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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ética - Base de confiança

Ética - Base de confiança*


Entrevista de Jair Moggi a Rachel Regis - Revista Inovação

Países, empresas e profissionais descobrem as desvantagens do jeitinho e da maracutaia. E se esforçam para criar um futuro diferente.

Você deve ter notado: na última década, as empresas e organizações bateram recordes na emissão de códigos de ética. Não estavam sozinhas na sua preocupação com valores. Nunca antes o País tinha decretado um impeachment de um presidente da República, nunca o Senado tinha cassado um senador, nunca o Legislativo tinha feito tantas CPIs, nunca tantos colarinhos brancos foram parar detrás das grades. Nem é preciso dizer que, antes disso, também havia comportamentos antiéticos, maracutaias, roubalheiras, corrupção e mentiras(*).

Se é possível que o comportamento ético de algumas pessoas e em alguns meios tenha piorado, é certo que, para a maioria da sociedade, o fator ético passou a ser decisivo nas decisões de voto, de negócios, parcerias e alianças. "Na verdade, sempre houve uma preocupação com a ética", avalia o consultor André Castellini, da Bain Consultoria. "A mudança é que, agora, ela é explicitada, consciente e motivo para discussão em praticamente todos os meios."

Isso não acontece por acaso. Contrariar a ética tem custado muito caro para todos. No âmbito das nações, por exemplo, a corrupção corrói a riqueza dos países e reduz o crescimento econômico, desencorajando a aplicação de capital e resultando numa perda para toda a sociedade. A conclusão é de um estudo dos professores Marcos da Silva, Fernando Garcia e Andréa Bandeira, da ONG Transparência, Consciência e Cidadania, seção brasileira da Transparency International. Outro estudo, este da Universidade de Harvard, constatou que altos níveis de corrupção constituem obstáculos a investimentos estrangeiros. A diferença entre a taxa cambial para empresas que fazem negócios no exterior pode variar em até 20 pontos percentuais entre países de baixa corrupção, como Cingapura, e um mais corrupto, como México (veja o ranking no quadro).

No âmbito empresarial, "só a adoção dos valores éticos como inspiradores dos indivíduos e orientadores das ações da organização é capaz de gerar a confiança de parceiros, funcionários e consumidores", disse Jair Moggi, diretor da Adigo Consultoria, numa palestra do seminário Organizações Orientadas por Valores, realizado na Câmara Americana de Comércio, em São Paulo, em maio e junho passados. "E, sem confiança, está cada vez mais difícil realizar negócios." Com ele concorda Maria Cecília Arruda, professora da FGV e coordenadora da edição brasileira do livro "Ética Empresarial", de Ferrel e Fraedrich, uma das mais melhores obras sobre o assunto: "Há sinais significativos de que a ética declarada e efetivamente praticada é um fator de competitividade empresarial."

Ela se refere a vários estudos apresentados no livro apontando para as vantagens econômicas das empresas que adotam a ética como norma de conduta. "Hoje em dia, cada vez há mais consciência de que a adoção de princípios éticos impacta fortemente o desempenho de uma organização", diz. E explica: "O ambiente ético influi na confiança de clientes e funcionários, no compromisso dos empregados para com a organização, na satisfação do cliente e na qualidade da empresa como um todo, ou seja, na facilidade de conseguir acionistas e de fazer alianças com outras empresas com as mesmas preocupações."

Segundo Moggi, isso acontece porque "a confiança é a virtude que cria a predisposição para ter fé na conduta dos outros. Os outros sabem o que podem esperar porque os valores são declarados e, também, consistentemente praticados."

Stephen Covey, autor do best-seller "Sete Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes", acha que os efeitos que a ética exerce sobre os resultados dos negócios podem ser medidos. Ele chega a aconselhar as empresas a avaliar o impacto da confiança sobre os balanços, além do impacto sobre os lucros, sobre o rendimento por ação e sobre outros fatores de sucesso. Diz que, quando é baixa a confiança, a empresa entra em decadência, os relacionamentos se deterioram, disso resultando manobras políticas, lutas internas e ineficiência geral; fraqueja a lealdade do empregado à empresa, declina a qualidade dos produtos, os consumidores vão embora e a rotatividade do pessoal aumenta muito. Segundo Covey, se a confiança for pequena ou não existir, tampouco haverá alicerces para sucesso permanente.

Embora se possa dizer que existem alguns valores éticos universais - tanto que nos Estados Unidos e no Canadá há comissões de normas de conduta que orientam as empresas na confecção dos seus códigos de ética, responsabilizando-as por eventual má conduta dos seus empregados, e que as organizações regionais, como Comunidade Européia e Nafta, também estão definindo padrões éticos obrigatórios para todos os participantes -, a verdade é que os princípios variam muito.

Segundo Moggi, “os valores são verdadeiros quando eles expressam a identidade de um grupo”. Ele dá o exemplo de algumas empresas com as quais já trabalhou na confecção de códigos de ética: “Na metalúrgica Mangels, o que sempre valeu é a expressão 'seja duro, mas seja justo', quer dizer, uma mescla de disciplina com justiça. Já na Método Engenharia, o que é mais valorizado é o respeito à vida, ao ser humano e ao meio ambiente. Na seguradora Porto Seguro, o mais importante é o sentido de conjunto, a noção de que cada um deve lutar por todos e que todos devem apoiar cada indivíduo. Nesses e em outros casos, os valores são como uma bússola que mantém o grupo e os indivíduos num rumo comum, mesmo havendo calmarias ou tempestades.” Para Castellini, os indicadores éticos "tornam-se mais necessários à medida que os funcionários têm mais autonomia e alguns chegam a trabalhar longe das sedes". Para se ter uma idéia de como é difícil orientar e controlar grandes corporações, basta saber que as 500 maiores empresas industriais do mundo controlam 25% da produção econômica do planeta, embora empreguem apenas 0,05% da população mundial. Mais de 20 companhias têm um valor econômico maior do que o PNB da Hungria, da Irlanda ou da Venezuela. "Se empresa e funcionários não compartilharem dos mesmos princípios, a tendência é a desagregação", diz Castellini.

Outro ponto de vista é o defendido por Ferrel e Fraedrich, no livro "Ética Empresarial". Eles entendem que uma organização pode definir os princípios, valores e padrões que vão orientar o comportamento, mas que quem determina se um comportamento específico é certo ou errado, ético ou não, aceitável ou não, são os chamados stakeholders, ou seja, investidores, clientes, grupos de interesse, empregados, o sistema jurídico vigente e a comunidade. Como a mulher de César, não basta às empresas ser éticas, precisam também parecer éticas.

Isso dá a impressão de que o comportamento das organizações está sendo o tempo todo vigiado, analisado e avaliado, certo? Certíssimo. Segundo a pesquisa "Does it pay to be ethical?", feita em 1997 nos Estados Unidos pela Cone/Roper, empresa norte-americana de pesquisa de marketing, três em quatro consumidores recusam-se a comprar produtos de certas empresas, e a conduta dessas é um motivo fundamental para esse boicote. Quem tem uma imagem ética sai lucrando. No livro “Começando com o Pé Direito”, Jô-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella revelam uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o que passa melhor impressão ao consumidor. Itens como ter boa aparência, ter classe ou ser bem sucedido têm um impacto desprezível, na faixa de 10%. Já ser honesto, sincero e confiável ficaram com 75% em média.

