalho deles está de acordo com o que a empresa espera, se eles estão indo na direção certa. Ao cumprir mal essa tarefa, ele prejudica o desempenho de sua equipe e o seu próprio. "Sem retorno, o funcionário não sabe o valor de seu trabalho", diz Fábio Saad, consultor da Robert Half.

A soluçãoAvalie constantemente Sentar com cada membro da equipe, ao menos uma vez por mês, deve ser rotina de todos os líderes. Se a equipe for grande, o líder deve acompanhar o trabalho, orientar e dar o retorno enquanto as coisas acontecem. A avaliação de desempenho é uma ferramenta importante para auxiliar líderes a entender a equipe. Mas o líder deve ajudar a colocar em prática o que foi combinado na avaliação.


8 O problema 
Falta de controle sobre a ansiedade 
"A ansiedade leva a erros, e todas as outras habilidades ficam fragilizadas em momentos de tensão", diz Janaína, do Ibmec. Allan Sato Horita, de 29 anos, diretor de marketing, negócios e operações da Transit Telecom, empresa de telecomunicações de São Paulo, entrou na empresa como estagiário de direito em 2006 e após um ano já era supervisor. "Eu estava aprendendo a gerenciar pessoas e, por um momento, esqueci um pouco de ser gestor. Na ansiedade, atropelava funcionários para atingir resultados", diz. "Essa atitude gera desmotivação. É um dos maiores erros que um líder pode cometer", diz Fábio Saad, gerente da consultoria Robert Half. 

A solução 
Planejamento ajuda A ansiedade deriva da insegurança ou da necessidade de controle. Uma alternativa para dosá-la é ouvir a equipe também. "Comecei a conversar com pessoas mais experientes e com minha equipe", diz Allan. "Estou mais informado e menos ansioso."


9 O problema
Generalizar a gestão
Tratar a equipe de forma homogênea é uma maneira de facilitar a gestão — para o líder. Para quem está embaixo, isso pode gerar frustração. "Você tem que levar diferenças em conta para garantir a igualdade e a justiça", diz Marcelo Cuellar, da Michael Page. É um erro dar condições iguais para profissionais que têm experiências e realidades diferentes. "Não dá para uniformizar a gestão", diz Gianfrancesco Ghiurghi, de 31 anos, gerente de vendas da Sadive, concessionária de caminhões de São Paulo, que se tornou gestor há menos de dois anos. "Uma das principais dificuldades que tive foi aprender a trabalhar a individualidade", diz Gianfrancesco. 

A solução
Estude sua equipe Um bom gestor, acredita Germano Glufke Reis, professor da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGVEaesp), sabe identificar e ressaltar os pontos fortes e amenizar as falhas de seus subordinados. "É obrigação do gestor estudar a equipe e saber com quem está trabalhando", avalia Germano. Para evitar injustiças, conheça o que cada membro de seu time tem a oferecer e monitore a evolução de cada um deles.


10 O problema 
Não saber delegar 
"Eu queria abraçar o mundo, mas fiquei sobrecarregada e estressada", conta a administradora Crisleine Pereira, de 30 anos, diretora da Comunika, empresa de negócios por celular, de Porto Alegre, que passou de analista de marketing a diretora em três anos. Os primeiros meses como líder, lembra ela, foram difíceis. "Os meus maiores desafios eram priorizar e aprender a delegar." A dificuldade de distribuir tarefas é erro comum entre os mais inexperientes, que acabam centralizando e realizando as tarefas dos subordinados com medo de perder o poder. "A pessoa acaba fazendo sozinha, com receio de que os outros não façam direito", afirma o coach Silvio Celestino. 

A solução

Confie na sua equipe A consequência de não delegar é entregar um trabalho atrasado e com erros. Por isso, a solução é ir experimentando aos poucos até adquirir confiança nos profissionais. "Estabelecer relação de confiança e comprometimento com a equipe exige equilíbrio emocional", afirma Janaína, do Ibmec. "E isso leva tempo."


Delegar tarefas
[ Crisleine Pereira, 30 anos, diretora da Comunika ] 
Subiu de cargo em três anos. No início de sua experiência, ela não soube delegar, acumulou tarefas e ficou sobrecarregada. "Eu queria abraçar o mundo, mas fiquei sobrecarregada e estressada."






sábado, 28 de janeiro de 2012

Como dar feedback para profissionais da geração Y

Os jovens querem avaliação de desempenho constante. Saiba como conversar com essa turma

Eliza Tozzi (redacao.vocesa@abril.com.br)  11/11/2009
Na rede de fast-food McDonald’s, sete em cada dez dos 37 000 funcionários têm menos de 21 anos. É uma população de pessoas da Geração Y, aquela formada por profissionais nascidos após 1980. Luís Bueno, diretor de RH da empresa, orienta os líderes a conversar sempre com os jovens. Como em outras companhias, o McDonald’s está descobrindo que a Geração Y é uma consumidora voraz de feedback. “Essas pessoas querem saber o que fazer para crescer na carreira, por isso a avaliação é importante”, diz Luís. De acordo com a pesquisa Empresa dos Sonhos 2009, realizada pelo Grupo DMRH, consultoria de RH de São Paulo, 54% dos 26 000 jovens profissionais brasileiros exigem orientação constante. “Eles precisam se sentir seguros”, diz a consultora Sofi a Esteves, do Grupo DMRH. Um exemplo é o administrador paulistano Henrique Striker, de 25 anos, gerente de mercado da Telhanorte, rede de lojas de material de construção. 