Há outras formas de ganhar dinheiro com um comportamento ético. O comprometimento dos funcionários com os objetivos da empresa e o baixo turn-over, motivados pela identificação dos empregados com os valores da organização, tendem a se refletir diretamente no caixa. Pelo menos essa é a crença na Cisco System, o maior fornecedor mundial de servidores para a internet. A empresa orgulha-se de ter um dos menores índices de rotatividade e de que cada empregado contribui para um aumento de receita de 650 mil dólares anuais, contra uma média dos seus concorrentes de 300 mil dólares. A empresa credita esses resultados ao fato de todos os seus empregados participarem do planejamento e acreditarem em comunicações abertas, com decisões tomadas no nível mais baixo. A norma, na firma, é trabalhar em equipe, fazer com que os funcionários sintam-se seguros e sejam reconhecidos nos seus esforços para uma melhor interação com clientes.

Maria Cecília Arruda, que também é presidente da Alene (Associação Latino-americana de Ética, Negócios e Economia) e vice-presidente da ISBEE (International Society of Business, Economics and Ethics), acredita que "a confiança é a premissa sobre a qual se fazem os negócios no mundo globalizado. Muitas empresas que operam globalmente negam-se a manter parcerias com outras que não sigam alguns padrões mínimos de comportamento ético. O mesmo vale para as pessoas - se o comportamento for duvidoso, fica difícil encontrar colocação."

Moral da história: cada vez mais países, organizações e indivíduos precisam ser orientados por valores. Até mesmo para sobreviver.

Algumas confusões

Quando se discute ética, vários termos se confundem. Conheça alguns deles.

Ética e moral: A ética é formada pelos valores fundamentais de uma pessoa, de um grupo ou de uma nação. É perene. A moral tem a ver com os costumes praticados num grupo e num período determinados. É mutável.

Ética nos negócios e responsabilidade social das empresas: Ética nos negócios compreende princípios e padrões que orientam o comportamento empresarial. Responsabilidade social é a obrigação que a empresa assume com a sociedade. Há as responsabilidades econômicas, de produzir a um preço que possa garantir a continuação das atividades; as responsabilidades legais, como observação de leis e normas; e responsabilidades éticas, ou seja, ter comportamentos que a sociedade espera das empresas, mas não estão na lei; e responsabilidades filantrópicas, formadas por atividades voluntárias.

Transparência e comunicação eficiente: Uma boa comunicação é aquela que leva uma informação a um público determinado na hora adequada. Transparência é a capacidade de demonstrar o que se é, de revelar-se, em tudo o que se faz, e de manter as portas abertas para quem quiser conhecer dados, normas de procedimentos etc.

Antiético e ilegal: Para muitas pessoas, ser antiético é o mesmo que ser criminoso e ter um comportamento ético é semelhante a agir segundo as normas legais. Mas isso não basta. A ética compreende justamente o que não é codificado em leis. Não há lei que proíba ouvir uma conversa na mesa ao lado na empresa ou no restaurante – mas é ético?

Justiça de processo e justiça de resultado: A justiça de processo tem a ver com os critérios utilizados (por exemplo, para uma promoção ou para uma condenação). Baseado num processo justo, é possível chegar a um resultado injusto, por exemplo, multando o carro que passou o sinal vermelho quando estava levando alguém para o hospital - trata-se de injustiça de resultado. Normalmente, as pessoas têm alguma tolerância com a injustiça de resultados quando consideram que o processo foi justo. Mas não toleram um processo injusto. O povo define a justiça de processo com a máxima: "Não é caro o que é combinado."

Honestidade, equidade e isonomia: Honestidade implica veracidade, integridade e confiabilidade. Equidade é a capacidade de ser justo, imparcial, equânime. Isonomia é tratar situações semelhantes com os mesmos critérios – por exemplo, salariais.

Agente e mandante: Tanto quem ordena uma ação ilegal ou antiética (mandante) como quem executa a ação (agente) são responsáveis por ela. A alegação de estar cumprindo ordens é inaceitável como atenuante legal e indefensável do ponto de vista ético.

Revolução cultural
O psicólogo Salomão Rabinovich, presidente da Comissão de Ética, Cidadania e Direitos Humanos da Academia Paulista de Psicologia, acha que a única saída para a questão ética é uma “revolução cultural, para evitar que o Brasil se torne um imenso 'topa-tudo por dinheiro'.” Ele escreveu o livro “Vamos Recomeçar o Brasil”, no qual analisa o comportamento eleitoral dos brasileiros, e criou uma organização não governamental com o mesmo nome.

Sua idéia é promover uma retomada de valores éticos, morais e religiosos, controlando de perto o comportamento das autoridades. Ele não acha que o fenômeno da falta de valores seja recente: “Acontece que, com o passar dos anos, os cidadãos começaram a resolver os conflitos –pessoais, trabalhistas, familiares, comerciais ou de trânsito – diretamente, porque não confiam mais na justiça e nas autoridades. Isso beneficia o clientelismo, os quebra-galhos, o jeitinho e, também, a violência. A única saída de romper esse círculo vicioso é acabar com a impunidade e retomar os valores éticos.” Com essa proposta, o psicólogo tem percorrido escolas, empresas e entidades, com palestras e participando de debates.

Esfarrapadas
Segundo pesquisa do Ethics Resource Center, de 1997, estas são as principais desculpas apresentadas por quem não denuncia a má conduta observada nas empresas:

Medo de não ser considerado um bom componente da equipe.
Não acreditar que medidas corretivas sejam aplicadas.
Receio de vingança ou represália do chefe ou da alta administração.
Ninguém liga para a ética empresarial. Por que eu faria isso?
Não acreditar que a empresa mantenha a denúncia em sigilo.
Roubalheira tem ranking
A Transparency International faz um ranking da corrupção em 86 países, baseado numa pesquisa com empresários nacionais e internacionais. Os índices vão de zero (mais corrupção) a dez (menos corrupção) e são utilizados pelas empresas de consultoria que analisam os riscos políticos e econômicos para investidores internacionais.

Segundo a mais recente pesquisa, feita em 1998, os países menos corruptos do mundo são a Dinamarca, Finlândia, Suécia, Nova Zelândia, Islândia, Canadá, Cingapura, Holanda, Noruega e Suíça. Os mais corruptos são Rússia, Equador, Venezuela, Colômbia, Indonésia, Nigéria, Tanzânia, Honduras, Paraguai, Camarões e Bangladesh, que ocupa o pior lugar da lista. O Brasil, em 46o lugar, tem 4,0 de pontuação.