Formado em 2007, foi promovido de trainee ao posto atual em menos de um ano e atribui o crescimento à insistência em pedir feedback. “Saber como está o meu trabalho é tão importante quanto o resultado de um projeto”, diz Henrique. Para os gestores, um conselho: não esperem os momentos pré-estabelecidos pela empresa para falar sobre o desempenho dos jovens. “O feedback formal não é sufi ciente”, diz Rodrigo Guimarães, de 28 anos, gerente sênior da farmacêutica Quintiles. “Encaro essas situações como avaliação fi nal, quando não dá tempo de consertar erros”, afi rma. 

Por serem menos cerimoniosos em relação aos mais velhos, os jovens veem o feedback como conversa informal. “Quero liberdade para conversar com meu chefe”, diz Jaqueline Ferreira, de 25 anos, gerente do McDonald’s. Na rede de lanchonetes, ela não só pode, como deve agir assim. “Recebemos pela intranet 30 mensagens por mês com críticas e sugestões”, diz Luís. A companhia também dá feedback por meio de SMS. Quando atingem grandes resultados, os funcionários recebem torpedos. Mas Lúcia Menezes, diretora de RH da Andrade Gutierrez, alerta que às vezes é preciso ser formal com essa turma. “Muitos não encaram a troca diária como feedback. É importante avisar o funcionário quando ele está passando por avaliação”, diz. 

54% dos 26 000 jovens profissionais brasileiros querem ter orientação constante no trabalho 
CLAREZA É FUNDAMENTALUma das atitudes que mais agrada a esse pessoal é a precisão das informações. O feedback ideal deve ser direto e bem embasado. “Até a crítica negativa pode ser bem recebida se o gestor provar seus pontos de vista”, diz Sofi a, do DMRH. E os chefes também precisam ouvir. Os da Andrade Gutierrez estão bem nesse quesito. A empresa entrevistou 260 funcionários e descobriu que 89% deles consideram que os gestores aceitam opiniões. “É um bom indicativo de que a atitude da liderança está mudando”, diz Lúcia. 

TODOS NO MESMO TIME 
A turma da Geração Y só obedece a pessoas que admira. Sofi a explica: “Eles seguem apenas chefes nos quais podem se espelhar.” Para conseguir respeito, um bom caminho é mostrar que gestor e subordinado fazem parte da mesma equipe. “Ao perceber que o esforço deles é fundamental para o crescimento da empresa, os jovens trabalham com mais entusiasmo e criatividade”, diz Luís Felipe Cortoni, sócio- diretor do Ateliê de Pesquisa Organizacional, responsável por estudos que investigam a relação entre líderes e Geração Y.


Fonte: http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/materia/como-dar-feedback-profissionais-geracao-y-511604.shtml

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Só é tarde se você não fizer

Só é tarde se você não fizer



Fulano gostava de ler e escrever, então foi estudar Publicidade. Formou-se numa boa Universidade e logo começou a trabalhar com marketing e vendas. Ao perceber que a Tecnologia de Informação estava transformando o mundo dos negócios, resolveu fazer uma pós-graduação no tema, para melhor entender suas aplicações em sua área.
Por causa do seu interesse em ler e aprender, acabou fazendo um Mestrado, para consolidar melhor os ensinamentos que o mundo lhe proporcionava. Mudou-se de cidade e de estado em busca de oportunidades ainda melhores. Mas quanto mais estudava e trabalhava, mais Fulano percebia que o marketing que se pratica nas grandes empresas tem mais a ver com preencher planilhas, fazer previsões e construir relacionamentos do que com o que aprendera em seus estudos e livros.
Fulano passou a escrever sobre isso. Criou um blog mixuruca e mostrou para os seus amigos. Ninguém quis saber. Aí coisas estranhas começaram a acontecer, quando estranhos começaram a ler o que ele escrevia. Alguns viam sentido nas coisas que dizia – ou melhor, escrevia. Aí Fulano passou a escrever num outro blog, depois mais outro e outro.
Então Fulano decidiu realmente mudar. Aos 38 anos, Fulano abriu uma empresa de treinamento, ignorando todos os que diziam que mudar de carreira nessa idade seria uma loucura. Fulano acreditava que não havia idade certa para largar o caminho errado. Loucura seria insistir no erro.
E Fulano foi atrás da sua empresa. Ideias surgiam umas atrás das outras. Cursos, treinamentos, textos, palestras e tudo o mais que pudesse mudar uma percepção, um conceito, um entendimento. Fulano trabalhava nas suas ideias a qualquer hora do dia ou da noite.
Embora fosse um ritmo pesado, Fulano não reclamava. Às vezes Fulano tinha uma ideia no sábado à noite e sentava-se para colocá-la no papel. Às vezes só parava no domingo à tarde. Por outro lado, não tinha nenhum problema em ir passear no parque na segunda-feira ao meio-dia.
Hoje Fulano não tem hora para trabalhar, porque gosta do que faz e, mesmo que esteja, nunca parece estar trabalhando. Tudo parece divertido, motivante, desafiador. A cada dia que passa, Fulano tem certeza de ter tomado a decisão correta.
Fulano se chama Rodolfo. Fulano sou eu.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A contratação é só o começo

A contratação é só o começo

O processo de adaptação ao novo emprego ainda é um problema nas empresas. Saiba como superar essa etapa sem traumas

Luís Pereira 19/11/2010
A vaga é sua, parabéns." Ouvir essa frase é um alívio para o recém-contratado. Porém, o período de comemoração dura pouco e logo o profissional entra na fase de provação. Decisivo para a permanência no cargo, o processo de integração e adaptação pode ser extenuante e complicado. 
Um estudo da década de 90 da consultoria Stanton Chase avaliou o que levava pessoas recém-admitidas a ficar ou sair. A pesquisa mostrou que o risco de deixar o emprego é maior nos primeiros 18 meses - depois dessa etapa as coisas tendem a se acomodar. Entre os fatores mais valorizados por novos empregados estavam a forma como foram recebidos pelo time e pela chefia e o nível de competitividade do ambiente de trabalho. Todos eles são assuntos comportamentais.