(*) A lista dos comportamentos antiéticos é imensa. Confira alguns: enganação, mentira, propina, falsidade, suborno, fraude, coação, deslealdade, improbidade, falta de decoro, desonestidade, inverdade, insensibilidade social, comportamento suspeito, adulteração, invasão de privacidade, poluição ambiental, abuso, indecência, desvio de verba, lavagem de dinheiro, prevaricação, tráfico de influência, sonegação, caixa 2, irresponsabilidade, comportamento indecoroso, falta de educação, engodo, embromação, falsificação, desrespeito, irresponsabilidade, discriminação, grosseria, omissão, imoralidade, exploração, trapaça, armadilha, indução ao erro, falsa promessa... e por aí vai. Quer completar a lista?

http://www.adigo.com.br/br/artigos.asp?mode=show&ID=124

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Engajamento é o desafio do futuro na gestão de pessoas


20/10/2010
O cenário da economia brasileira para os próximos cinco anos é de competitividade sempre em alta pela mão de obra qualificada, em todos os setores. Atrair, desenvolver e, principalmente, RETER os bons talentos é o desafio da gestão de pessoas e o ENGAJAMENTO é palavra-chave para as empresas que desejam alcançar este objetivo.
A conclusão foi construída conjuntamente por 90 lideranças, que representam a área de gestão de pessoas nas maiores empresas catarinenses, durante o 2º Fórum de Dirigentes de RH do Estado, promovido pela ABRH-SC (Seccional Santa Catarina da Associação Brasileira de Recursos Humanos). O encontro ocorreu no dia 17 de setembro, no Hotel Plaza Itapema, sob a coordenação técnica da Sustentare Escola de Negócios, de Joinville.
Sob a instigante fórmula “2015 = 5+5+5. O complexo pode ser simples. E o RH?”, os dirigentes analisaram que os conceitos “comprometimento” e “motivação” – que ainda dominam a pauta das empresas – estão ultrapassados e precisam evoluir para a cultura do ENGAJAMENTO, em que o colaborador é estimulado a ajudar a organização a ter sucesso e sabe o que fazer para consegui-lo.
O evento foi marcado pela integração e a participação dos presentes, compondo trabalhos de grupo e dinâmicas construtivistas. Na introdução, o facilitador Dante Quadros apresentou pesquisas sobre o cenário atual e perspectivas futuras (2015) da competitividade do emprego e do engajamento das equipes. E lançou como desafio aos profissionais de RH, encontrar as formas de implementar esse novo conceito em suas companhias.
Mudança de postura
Quadros diz que o engajamento implica em uma mudança de postura, não só do empregado, mas principalmente da empresa. “O engajamento é uma estratégia poderosa, pois significa melhorar o nível de competitividade das pessoas, mas também as condições de trabalho na empresa, para que o empregado se sinta parte dela (vínculo afetivo), queira contribuir para seu sucesso (desejo de ir além do que é exigido formalmente pelo cargo) e queira construir seu futuro na organização (intenção de se manter nela)”, explica.
É neste sentido que o engajamento se diferencia de motivação, segundo o consultor. “A motivação se tornou ineficaz porque nenhuma empresa consegue motivar a todos, o tempo todo”.
O engajamento envolve componentes de comprometimento como a eficácia da empresa (alta liderança, direcionamento, gestão de talentos, cultura da inovação e reputação externa), condições de trabalho (comunicação, cooperação, suporte, recursos, integração com as chefias e autonomia) e justiça (equilíbrio na carga de trabalho, perspectivas de desenvolvimento de carreira, reconhecimento e incentivos).
Cabe aos profissionais de RH assumirem seu papel estratégico e incutirem essa nova cultura nas organizações, mostrando aos seus líderes que a equipe só estará engajada em uma empresa engajada. “O problema é que muitas empresas querem que o funcionário mude, mas ela própria não dá nada em troca. E o RH tem que estar preparado para conciliar a cultura da organização com as exigências de seus talentos, para que as pessoas trabalhem satisfeitas consigo mesmas e com o que a companhia se propõe a fazer”.
Na prática
A presidente da ABRH-SC, Luzia Fröhlich, lembrou que a retenção de talentos é o grande desafio do futuro do RH, como contribuição ao crescimento das empresas, da economia e do País. Ela analisou que o 2º Fórum de Dirigentes trouxe uma resposta para o “complexo pode ser simples”. “A construção participativa e o intercâmbio entre profissionais ajudou a ‘modificar’ o futuro, mostrando que as soluções são simples e estão dentro das empresas. Basta potencializá-las”, disse.
A coordenadora do Fórum, Elke Remlinger Mattos (ABRH Litoral), destacou que as demandas trazidas pelos profissionais de RH ao evento irão nortear o tema central e as palestras no 21º Congresso Catarinense de Recursos Humanos, que ocorre em maio de 2011, em Florianópolis.
Ela analisa a importância do Fórum por conseguir reunir um público diferenciado – de gestores e dirigentes de RH de empresas de médio e grande porte de SC – para discutir o futuro sob uma nova perspectiva, do engajamento. “O evento ajudou a construir coletivamente uma nova visão e ação de RH no Estado”, afirma.
Engajamento, segundo as pesquisas
Pesquisa do Hay Group, com 40 empresas gaúchas, em novembro de 2009, mostrou a escala de prioridades dos CEOs na gestão:
•    97% entendem que o principal desafio da gestão é atrair talentos
•    95% acham que o principal desafio é manter os profissionais engajados
•    90% indicam a capacidade de inovação da empresa como principal desafio
Pesquisa do Gallup com empresas brasileiras mostrou que:
•    20% das empresas entrevistadas não consideram importante criar e trabalhar o fator engajamento
•    4% delas consideram isso completamente irrelevante
•    70% acreditam na importância do engajamento
•    42% dizem que o engajamento em seu ambiente de trabalho melhorou, em comparação ao ano passado
Como as empresas estão desenvolvendo o engajamento atualmente?
•    A principal forma utilizada é sendo genuínas (47%)
•    Confiança (40%)
•    Comunicando as expectativas claramente (25%)
•    Envolvendo a diretoria nos processos de melhoria do engajamento do funcionário
Pesquisa Gallup, realizada em julho de 2006, com 1012 trabalhadores, em 11 capitais brasileiras mostrou que:
•    Apenas 21% dos profissionais são engajados
•    79% não são engajados em seu trabalho
•    61% dos trabalhadores são considerados “não engajados”, ou seja, não estão psicologicamente comprometidos com a empresa, buscam apenas atingir os objetivos simples
•    18% da força de trabalho brasileira é considerada “ativamente desengajada”, ou seja, funcionários que frequentemente mostram a sua atitude negativa com relação ao trabalho e ao empregador
•    84% dos profissionais que pedem demissão relatam que o principal motivo de sua saída é o relacionamento com seu gerente direto
Fatores que influenciam na falta de engajamento:
•    qualidade da liderança
•    motivos de ordem pessoal (inclusive de saúde)
•    tipo de trabalho (monótono, repetitivo, sem autonomia)
•    descompasso entre expectativas pessoais e o que a empresa oferece
•    ineficiência dos canais internos de comunicação
•    evolução tecnológica não acompanhada pelos empregados
•    falta de compreensão sobre os valores, objetivos e metas da organização
•    distanciamento entre líderes e liderados
•    escassez de oportunidades para o desenvolvimento da carreira
•    cultura da empresa, que impede o reconhecimento de talentos
O que a empresa pode fazer para obter o engajamento da equipe:
•    Capacitar as chefias em gerenciamento de pessoas
•    Rever os processos de comunicações
•    Obter gerenciamento de desempenho
•    Manter mecanismos de desenvolvimento
•    Orientar recompensa e reconhecimento
•    Criar suporte para as boas ideias
•    Rever fluxos e tarefas
Ações essenciais no RH:
•    Desenvolver na equipe o senso de pertencimento
•    Aproximar-se das expectativas dos colaboradores
•    Construir relacionamentos com os chefes e colegas
•    Oportunizar a valorização da pessoa
•    Proporcionar o envolvimento nas tarefas
•    Demonstrar confiança e reciprocidade
•    Demonstrar adequação e justiça
Aliados da mudança:
COMUNICAÇÃO (promover encontros, estimular blogs, pesquisas e troca de opiniões)
VALORIZAÇÃO (compensar, reconhecer, premiar)
CULTURA (políticas de RH e qualidade de vida no trabalho)
EQUIPES (trabalho, recreio, vida social e comunitária)
LIDERANÇA (empoderamento, treinamento, orientação e aconselhamento)
O novo dicionário do ENGAJAMENTO faz um up grade nos conceitos tradicionais de gestão:
ENDOBRANDING: mais do que endomarketing (que é difundir a empresa para seu público interno), o endobranding “contamina” os funcionários com a visão da empresa, sua missão e valores, mantendo o time trabalhando em sintonia.
FEEDFORWARD: ao contrário do feedback (que envolve a discussão de erros, problemas e falhas do passado), o feedforward se baseia em soluções e alternativas voltadas para o sucesso.
DIÁLOGO: significa saber expressar pensamentos e sentimentos de modo que o receptor compreenda o que se diz.
WIKINOMICS: inspirada nos “wikis” (softwares ou páginas que podem ser editados por qualquer usuário), a palavra descreve um novo modo de organização da produção, marcado pela abertura, transparência e colaboração entre pares, para uma ação global.
HEARTSTORMING: ao contrário do brainstorming (tempestade de ideias/cérebro), o heartstorming situa-se fora da mente e dentro das emoções (coração), permitindo sentimentos, a busca pelo prazeroso e pelo desenvolvimento.
POSICIONAMENTO: o colaborador é uma marca, pois o que faz acrescenta valor notável ao trabalho e aos resultados da empresa.
EMPOWERMENT: o poder do empregado, processo pelo qual os gerentes delegam e ajudam os profissionais a adquirirem e a usarem o poder em suas decisões.
WELNESS: promover o bem estar através da forte integração dos estados físico, mental, emocional e espiritual (dimensões social, emocional, espiritual, intelectual, cultural, ambiental, ocupacional e física).
OPINIÕES
“O Fórum é um sucesso porque reúne profissionais e aborda temas atuais e relevantes, com facilitadores de elevada competência. O que é fundamental nesse momento em que o RH está se ‘reengenheirando’ ou se ‘rearquitetando’, no sentido de tornar simples o que é simples. O ser humano é complexo, mas podemos trabalhar o simples das pessoas para se obter os resultados desejados”.José Francisco Reitz, da Schulz S.A. (Joinville)
“Reunir tantas lideranças de RH em um evento dinâmico possibilitou a troca de informações e a integração. As pessoas se comunicaram o tempo todo e isso foi muito produtivo e prazeroso”.Adriana Rodrigues Machado, Univille (Joinville)
“Fica o desafio a cada um, de fazer suas reflexões e pensar onde quer estar e o que fará de prático para chegar a 2015 com os resultados esperados, pessoalmente ou quanto ao seu papel dentro das organizações”.Elke Mattos, Tecon SC (Itapoá)
“O Fórum promoveu o encontro entre profissionais felizes, engajados em sua profissão, não rancorosos, preocupados com o negócio do qual fazem parte. Mostrou que o RH deixou de ser o vilão ou o sonhador para se tornar uma área estratégia para os resultados das empresas e das pessoas”.Maurício Bittencourt, Dalçóquio (Itajaí)
“Um evento como esse fortalece a gestão do RH nas empresas porque amplia a consciência do seu papel na organização e compartilha as melhores práticas através da integração dos profissionais de SC. O nosso desafio é buscar soluções simples para uma estratégia complexa, que é o engajamento, num momento em que a escassez da mão de obra atinge todos os segmentos. Nós, do RH, precisamos aprender a fazer as coisas de uma forma diferente, rever as nossas práticas para atender esse novo contexto.Jussara Dutra, Senior Sistemas (Blumenau)

A confiança organizacional e a gestão de recursos humanos

Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia
Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010
(p.1992-2005)


A confiança organizacional e a gestão de recursos humanos

Ana Veloso, Teresa Ferreira, José Keating & Isabel Silva
Escola de Psicologia, Universidade do Minho

A confiança organizacional e o comportamento dos colaboradores na organização estão relacionados (Tzafrir & Dolan, 2004). A compreensão desta relação tem sido objecto de investigação, em associação com
conceitos como satisfação profissional, contrato psicológico, relações no local de trabalho, envolvimento, performance organizacional e gestão de recursos humanos (GRH) (Gould-Williams, 2003; Mayer & Davis, 1999). O sentido desta relação tem, também, colhido alguma atenção (Whitener, 1997), em especial quando associada com a GRH: a GRH influencia a confiança dos colaboradores na organização? A confiança dos colaboradores na organização influencia a sua percepção sobre a GRH e a sua adesão às
práticas? Interagem mutuamente?
Serão apresentados os resultados de um estudo de caso exploratório de uma Câmara Municipal cujo objectivo foi compreender a relação  entre confiança e a GRH, em especial em contextos de mudança.

Palavras-chave: gestão de recursos humanos, confiança, estudos de caso.

1. INTRODUÇÃO
A confiança organizacional é um  factor incontornável quando se analisa  a performance organizacional e a gestão de recursos humanos (GRH) (Morgan & Zeffane, 2003).  Têm sido encontradas evidências empíricas que relacionam a confiança organizacional e o comportamento dos colaboradores na organização (Tzafrir & Dolan, 2004), salientando-se o seu papel como suporte da mudança e do desenvolvimento
organizacional (Zeffane &  Connell, 2003).  A compreensão desta relação tem sido objecto de investigação, em associação com conceitos como satisfação profissional, contrato psicológico, relações no local de trabalho, envolvimento, performance organizacional e GRH (Gould-Williams, 2003; Mayer & Davis, 1999). O sentido desta relação tem, também, colhido alguma atenção (Whitener, 1997), em especial quando associada com a GRH: a GRH influencia a confiança dos colaboradores na organização? A confiança dos colaboradores na organização influencia a sua percepção sobre a GRH e a sua adesão às práticas? Interagem mutuamente?
A GRH em autarquias, e na administração pública em geral, colhe a opinião generalizada de que é incipiente ou seja, se resume a aplicação de práticas com grande grau de formalização e reduzido impacto em termos de eficiência organizacional e nos colaboradores. Esta ideia é comum á Europa e parece sugerir que não é importante e estratégico o investimento nestas organizações (Gould-Williams, 2003, p.20). Contudo,
o alargamento das responsabilidades das autarquias relativamente às comunidades locais, com a transferência de competências por parte do governo central tem aumentado as exigências de gestão destas organizações ao nível das pessoas (Truss, 2008). É exemplo, no nosso país, a transferência de competências ao nível das escolas em que as autarquias gerem agora um conjunto de profissionais (professores, auxiliares de acção educativa, etc.) que aumentaram o seu quadro de pessoal substancialmente.
O aumento de número de colaboradores bem como a maior exigência ao nível da performance organizacional traz, ao nível da gestão de recursos humanos, a necessidade de introdução de novas e mais complexas práticas de GRH (Wright & Haggerty, 2005) bem como conduz a maior formalização (Kotey & Slade, 2005). Este é, sem dúvida, um importante desafio para as autarquias.