Itens como competência, qualificação ou valores da companhia só apareciam depois. Apesar de ser antigo, o estudo da Stanton Chase continua atual. A questão da integração está na pauta do dia porque, com o mercado de trabalho aquecido, muita gente foi contratada (ou contratou) pessoas nos últimos meses. Além disso, é comum encontrar desgastes nos primeiros meses de casa nova.

Segundo Carlos Eduardo Altona, sócio-diretor da Exec, empresa de recrutamento especializado, o Brasil está muito atrasado em relação à contratação e à integração de funcionários. "Metade das contratações que não dão certo é fruto da má adaptação dos novos empregados à empresa e aos cargos", diz ele, que está oferecendo aos clientes um serviço de acompanhamento de profissionais recrutados por ele nos primeiros meses de trabalho.

Mas como desenvolver uma adaptação bem-sucedida? A busca por uma solução cabe mais ao gestor ou ao novo empregado? Cada um tem sua parcela de responsabilidade, mas a principal, segundo Carlos Eduardo, é do gestor, que deve explicar com clareza o que é esperado de um profissional. "As pessoas entram nas companhias sem ter ideias claras de suas metas. Isso gera muito problema porque a avaliação delas passa a ser subjetiva", diz Carlos Eduardo.

Portanto, se você é recém-contratado, pergunte, esclareça e cobre seu chefe diante de qualquer dúvida que você tiver. Não tenha vergonha: é melhor parecer desinformado no início do que dizer que houve um mal-entendido depois. Uma orientação importante de especialistas em carreira é dedicar os primeiros meses de trabalho à construção de alianças com outros profissionais na organização.

São essas pessoas que vão lhe indicar os caminhos menos visíveis, não registrados nos processos corporativos.

"A empresa funciona como uma engrenagem. Se você não tiver bons relacionamentos, fica difícil trabalhar", diz Marcelo Freund, de 31 anos, gerente de vendas da Vitopel. "Logo no início, é importante identificar quem são as pessoas com quem você vai trabalhar e criar as suas alianças." Um trabalho paralelo é procurar compreender as diferenças socioculturais que podem existir com colegas, pessoas-chave da empresa e, principalmente, seu chefe. É o que vem fazendo Marcos Carmona, de 40 anos, gerente de contas da Gemalto.

Mesmo com uma boa bagagem corporativa, ele tem encarado a novidade de lidar com um chefe de diferente religião. Apesar de não ser uma grande barreira, a situação exige medidas sutis, que aparentemente nada têm a ver com o trabalho. "Fico atento para não dizer algo ou adotar um comportamento que possa gerar algum tipo de indisposição entre nós", diz Marcos. Hoje em dia, o alto nível de exigência nas contratações, principalmente em níveis gerenciais, pode dificultar o processo de adaptação dos novos profissionais.

Carlos Eduardo Altona acredita que a necessidade de imediatismo do mercado aliado à demora na contratação e os altos custos desse processo fazem com que os novos funcionários já entrem com a sensação de estar devendo. "Logo nas primeiras semanas, o contratado é envolvido em uma enxurrada de responsabilidades e atividades da companhia sem ter tempo de digerir coisas básicas, super-relevantes."

A área de recursos humanos também deve ser atuante no processo de adaptação do novo contratado, informando adequadamente quais são as políticas da companhia, quais são seus benefícios, se existem códigos de conduta e o que a empresa mais valoriza nos empregados. Os tradicionais programas de integração, que a maioria das grandes corporações tem, muitas vezes ficam no papel. "Poucas investem realmente em passar essas informações, dando um treinamento mais apropriado aos novos profissionais", diz Carlos Eduardo. Por isso, se você está de casa nova, procure conhecê- la o melhor possível.

NA HORA DA CHEGADA
O quadro mostra algumas atitudes que facilitam sua integração na empresa. Se você é chefe, veja como receber o novo funcionário

Se você é um novo funcionário
• Discuta suas atribuições com o chefe: você estará alinhado com ele e evitará cobranças desnecessárias no futuro.
• Descubra as competências técnicas e comportamentais exigidas: o RH ou a intranet é uma boa fonte de informação.
• Faça um plano de desenvolvimento individual: comunique-o ao chefe ou ao RH. Assim, fica mais fácil acompanhar seu desenvolvimento e negociar uma promoção.
• Construa alianças: você vai saber o que acontece nas diversas áreas da companhia e vai aumentar seu poder de influência.
• Identifique um "mentor": fica mais fácil desenvolver seus pontos fracos e suas novas competências.