Confiança e gestão de recursos humanos

A GRH em autarquias caracteriza-se pela grande formalidade das suas práticas.
Estas estão formalmente presentes, aceitando-se como verdadeira a sua abrangência a todos os colaboradores e a igualdade de tratamento/oportunidades,  conforme os princípios da burocracia weberiana que caracterizam a administração pública.  São exemplo de práticas: o recrutamento e selecção, a formação, a avaliação de desempenho e a gestão de carreiras.
Contudo, a eficácia das práticas de GRH é condicionada pela forma como são implementadas e pela relação que se estabelece entre gestores e colaboradores,  em particular pelo nível de confiança  bem como pelo envolvimento experimentado pelos colaboradores face à organização (Veloso & Keating, 2008).
A confiança dos gestores nos colaboradores traduz-se, entre outros aspectos, na forma como as práticas de GRH são implementadas. Quando os gestores desenvolvem comportamentos de confiança face aos seus colaboradores podemos observar uma maior participação destes nos processos de tomada de decisão, maior acesso à formação ou na evolução de carreira (Tzafrir, 2005). As atitudes e comportamentos dos colaboradores consequentes da GRH, em especial quando estamos perante um conjunto de práticas
que se designam como de elevado envolvimento, são a maior satisfação, compromisso e a menor intenção de saída (Guest, 1999; Marchington & Grugulis, 2000).
Reconhece-se que as práticas têm um impacto diferente quando se reforçam
mutuamente (bundles, fit), criando um efeito sinergético (Woods, 1999). Este sistema na
administração pública poderia ser caracterizado como universalista, porque o conjunto
de práticas que obrigatória e formalmente se aplicam são iguais, com todas as
consequências positivas e negativas que se lhe atribuem (Delery & Doty, 1996)
È interessante notar que nas autarquias o conjunto de práticas de GRH está já
identificado e é genericamente eficiente ou seja, as práticas configuram aquilo que se
designa como boas práticas (Godard & Delaney, 2000, MacDuffie, 1995). Contudo, a
sua implementação poderá deturpar este efeito e é aqui que reside a diferença entre as
organizações. Encontramos, com o mesmo conjunto de práticas efeitos diferentes que
salienta o efeito da relação estabelecida ente as pessoas. Por outro lado, os gestores de
topo nas autarquias são eleitos de 4 em 4 anos podendo ter pelo seu perfil e enquanto
decisores, um diferente nível de intervenção na gestão de pessoas (Gould-Williams,
2003).
O principal objectivo dos estudos de caso é:
Perceber  o efeito da confiança  organizacional na adesão dos colaboradores a
processos de mudança ao nível da GRH.
Para isso, procedeu-se à:

i) Exploração da percepção de GRH,
ii) Descrição das práticas de GRH utilizadas nas organizações, com especial
incidência na avaliação de desempenho (SIADAP),
iii) Caracterização dos níveis de confiança em ambas as organizações,
iv) Análise do envolvimento dos colaboradores na Organização,
v) Percepção de impacto, pelos colaboradores e gestores, da gestão de
recursos humanos.

vi) Exploração dos processos de mudança ao nível de implementação de
alterações numa prática de GRH (SIADAP)


2. MÉTODO
Devido à natureza exploratória desta investigação foram realizados dois estudos
de caso em Câmara Municipais do norte do país.
A Câmara Municipal onde se realizou este primeiro estudo de caso tem, à data
de 31 de Dezembro de 2009, 224 colaboradores dos quais 62 são  técnicos superiores,
técnico de informática, técnico profissional e administrativos. Cento e quarenta e quatro
são operários, auxiliares e pessoal apoio educativo (Balanço Social, 2009).
São apresentados neste texto, os resultados parciais do primeiro estudo de caso
efectuado. Optou-se por realizar  focus group e entrevistas bem como por passar um
questionário sobre Confiança Organizacional. Inicialmente estavam previstos dois focus
group por organização mas face aos resultados obtidos nos dois primeiros  focus group
realizados, os investigadores optaram por efectuar mais dois.



2.1 Participantes
Participaram nos focus group elementos de todas as categorias profissionais
presentes na organização: técnicos superiores, assistentes administrativos e assistentes
operacionais. Contudo, os grupos de participantes foram organizados considerando os
seguintes critérios:  Antiguidade: pelo menos uma pessoa de cada um das classes de
antiguidade (até 5 anos; de 5 a 9; [...] 36 ou mais); Contrato de trabalho: pessoas com
contrato de trabalho resolutivo e a termo incerto bem como por nomeação;  Grupo
profissional: Dois focus group com  técnico superior (pelo menos 2); técnico de
informática (pelo menos 1); técnico profissional (pelo menos 1) e administrativos.  Dois
focus group com  operários, auxiliares e pessoal apoio educativo (pelo menos dois);
Habilitações literárias: entre a 4ª classe e 12º ano e mais do que 12º ano (bacharelato e
licenciatura). Os elementos dos grupos profissionais técnicos superiores têm geralmente
habilitações superiores ao 12ºano.
As entrevistas foram realizadas ao Presidente da Câmara, enquanto responsável
máximo da GRH nesta câmara, ao Director Administrativo-financeiro, enquanto
responsável operacional da GRH e a  duas chefes de secção, sendo que  uma das
entrevistadas pertence á área funcional da GRH.


2.2 Instrumentos
Foi aplicado o questionário sobre Confiança de Mayer & Davis (1999), validado
para a população portuguesa no âmbito do projecto “Confiança Organizacional e
processos de mudança”, com o financiamento da Fundação para a Ciência, Tecnologia e
ensino Superior (PTD/PSI/74509/2006).
O guião adoptado, de natureza essencialmente exploratória, quer para as
entrevistas quer para os  focus group,  incidiu sobre  os seguintes questões: explorar a
percepção de GRH,  levantamento das práticas de GRH na Câmara e percepções dos
colaboradores sobre o seu impacto bem como  do nível de participação e de
comunicação (Gould-Williams, 2003); exploração do processo de mudança que ocorreu
com a implementação do SIADAP (sistema de avaliação de desempenho recentemente
introduzido nas autarquias) com especial focalização na participação e comunicação no
processo, e na percepção dos  colaboradores; explorar a importância da confiança na
relação entre a Câmara e o colaborador e de compromisso do Colaborador relativamente
à câmara inquirindo sobre intenção de saída, absentismo e nível de performance.


2.3 Procedimentos
Foram realizados quatro focus group e quatro entrevistas na Câmara Municipal.
Os focus group tiveram uma duração de 1,5 h a 2h e as entrevistas de 1h.
Quer as entrevistas quer os  focus group foram gravados e transcritos
integralmente.  Os textos foram analisados com recurso à template analysis (King,
1998).
Estiveram presentes nos focus group e nas entrevistas, dois investigadores.
A análise estatística dos dados recolhidos através do questionário de confiança
foi efectuada através do SPSS (versão16).



3. RESULTADOS
Os resultados de seguida apresentados são relativos  exclusivamente  aos focus
group realizados numa das organizações, como referimos anteriormente.
i) Percepção de GRH.
Na perspectiva dos colaboradores, a gestão de recursos humanos é uma função
que gere as pessoas _“A Câmara tem aproximadamente 200 funcionários. Seria muito

complicado se não houvesse uma equipa  para gerir esta gente toda.”_ e que possui
duas componentes claras: uma de cariz administrativo _“…tentar facilitar os
pagamentos, todos os direitos e deveres que os funcionários têm passam pelos Rh. “_ e
outra relacional/comunicacional _“A GRH é como se pode ajudar os funcionários,
alguém que esta ali para ajudar os funcionários nos direitos, nos deveres, nas
informações, nas duvidas, se eles precisarem de ajuda.”.
Para além disso, tem uma função de mediador entre os órgãos políticos e os
organizacionais _“É um elo de ligação entre a parte política e o funcionário para ver se
conseguimos resolver os problemas.”.
Com a mudança de designação de secção de pessoal para secção de Recursos
Humanos, os colaboradores desenvolveram a expectativa de que  “…A gente pensava
que os Recursos Humanos iam funcionar diferente. Pensava que ia estar lá alguém
sempre atento e que quando se apercebesse que aquela pessoa tinha mais capacidades
para outro tipo de trabalho, tenta orientar os chefes para que a pessoa mudasse de
sector. Mas não é assim, é diferente. A pessoa de Recursos Humanos devia ver mais e
melhor para transferir uma pessoa que não se adapta. […] tinha que conhecer bem a
Câmara dentro e fora, tinha de ser uma pessoa isenta …”.
A função Recursos Humanos surge como uma função distribuída, em que a
chefia directa tem um papel determinante _ “Eu já fiz duas formações. Indicado pelo
chefe de secção.”.
Reconhecem também que a GRH é condicionada pelo poder político  _”… há

uma parte que se sobrepõe sempre…é a politica […] Há o político e depois há o chefe
de divisão.”_ e pelo contexto em que a organização se insere _ “…para a parte política,
porque no Porto, em Lisboa nem se conhecem… porque são meios muito pequenos,
conhecem-se todos, conhece-se a família...”. O poder político tem um impacto
percebido, em termos da GRH, com reflexos nos colaboradores_ “Pode interferir na
carreira, não é o caso do daqui… mas pode, nas promoções….O vereador responsável
aqui é o Presidente.”.
ii) Descrição das práticas de GRH utilizadas na organização, com especial
incidência na avaliação de desempenho (SIADAP).
As práticas de GRH identificadas pelos colaboradores, nesta organização, foram
a formação,  a avaliação de desempenho e a gestão de carreiras. Os colaboradores,

genericamente, consideram que tiveram “Algumas” oportunidades de frequentar acções
de formação, destacando-se no grupo dos assistentes operacionais, colaboradores que
não tinham frequentado nenhuma acção de formação, até ao momento _“Eu por
exemplo, vou a caminho dos vinte e tal anos aqui na Câmara e nunca…eu nunca entrei
em formação nenhuma….”.
A avaliação de desempenho e em particular o novo sistema (SIADAP), colhe
uma opinião generalizada de que, “Teoricamente já começou…mas não funciona muito
bem. “. A expectativa que os colaboradores têm relativamente ao novo sistema é de “O
SIADAP não vai dar certo. […] Isto é tudo muito bonito na teoria mas... estes meios tão
pequenos, que as pessoas se conhecem todas... como vai ser quando chegar lá o nome
do amigo? Que é que eu vou fazer? É complicadíssimo…”.
A gestão de carreiras, no momento da recolha de dados, foi a prática que mais
discussão colheu pois tinha-se verificado recentemente uma alteração nas carreiras, com
a redução do número de categorias profissionais, agregando-as. Os assistentes
operacionais foram aqueles que mais afectados se mostraram com estas alterações. “Nós
somos assistentes operacionais e assim temos de ir para o serviço que nos mandarem.
Eu sou jardineiro, se me mandarem para electricista eu tenho que ir. Mas eu não
percebo nada, já sei que vou fazer mal. É como se me mandarem para picheleiro, já sei
que vou fazer mal.”.
Inquiriu-se também por outras práticas consideradas como práticas de elevado
envolvimento: a segurança no trabalho, o trabalho em equipa, igualdade de status e a
partilha de informação (Gould-Williams, 2003).


Os colaboradores sentem-se, na generalidade, seguros do seu trabalho _ “Eu
sinto-me segura.”_ com excepção daqueles que têm contrato a termo certo _ “Não. Não
me sinto seguro, eu tenho contrato a termo. Estou sempre naquela expectativa de que
vou ou fico. Se estivesse no quadro, sim, para já não. “. Os colaboradores expressam a
este respeito alguma revolta pois, “Não somos todos iguais não. Nem aceito que digam
isso. Se já não éramos antes, agora muito menos. Os que estão no quadro antigos estão
seguros, podem ter mobilidade vertical externa ou interna… Agora, mesmo um contrato
a termo incerto ou indeterminado a qualquer hora é agora não fazes mais falta e vais
embora.”.

O trabalho em equipa não é uma prática transversal à organização. Alguns dos
colaboradores trabalham em equipa tendo a maioria dos participantes nesta
investigação, referido que trabalhava individualmente.
Foi também reconhecido que existem diferenças de status nesta organização _
“Sim, sempre houve.”.
A partilha de informação nesta organização não é comum, em especial das
chefias para os subordinados ou de uma forma mais geral, não é uma prática
organizacional interna, particularmente eficiente, na perspectiva dos seus colaboradores.
“Eu é muito raro ser informada… eu quando as coisas se passam, já passaram há 15
dias e eu estou a saber agora…”.
Ainda que existam mecanismos internos  de comunicação  adoptados pela
organização como as cartas ou as reuniões, estas não parecem ser suficientemente
eficazes. “Na nova lei do trabalho deixou de haver cantoneiros de limpeza, jardineiros
e passou-se a ser assistente operacional. Eu não fui informada. Fizeram uma sessão de
esclarecimento aqui na Câmara e eu não fui informada. Não soube.”.
Os Sindicatos são uma fonte de informação importante para os colaboradores
_“…eu soube pelo sindicato.”_ bem como os pares_ “Rádio - corredor.”. Contudo, os
colaboradores manifestaram a expectativa de serem informados pela Câmara. _“Nós
temos direito a aceder à informação.”. O caso particular das alterações de categorias
profissionais foi referido como exemplo, pelos colaboradores. “Eu acho que a Câmara
havia de informar. A partir deste momento, acabaram estas categorias e vai ser assim e
assim…”.

iii) Caracterização dos níveis de confiança na organização.
Os resultados obtidos nos focus group no que se refere à confiança, apresentaram nítidas
diferenças em função das categorias profissionais. Os assistentes operacionais
afirmaram a sua confiança  quer na organização quer nos seus pares. “…Confio na
câmara, confio no chefe de sector, nos colegas, não tenho problemas de maior.” A
confiança que experimentam deve-se não só à percepção de competência como de
benevolência (Mayers & Davis, 1999) das chefias  _ “Confio,  porque eles são
competentes e têm bons sentimentos, boa índole. A mim merecem-me toda a confiança.
Até um dia que me desiludam. …” .