Se você acaba de contratar um funcionário
• A contratação é só o início: após a integração formal, explique com clareza o que é esperado do profissional.
• Seja claro e objetivo ao definir as metas: você mantém o alinhamento com a equipe. Não se esqueça de cobrar e dar feedback.
• Cumpra com o que foi acordado: a falta de coerência entre o discurso e a prática mina qualquer relação.
• Deixe claro as prioridades da área e do cargo: isso garante o senso de prioridade e o foco da equipe.
• Dê tempo para a adaptação: segure a ansiedade e respeite o período de aprendizado do empregado


Você S/A / Desenvolva sua carreira / Edição 148 / Carreira - integração | A contratação é só o começo


http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/materia/contratacao-so-comeco-610028.shtml



domingo, 17 de outubro de 2010

Arquiteto de escolhas

Arquiteto de escolhas

O economista Richard Thaler, da Universidade de Chicago, diz como os líderes podem melhorar a forma como seus colaboradores decidem

José Eduardo Costa (undefined)  11/01/2009
Crédito: Beth Rooney
Richard Thaler em discurso na Universidade de Chicago: o gestor deve questionar as premissas nas decisões dos empregados - Crédito: Beth Rooney
Richard Thaler em discurso na Universidade de Chicago: o gestor deve questionar as premissas nas decisões dos empregados
O economista americano Richard Thaler, de 63 anos, se decepcionou há alguns anos com os modelos econômicos desenvolvidos por seus colegas de profissão, por não considerarem em suas análises o fator psicológico, que influência a forma como compramos, onde investimos e até que carreira seguimos. Segundo ele, os modelos são construídos a partir de perfis ideais, extremamente racionais e não suscetíveis às emoções. No mundo real, diz Richard, as pessoas cometem erros e fazem escolhas sem considerar os reflexos no longo prazo. "Somos imediatistas", diz. Richard enveredou pela psicologia e se especializou em uma área que hoje aplica a teoria econômica à interpretação de fenômenos do cotidiano.

Ele lecionou na Universidade de Stanford, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e desde 1995 é professor da escola de negócios da Universidade de Chicago. No mês passado, Richard veio ao Brasil para divulgar seu livro Nudge, O Empurrão para a Escolha Certa (Editora Campus/Elsevier), escrito em parceria com Cass Sunstein, também da Universidade de Chicago. Nele, o professor apresenta o conceito de arquitetura de escolhas, segundo o qual é possível criar um ambiente de decisões que permite escolhas mais estruturadas e mais acertadas de acordo com os seus objetivos. Ele falou a você s/a.

Do que trata a ideia de arquitetura de escolhas?
Assim como um arquiteto que toma decisões ao desenhar um prédio considerando a maneira como as pessoas vão usufruir dos espaços no futuro, a ideia de arquitetura de escolhas pressupõe que você antecipe cenários, mude o peso das variáveis envolvidas na decisão, coloque-se no papel da outra parte. Esse exercício faz você ponderar sobre os prós e contras de cada possível decisão, optando pela que é mais pertinente aos objetivos que quer alcançar. Parece trabalhoso, mas a prática torna o exercício automático.

De onde tirou esse conceito?
A partir de um livro de Don Norman (The Design of Everyday Things). Nele o autor diz que os designers precisam estar atentos aos usuários de seus objetos, pois nós humanos temos de tomar dezenas de decisões todos os dias. Portanto, o design deve facilitar a vida do usuário. Da mesma forma, se você é um gestor e influencia indiretamente as decisões que as outras pessoas fazem, você é um arquiteto de escolhas e deve simplificar as opções.

Quais são as características de quem toma boas decisões?
Uma das coisas mais importantes é permanecer calmo. Evitar ficar muito entusiasmado. Quando deixamos que as emoções se apoderem de nós, fazemos péssimas decisões na maior parte das vezes. Outra coisa importante é estar aberto a diferentes pontos de vista. É muito comum ver executivos que só ouvem aquelas pessoas que concordam com ele. E esse não é um bom caminho. Quando você ouve pessoas que discordam de você enriquece a análise e tem mais chance de tomar a decisão correta.

  “Observar o cenário e saber compreender os sinais
  que as pessoas dão ajuda a tomar decisões  inteligentes",
  diz o professor Richard Thaler


Quais os erros mais comuns que um gestor deve considerar quando avalia a decisão de terceiros?
O principal erro é o excesso de confiança, que faz muitos profissionais construir modelos irreais. Ela faz as pessoas subdimensionar variáveis importantes e que podem levar um projeto ao fracasso. Portanto, o gestor deve questionar a fundo as presunções feitas pelo empregado. Outro erro bastante comum é o que eu chamo de aversão à perda. Isso acontece porque as pessoas são mais sensíveis às perdas do que aos ganhos. E isso é um problema quando a empresa precisa inovar e seus profissionais só tomam medidas convencionais. Muitas vezes nós temos de arriscar e perder algo para conquistar um bem maior no futuro. Claro, a empresa deve incentivar esse comportamento.

No livro você menciona o conceito de postcompletion error, o que é isso?

Muitas vezes as pessoas tomam decisões e na hora de implementar focam nos objetivos de curto prazo, esquecendo-se das metas de longo prazo. A decisão não fica prejudicada, mas a execução sim. E quando as coisas vão mal no futuro, a pessoa será questionada. Deixar de considerar o impacto da decisão no médio e longo prazos é um erro.

No livro você sugere que, antes de tomar decisões, devemos procurar o meio ambiente e as pessoas envolvidas no processo. Como isso funciona?
Observar o cenário e saber compreender os sinais que as pessoas dão ajuda a tomar decisões inteligentes. Fala-se muito no tal efeito manada como uma coisa ruim. Em algumas situações seguir a manada pode ser benéfico. Por outro lado é preciso lembrar que a crise que está aí começou por causa do consumo desenfreado das pessoas, que viam seus vizinhos comprando um carro novo, uma casa nova. Essas mesmas pessoas decidiam tomar empréstimos sem avaliar qual seria o impacto caso o cenário mudasse (aumentos dos juros, perda de emprego etc.).

Falando em escolhas de carreira, quais são os enganos mais comuns?
Um dos erros que vejo entre meus alunos na escola de negócios da Universidade de Chicago é as pessoas escolherem as carreiras baseadas no campo que elas mais gostam de estudar. E isso não necessariamente quer dizer que essas pessoas vão ser felizes ou bem-sucedidas.

As pessoas fazem essa opção pois são levadas pela paixão sobre o tema, não é?
Sim, mas a escolha de carreira também pressupõe entender quais são seus interesses financeiros, pessoas com quem quer conviver e qual a perspectiva de médio prazo. Muitas vezes o trabalho em si não é tão interessante quanto a área de estudo. Você tem que entender do que se trata a carreira ou o emprego a que aspira e descobrir se você gosta. Daí, decidir.

http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/materia/arquiteto-escolhas-483510.shtml

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A construção do líder Y

O modelo tradicional de liderança está ruindo. O desafio agora é engajar talentos inquietos em empresas engessadas.

Revista Você S/A - por César Souza

Muito tem se falado so­bre a Geração Y, for­mada por pessoas que nasceram nos anos 80 e estão in­gressando agora no mercado de tra­balho. O perfil desses profissionais já foi definido pelo mercado: eles têm pressa, necessidade de reconhe­cimento, curiosidade, criatividade e informalidade. Engajar esses talen­tos representa um instigante desa­fio num mundo corporativo já em profunda transformação. Um con­junto inesperado de circunstâncias - novos consumidores, novas plataformas de negócios, novas con­figurações de mercado e novas tec­nologias - está impactando o coti­diano das empresas. São mudanças profundas, capazes de desconstruir ideias e companhias que até pou­co tempo eram consideradas sóli­das. Quem exerce função de lide­rança hoje enfrenta esse duplo de­safio: atrair e inspirar profissionais da chamada Geração Y e reinven­tar as empresas em que trabalham.

Hoje, as companhias necessitam de um novo tipo de liderança - um "líder Y" -, preparada para lidar com um mundo em transformação. Não estou falando de idade, embora tal­ vez devamos olhar para a riqueza que a nova geração está trazendo para dentro das empresas. O líder Y, independentemente da data de nas­cimento, representa uma forma de atuação capaz de ajudar a nos pre­parar para empregos que ainda não existem; para usar tecnologias que ainda não foram inventadas; e para resolver problemas que ainda nem sabemos que teremos de enfrentar.

Quem é esse líder? Para entender suas competências diferenciadoras, é oportuna uma reflexão sobre as cau­sas do verdadeiro apagão da lideran­ça, que corrói o mundo político, as empresas, as escolas, as famílias. Por toda parte percebemos a escassez de líderes. Nas companhias, ainda pre­dominam os chefes. Faltam sucesso­res preparados. Quando um funda­dor deixa o negócio, todo o espíri­to inovador que ele havia cultivado se perde. Veja o caso da TAM. O co­mandante Rolim Amaro, morto em 2001, era um líder visionário, que sa­bia reunir clientes e colaboradores e investir em ambos. Sem ele, a TAM perdeu seu diferencial e até hoje lu­ta para voltar a ser o que era.

Poucas empresas conseguem de­senvolver uma prática avançada de liderança. A construtora Odebrecht é um bom exemplo de formação de líderes no Brasil. Hoje, a companhia tem 23 presidentes, um em cada país em que atua. Todos têm substitutos identificados - uma verdadeira fá­brica de líderes, capazes de atuar em culturas diferentes e em negócios di­versificados, como etanol, petroquí­mica e infraestrutura. Apesar de sa­bermos que o tradicional modelo de liderança já não funciona mais, não apareceu nada de consistente para substituí-lo. Não se trata apenas de melhorar o que existe, mas, sim, de reinventar o pensamento e a ação. Com base na oportunidade que tenho de conviver com líderes inspiradores em diversas partes do mundo, ouso, então, propor cinco competências para a prática da liderança do líder Y.

Levante uma bandeira. Ofereça às pessoas aquilo que elas mais desejam: um significado para a vida. As pes­soas estão dispostas a oferecer o me­lhor de si e até a fazer sacrifícios, des­de que se identifiquem com uma cau­sa. A Geração Y é fiel a causas com as quais se identifica, não apenas a mar­cas famosas, como no passado.

Forme outros líderes, não apenas seguidores. Não se satisfaça em ter atrás de si um grupo de pessoas que o seguem fielmente e buscam sua leal­dade como recompensa. Tenha em torno de si pessoas capazes de exercer a liderança se necessário. Crie mecanis­mos e atitudes que estimulem o de­senvolvimento de novos líderes.

Cuide do todo, não apenas da parte. Atue onde possa fazer diferença. Não comande apenas uma equipe de su­bordinados dentro das paredes de uma empresa. Busque exercer a lide­rança também para fora, para cima e para os lados. Lidere clientes, parcei­ros, comunidades e influencie chefes, colegas e acionistas. Construa "pon­tes", não apenas "paredes".

Faça mais do que o combinado. Não basta cumprir metas. Surpreen­da pelos resultados incomuns.

Inspire pelos valores. Desenvolva um mapa de atitudes em torno de va­lores básicos, dos quais você não deve abrir mão. Eduque pelo exemplo. Vo­cê bem sabe que os liderados da Gera­ção Y exigem essa harmonia. 

Fonte: Você S/A - Julho/2010

A nova entrevista de trabalho

Se você tem considerado a hipótese de mudar de empresa ou está interessado em participar da seleção de uma grande companhia, prepare-se. A entrevista de emprego ficou mais complicada. Descarte as velhas respostas prontas para perguntas como "Por que você quer esse trabalho?" e "Onde você se imagina daqui a cinco anos" e acostume-se à ideia de contar aos entrevistadores sobre sua vida pessoal e características de personalidade que vão muito além do tradicional "Fale-me sobre seus principais pontos fortes e fracos". Antes, interessava ao empregador conhecer o currículo do candidato e as experiências profissionais que pudessem contribuir para o desempenho do funcionário no cargo pretendido. 

"O PRINCIPAL ERRO QUE UM CANDIDATO PODE COMETER É NÃO CONHECER A CORPORAÇÃO, NOSSA CULTURA. COM TANTA INFORMAÇÃO DISPONÍVEL NA INTERNET, ISSO DEMONSTRA PREGUIÇA E FALTA DE INTERESSE" Cícero Barreto, diretor comercial e de marketing da Omint 

O processo era mais rápido e o nível de conhecimento sobre a personalidade, o caráter e o comportamento do candidato era avaliado de forma superficial. Essas dimensões eram consideradas importantes, mas não havia uma predisposição para escarafunchar esses tópicos na entrevista de emprego. Hoje, isso mudou. As empresas, principalmente as grandes corporações, estão mais exigentes na hora de contratar.

A análise do currículo está mais criteriosa, o processo de seleção ganhou mais etapas e ficou mais longo. Isso se deve ao aumento do número de competências que são verificadas. Em média, o candidato a um posto de nível médio deve estar preparado para enfrentar uma bateria de seis entrevistas, feitas por gestores dos diversos departamentos que vão interagir com o novo funcionário. "A contratação para um posto gerencial tem durado cerca de dois meses, para um posto de direção, em torno de seis meses e para a presidência, até dez meses", afirma Mariá Giuliese, diretora executiva da Lens & Minarelli, consultoria de recolocação.

As competências pessoais e os valores das pessoas se tornaram determinantes para a contratação. Informações sobre história de vida, visão de mundo, crenças e desejos passaram a fazer parte das entrevistas. A ideia é saber o quanto o perfil do candidato está alinhado à cultura da empresa. Segundo a Society for Human Resource Management, entidade que reúne profissionais e consultorias de RH nos Estados Unidos, hoje, 54% dos recrutadores baseiam sua decisão final de contratação na "química" com o candidato. As companhias têm percebido que a maior parte das demissões ocorre por dificuldades de adaptação ao ambiente e à filosofia da empresa. 


Quando o candidato não está feliz na companhia, mais cedo ou mais tarde acaba saindo. "E o processo para substituir a contratação que falhou sai caro, seja pelo custo de uma seleção, seja pelo desgaste da equipe numa troca de chefia, ou pelo atraso no cronograma que essas transições provocam", diz o consultor de carreira e coach Nélio Bilate. Para conquistar a vaga de gerente financeiro do Shopping Curitiba, que pertence à BR Malls, o administrador de empresas Daniel Momoli, de 31 anos, percebeu o quanto o processo de entrevista está mais complexo.

No início deste ano, precisou conquistar a aprovação de sete pessoas. "Em empregos anteriores, eu só passava pelo RH e pelo meu futuro supervisor", compara Daniel. Numa das etapas ele teve de fazer um teste de ética, com cem perguntas. "Precisei dizer o que pensava sobre uso de drogas, suborno, mentira e transgressão de regras entre a população", recorda. "Até minha expressão corporal durante essa etapa foi avaliada." 




IMPREVISIBILIDADE 


As perguntas feitas pelos entrevistadores também mudaram, com o objetivo de extrair respostas mais espontâneas. Entram em cena questões como "Quanto você sente que controla o seu destino" e "Dê uma nota de 1 a 10 à sua felicidade", por meio das quais os recrutadores avaliam quesitos como autoconfiança, autonomia e atitude entusiasmada ou pessimista do candidato. Isso porque as empresas estão cada vez mais preocupadas com a qualidade do ambiente de trabalho e o impacto que as pessoas têm sobre ele. Segundo o Guia VOCÊ S/A-EXAME – As Melhores Empresas para Você Trabalhar, as 150 companhias listadas têm uma rentabilidade sobre o patrimônio de 12,7%, ante 3,5% das empresas presentes na lista das 500 Maiores & Melhores, publicada pela revista EXAME. 
As empresas também querem saber se o candidato consegue equilibrar vida profissional e pessoal. "Pergunto aos profissionais como se divertem e o que fazem nos momentos de lazer", diz Fábia Barros, gerente da Foco Talentos. "Digo que quero saber como o candidato é quando está de bermuda e chinelo." O relacionamento familiar, aliás, ganhou lugar de destaque.

O headhunter Gilvan Delft, diretor da Page Personnel, conta que, antes de contratar, alguns clientes fazem questão que uma das entrevistas aconteça na frente da mulher do candidato, durante um jantar. "O candidato dificilmente vai conseguir mentir quando perguntarmos se ele consegue equilibrar bem vida pessoal e trabalho e se realmente tem disponibilidade para viajar ou se mudar", conta o headhunter.

O administrador de empresas Denício Neto, de 32 anos, foi contratado há cerca de um ano para uma vaga de executivo de atendimento e relacionamento na Totvs. A vaga exigia habilidades de comunicação e relacionamento interpessoal para vender softwares de gestão corporativa. "Para essa atividade, não basta ter o conhecimento técnico sobre o programa, é preciso falar a mesma língua dos empresários." Para avaliar a capacidade de Denício se relacionar, os entrevistadores fizeram perguntas sobre sua infância. "O headhunter me perguntou se fui uma criança extrovertida e se tinha facilidade para fazer amizades", recorda o executivo.


PROVA DE FOGO 
Exemplos de perguntas que têm sido feitas nas entrevistas de trabalho e o que elas querem dizer: 




  • SE VOCÊ TIVESSE MORRIDO, O QUE SERIA ESCRITO EM SUA LÁPIDE? 

O objetivo da pergunta é fazer com que o candidato se descreva como pessoa fora do contexto profissional . Outras empresas ainda optam pela manjada "Quem é você?". 



  • SE TIVESSE 1 MILHÃO DE REAIS, QUE EMPRESA VOCÊ ABRIRIA? 

A pergunta testa o grau de identificação do candidato com o ramo de atividade da companhia que está contratando. 



  • DE QUE FORMA VOCÊ BUSCA AUTOCONHECIMENTO? 
Em vez de perguntar se a pessoa busca autoconhecimento, a questão pede uma resposta que contenha exemplos e, assim, desmascarar os que não fazem isso. 



  • O QUE SEUS PAIS PENSAM SOBRE SUAS ASPIRAÇÕES?
A pergunta avalia autoconfiança e o tipo de postura que o candidato foi incentivado a ter ao longo da vida. "Pessoas que recebem apoio dos pais e são incentivadas tendem a ser mais empreendedoras e independentes", diz o coach Nélio Bilate. 



  • NUMA ESCALA DE 1 A 10, QUE GRAU DE CONTROLE VOCÊ TEM SOBRE SEU DESTINO? 

A questão testa a iniciativa do candidato, a capacidade de assumir a responsabilidade por suas decisões e escolhas e sobre o que espera realizar em sua vida. 



  • PROFISSIONALMENTE, QUAIS SÃO AS TRÊS COISAS QUE VOCÊ MAIS SE ENVERGONHA DE TER FEITO? 
O objetivo é checar o senso de autocrítica e a resistência da pessoa a frustrações. 



  • SEU SUPERIOR SERÁ PROMOVIDO. VOCÊ QUER A VAGA DELE? O QUE VAI FAZER PARA CONSEGUIR ISSO? 

A resposta do candidato vai permitir avaliar caráter, ambição e vontade de crescer. É uma forma de conhecer seu tipo de personalidade. 



  • VOCÊ JÁ PRECISOU ABRIR MÃO DE ALGUMA COISA NA SUA VIDA EM NOME DE OUTRA? 
Aqui, a partir da história contada pelo candidato, os entrevistadores vão avaliar o que ele realmente valoriza e prioriza e o quanto está disposto a ceder para agarrar a oportunidade da vaga. 



  • POR QUE ESCOLHEU ESTA EMPRESA E NÃO A NOSSA CONCORRENTE? 



O interessado vai ter de demonstrar conhecimento sobre a cultura da companhia para a qual está se candidatando. A ética do candidato é analisada, já que se observa se ele vai falar mal do concorrente. 



  • QUAIS SÃO SUAS PERGUNTAS?
Os recrutadores esperam que o candidato faça perguntas. Além de demonstrar interesse em conhecer a empresa, quem pleiteia o posto demonstra curiosidade e vontade de aprender.



"OS CANDIDATOS MAIS JOVENS COSTUMAM TER MAIOR ABERTURA PARA O NOVO MODELO DE ENTREVISTA. OS ALTOS EXECUTIVOS TAMBÉM, PORQUE ESTÃO MAIS FAMILIARIZADOS COM PROCESSOS DE SELEÇÃO. QUEM CHEGA MAIS DESPREPARADO PARA ESSE TIPO DE SITUAÇÃO SÃO OS CANDIDATOS DE MEIA IDADE E NÍVEL MÉDIO, QUE SE MOSTRAM MAIS TRAVADOS" Fábia Barros, gerente da Foco Talentos

AUTOCONHECIMENTO 

No Brasil, uma das empresas onde a busca pela "química perfeita" com o candidato é mais emblemática é a Natura. Autonomia, iniciativa e sustentabilidade são itens verificados na entrevista. "Conta muito a capacidade de assumir responsabilidade pelas ações e escolhas que faz na sua vida e na carreira", explica Rogério Chér, diretor corporativo de RH da Natura.

Manuela Bernis, de 39 anos, aprovada recentemente na seleção para gerente de recursos humanos da Natura, teve de responder perguntas como "Em que momento da sua vida o autoconhecimento fez a diferença?". Até assuntos considerados polêmicos, como religião, foram abordados. "Falar de religiosidade era um tabu para mim porque considerava uma questão pessoal", diz ela. 
Agora, a executiva avalia positivamente o grau de abertura desde a contratação. "Como houve muita transparência de ambas as partes, sinto que a empresa me conhece bem e eu a ela. Sinto que fui escolhida, mas que também escolhi e isso só aumenta o meu comprometimento", diz. Em maior ou menor grau, o desejo de saber mais sobre o caráter do candidato tem aparecido nas entrevistas.
Na seleção do trainee Fábio Lima, de 27 anos, no grupo Ale, o entrevistador o questionou sobre seu alinhamento com um dos valores do grupo — o respeito pelas pessoas.
Fábio relatou um fato que até então não julgava relevante para a seleção: durante o tempo em que morou na Austrália, trabalhou como faxineiro e como entregador de pizza. "Fui destratado em várias ocasiões e aprendi na pele o que é respeito pelas pessoas.
Essa experiência valeu minha aprovação no processo", diz. O principal conselho que ele dá para quem pretende passar por um processo seletivo é o autoconhecimento. "Seja autêntico e espontâneo, e não tente dançar conforme a música, porque certamente não vai funcionar", avisa Fábio.

"QUANDO O CANDIDATO ESTÁ DESCONFORTÁVEL SOBRE ALGUM TEMA, INSISTIMOS. É A CHANCE DE CONHECÊ- LO EM UMA SITUAÇÃO REAL. AQUI, SUAS PROPOSTAS NEM SEMPRE SERÃO ACEITAS E É PRECISO AVALIAR A CAPACIDADE DE RESISTÊNCIA À FRUSTRAÇÃO" Marcio Fróes Torres, vice-presidente de gente e gestão da AmBev


COMO SE PREPARAR 
Se a entrevista mudou, também muda a forma como o candidato deve se preparar para ela. Abaixo, as principais dicas dos consultores: 
1 FAÇA UMA REFLEXÃO PESSOAL: é importante conhecer-se bem. Para saber quais são seus pontos fortes, antes de ir à entrevista, faça uma reflexão sobre quem é você. 
2 CONHEÇA A CULTURA DA EMPRESA: se o recrutador revelar onde é a vaga, procure se informar ao máximo não só sobre o ramo de atividade e momento atual da companhia, mas também sobre sua cultura e a filosofia. Identifique a imagem que a empresa passa e os valores que ela espera dos seus colaboradores fazendo uma varredura na internet.
3 USE A TECNOLOGIA A SEU FAVOR: procure no LinkedIn perfis de líderes da companhia à qual está se candidatando. Analisar como eles se descrevem e se têm um passado profissional, que inclui empresas com um determinado perfil e filosofia, pode render informações preciosas sobre o tipo de profissional que buscam. Inscreva-se também em serviços de alerta de notícias para saber o que vem sendo publicado sobre a companhia. 
4 CONHEÇA O PROCESSO SELETIVO: sites internacionais, como o Glassdoor.com, possuem ferramentas que permitem ler relatos de pessoas entrevistadas pela mesma companhia na qual você deseja trabalhar. Essa dica ajuda quem se candidata a postos em multinacionais, dando uma prévia da seleção. 
5 TENHA UM ESTOQUE DE EXEMPLOS: uma vez que você identificou suas principais habilidades, e que esteja informado sobre os valores e as metas da companhia, faça um levantamento de histórias vividas por você que lhe ajudem a demonstrar que está preparado para trabalhar dentro da filosofia da corporação. Não vai ser suficiente para apenas afirmar que tem determinadas qualidades. Para ser aprovado, é preciso dar exemplos. Esteja preparado. 
6 INFORME E EXPLIQUE: cada pergunta tem um propósito e o entrevistador vai tirar uma conclusão sobre você a partir das suas respostas. Então, cada vez que der uma informação sobre sua vida, acompanhe de uma breve explicação do porquê essa circunstância foi positiva. Isso evitará os preconceitos. Se for informar que é filho único, por exemplo, antes que o recrutador possa interpretar que você é mais individualista, enfatize o lado positivo dessa situação, que o forçou a fazer amizades fora do âmbito familiar e se tornar mais aberto a conhecer novas pessoas.


APARÊNCIA 
COMO SE VESTIR PARA A ENTREVISTA DE EMPREGO 


O ambiente de trabalho está mais informal. Até as instituições financeiras vêm abolindo a obrigatoriedade do terno e gravata. Desde janeiro, o banco Santander parou de exigir esse tipo de traje na empresa. Mas a aparência ainda conta pontos na entrevista de trabalho.
Adequação é a medida certa. "Do mesmo jeito que você vai se fazer notar se for de terno para um passeio de domingo no parque, também vai chamar a atenção se for para a entrevista vestido como quem vai para o parque", diz André Ferreira da Silva, superintendente de RH do Santander. Os especialistas sugerem que os candidatos continuem investindo na apresentação.
No livro Casual Power, a autora americana Sherry Maysonnave lembra que a maneira de se vestir é o componente primário da imagem pessoal e tem um grande poder de comunicação. "O desafio hoje é ter habilidade para se vestir de forma casual e transpirar tanto poder, autoridade e credibilidade quanto ao usar um terno", escreve. 



DICAS DE IMAGEM: 
Atraia, não distraia: Fique atento à maneira como as pessoas de sucesso do seu ramo se vestem. 
Cuide dos acessórios: Sapatos podem comprometer todo um visual bem cuidado se estiverem sujos, estragados ou com saltos desgastados. 
Tenha um bom corte de cabelo: Um corte de cabelo bem resolvido economiza tempo por ser mais fácil de ajeitar. 
Transmita autoconfiança: Para as mulheres, um pouco de maquiagem bem aplicada está associado à atenção aos detalhes. Para homens, um belo sorriso tem o mesmo efeito. 
Controle a respiração: Um ritmo apressado denota estresse. Antes de entrar para a entrevista, respire profundamente. Isso vai acalmá-lo e corrigir sua postura. 
Fonte: Casual Power, de Sherry Maysonnave 

Fonte Você S/A  - Junho/2010