Este grupo profissional  manifestou também a expectativa de que a organização
confiasse neles. “Sim, eu também acho que eles confiam em nós….”; “… porque eu
também acho que sou uma pessoa competente em relação ao trabalho que me está
encarregado a mim e também como pessoa.”.
O grupo profissional dos técnicos, por outro lado, expressaram claramente e de uma
forma explicita a inexistência de confiança. “Aqui ninguém confia em ninguém.”.
iv) Percepção de impacto, pelos  colaboradores, da gestão de recursos
humanos.
A percepção de impacto da GRH evidencia duas dimensões claras no discurso dos
colaboradores: uma que está relacionado com o conteúdo técnico da GRH _  “[O
SIADAP]Vai gerar muita confusão. Por exemplo no meu sector, nós somos de forma
positiva bastante iguais e ou vamos ser todas iguais ou vai criar muita confusão. Se não
sair tudo igual no meu sector, vai criar muita confusão. E isso em todos os sectores. Até
agora as subidas e as avaliações, a justiça, eram iguais.”  _ e outra que decorre das
relações de poder que instrumentalizam a própria GRH. “Estavam com um bocado de
receio que às vezes os chefes fossem prejudicar alguém… também se falava muito que
um chefe podia não gostar de um por outros motivos e depois que o prejudicasse, mas
eu acho que ninguém vai fazer isso.”.

v) Análise do envolvimento dos colaboradores na organização.
Os colaboradores estão conscientes dos aspectos positivos do emprego que possuem _
“Toda a gente fala mas…o emprego da Câmara não é muito bom, mas é mais ou
menos… é mais ou menos bom…Estou a falar dos internos. Há quem trabalhe muito e
quem trabalhe pouco… Acho que as pessoas não se podem queixar muito… É que se
forem embora estão já mil para entrar já.”_ ainda que reconheçam que “Há um bocado
que anda por amor à camisola, mas a maior parte é por dinheiro. Se tivesses outra
coisa ias te embora daqui, não?”. Aliás, muitos referem que não saem da Câmara por
não haver outras oportunidades em que a retribuição monetária fosse superior. “ Eu pelo
mesmo salário, não saia, gosto do que faço.”. Nota-se, no entanto, algum desencanto
com a relação actual com a Câmara_ “O ambiente já foi melhor, muito melhor, já
trabalhei muito mais por amor a camisola, já tive oportunidade de sair daqui para
melhor e não fui na altura porque gostava do que fazia. Hoje se calhar ia.”.

A natureza da relação com a organização condiciona o desempenho dos colaboradores
que revelam ter a percepção da variação do seu nível de eficiência.  “Pára-se muitas
vezes para pensar…É a raiva a trabalhar cá dentro.”;“Se uma pessoa está a trabalhar,
sem motivação, não tem rendimento. Acho que deveriam ter maior conhecimento do
rendimento de cada um. Há muita gente que gostaria de trabalhar, que queria
trabalhar, de fazer um bom trabalho, depois há os tais serviços bloqueados porque há
pessoas que não querem evoluir e como não querem evoluir não dão oportunidade às
outras pessoas de evoluir.”.
vi) Exploração dos processos de mudança ao nível de implementação de
alterações numa prática de GRH (SIADAP).
Na codificação dos dados utilizando a  template analysis, produziram-se três códigos
relativos ao Processo de Mudança: implementação; participação e comunicação. Iremos
apresentar os resultados de acordo com estes três elementos importantes do processo de
mudança. Os exemplos de processos de mudança que surgiram nos  focus group foram
não só o SIADAP mas também, e no caso especifico dos assistentes operacionais, as
mudanças das categorias profissionais.
A introdução do novo sistema de avaliação de desempenho foi encarado com
expectativas positivas _ “No inicio do ano, quando começou, tínhamos uma ideia
positiva. O sistema é bom, mas tinha de se aplicar na prática.”_ e como  uma
oportunidade para corrigir aspectos que anteriormente eram deficientes. “  E antes de
implementar o SIADAP, penso que se devia limar muitas arestas. Limpar muita coisa,
muitas injustiças e agora a partir daqui é que vamos começar. Há muitas injustiças do
passado e essas deviam ser corrigidas antes de partirmos para o SIADAP.”.
Os colaboradores consideram que, no caso da implementação do SIADAP,  “Devia
haver uma equipa de superiores isentos, uma equipa de consultoria externa, com
neutralidade que possa orientar o SIADAP.”.

O processo de mudança não contemplou a participação dos colaboradores _ “Nos
últimos cinco anos, no nosso caso já tivemos duas mudanças e em nenhuma delas foram
consultados os colaboradores.” _ e não produziu informação suficiente e atempada, na
sua perspectiva _ “Nós já tínhamos sido informados pelo sindicato e depois mandaramnos vir à secção de pessoal. E nós assinamos. Mas já éramos conhecedores das

mudanças. Para mim, já não era novidade.”. Estas circunstâncias provocaram-lhes
algumas reacções negativas como, por exemplo, “Fiquei danada".

vii) Participação dos colaboradores na organização.
Na codificação dos dados destacou-se pelo conteúdo mas também pela frequência,
referências àquilo que designamos por participação, que no âmbito de uma perspectiva
de  boas práticas de GRH como referimos na introdução está em consonância com a
nossa grelha de análise.
Os colaboradores afirmam a sua reduzida participação na Câmara quer pela dificuldade
de aceder a informação que formalmente lhes deveria ser disponibilizada _ “Aqui há
situações de bloqueio muito grandes. Eu por exemplo, tive uma situação em que
reclamei com os recursos humanos, fiz um requerimento, sei que tive um despacho
positivo e sei que há um bloqueio de chefias que ainda não me chegou nada.”, quer nos
processos de tomada de decisão que os envolvem directamente _ “O problema é
quando nos estamos no serviço e gostamos e vem uma ordem de serviço com uma
transferência. Ai é que é o pior. Quando a gente está ali há 5, 6 anos…Acontece em
todos, é geral, ninguém vai inverter a situação.”; “Recebemos uma ordem de serviço de
mudança, a decisão está tomada. “.
A menor participação deve-se, na perspectiva dos colaboradores, às reduzidas
oportunidades de emprego disponíveis e de capacidade negocial. “…se houvessem mais
empregos, se os trabalhadores tivessem outro poder de negociação, pelo menos mais
alguma abertura. Eu acho que isto está mal, eu acho que deveria ser feito de forma
diferente e depois se não fosse da forma que nos queríamos ok, eu faço as malas e vou.
Mas o facto de haver tanta dificuldade na procura de emprego limita, e nos temos
realmente que nos sujeitar… não sei se é a palavra adequada mas…”.


4. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A GRH nesta organização, nomeadamente ao nível das suas práticas, apresentase pouco desenvolvida. De facto, não conseguimos identificar as características das
práticas de elevado desenvolvimento e em especial, encontramos deficiências ao nível
da participação e comunicação. Não nos surpreendeu pois que os colaboradores
identificassem como condicionantes do impacto da GRH, a instrumentalização da GRH
pelos detentores de poder e que o envolvimento que manifestam relativamente à

organização, evidencie a sua componente “contínuo” (Meyers & Smith, 2000, p.320) ou
seja, os custos percebidos e associados à saída da organização são superiores aos da sua
permanência.
Os colaboradores embora partissem com uma perspectiva positiva face ao
processo de mudança que o SIADAP despoletou, estão agora cépticos relativamente à
sua efectiva aplicação. Este cepticismo decorre da falta de participação bem como de
não reconhecerem um papel efectivo de mediador à função Recursos Humanos. È
ilustrativo a sugestão de intervenção de consultores isentos, neste processo. Vemos uma
expressão ainda mais vincada de insatisfação aquando do processo de mudança relativo
às categorias profissionais. Esta mudança é já posterior ao SIADAP, o que nos parece
revelar uma degradação da relação entre os colaboradores e a organização.
Por último, gostaria de realçar que a expressão de confiança pelos colaboradores
na organização  é muito diferenciada pelos grupos profissionais, sendo menor ao nível
dos técnicos superiores.  Foi surpreendente esta diferença tão nítida entre os grupos
profissionais. Contudo, não podemos deixar de recordar que estes resultados reportam a
uma análise dos dados exclusiva dos  focus group, pelo que a nossa discussão merece
alguma contenção.



5. CONCLUSÕES
Identificamos nesta organização os seguintes elementos: práticas de gestão de
recursos humanos  cuja implementação é limitada, nomeadamente ao nível da
participação e envolvimento dos colaboradores,  percepção da função RH como uma
função comprometida com a componente politica da Organização e que não realiza as
expectativas de isenção e de mediação entre os órgãos políticos e organizacionais,
níveis de confiança extremados e, por último, processos de mudança que parecem ser
constrangidos por questões comunicacionais e de participação, e que produzem
implicações ao nível da relação do colaborador com a organização.
Estas conclusões merecem alguma reserva pois ainda não foram analisados
todos os dados recolhidos, nem integrados numa análise mais aprofundada da
organização. Considerando este constrangimento, no entanto, parece-nos que existem
algumas pistas que nos podem sugerir que existe uma relação entre a confiança
organizacional e a GRH. Não é claro com os dados de que dispomos até ao momento, se
a GRH condiciona a confiança organizacional e se a confiança tem um papel importante na adesão dos colaboradores aos  processos de mudança ao nível da GRH, principal
objectivo deste estudo de caso.


NOTAS
1  - Esta investigação foi financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
(Projecto PTDC/PSI/74509/2006)
CONTACTO PARA CORRESPONDÊNCIA
Ana Veloso
Universidade do Minho,  Escola de Psicologia,  Campus de Gualtar, 4710-057
Braga
alveloso@psi.uminho.pt
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Tzafrir, S.S. & Dolan, S. (2004). Trust ME: A Multiple Item Scale for
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http://www.actassnip2010.com/conteudos/actas/PsiTrab_0.pdf

Gestão por confiança, a nova tendência da gestão corporativa

Gestão por confiança, a nova tendência da gestão corporativa

por José María Gasalla - 23/06/2008 11:11
De fato, entre os pensadores que se dedicam às questões corporativas, a confiança vem sendo valorizada e reconhecida como um mecanismo que torna as relações humanas mais abertas e cooperativas; com isso, aumentam a integração, a fluidez e a flexibilidade em todos os níveis da empresa, o que contribui para o desempenho superior e o êxito competitivo.
Como diz o professor Warren Bennis, da Southern California University, *a confiança é o lubrificante que torna possível o funcionamento das organizações*. Podemos considerá-la um precioso bem da empresa, um ativo potencial intangível que integra seu capital social, e também um diferencial competitivo de primeira grandeza, na medida em que proporciona aprendizagem contínua, inovação e diminuição dos custos de supervisão e controles.
Confiança ou controle? – Antes de a globalização da economia e o acelerado desenvolvimento tecnológico começarem a revolucionar o mundo corporativo, os modelos de gestão baseavam-se em supervisão direta e controle. Eram desenhados de tal modo que a estrutura hierárquica exercesse vigilância sobre o funcionamento do sistema, o que deixava implícita a falta de confiança em relação às pessoas.
Hoje, a economia sem fronteiras, a corrida tecnológica, a inclusão do conhecimento como recurso organizacional e as pressões por ganho de competitividade e eficiência estão provocando profundas transformações nas empresas. Um número crescente delas vem desenvolvendo, nos últimos anos, modelos de gestão com foco não mais nas estruturas, mas nas pessoas – como Gestão por Competências, Direção por Valores e Gestão da Diversidade. O objetivo desses modelos é criar condições para maior participação, iniciativa, compromisso e autorresponsabilidade dos indivíduos, o que implica a existência de um clima de confiança em todos os níveis da empresa.
@@@
O que a comparação entre o modelo com foco na estrutura e o modelo com foco nas pessoas sugere é que quanto maior o controle, menor a confiança e vice-versa. Em termos organizacionais, essa relação tem grande importância, pois dá ao fenômeno da confiança uma dimensão econômica. Significa que quando obtemos um alto grau de confiança na empresa, podemos diminuir os mecanismos de controle e, conseqüentemente, os custos para mantê-los. Não se trata de eliminar completamente o controle – visto que todo sistema, para funcionar bem, exige algum tipo de mecanismo regulador -, mas de questionar sua fonte e os meios pelos quais é aplicado. Afinal, estamos conscientes dos custos que o controle representa para a organização e de como poderiam ser reduzidos com um certo nível de confiança?
Neste ponto é importante deixar claro que, ao falar em confiança, não nos referimos à aceitação incondicional das decisões superiores por parte dos funcionários, que é o que vemos em algumas empresas. Confiança, tal como a entendemos, é um sentimento gerado quando a verdade é dita e promessas são cumpridas. É bem verdade que, quando se aceita uma promessa, deve-se assumir que ela pode ou não se concretizar; logo, a confiança implica um certo risco e traz consigo alguma incerteza, pressupondo uma entrega voluntária e consciente do grau de vulnerabilidade que se está disposto a assumir. Não é algo, portanto, que surge de forma natural e espontânea, mas nasce do desejo de conhecer e compreender o outro para saber se é digno de confiança. Tampouco é algo que se possa pedir nem exigir, mas que se inspira.
Sabemos que a realidade do mundo atual parece conspirar contra a confiança. O ambiente altamente competitivo e dinâmico em que atuam as empresas gera incerteza e aumenta a percepção dos riscos dos negócios. Muitos se perguntam até que ponto é possível confiar em um mundo no qual predomina a desconfiança. Mas apesar desse panorama um tanto desolador, estamos convencidos de que hoje, mais do que nunca, a confiança é necessária para o desenvolvimento das organizações. Como fenômeno emocional, ela predispõe as pessoas a se integrarem umas às outras e se abrirem para trocas, sem medo de perder a propriedade de experiências, conhecimentos e competências. Fomenta a transferência do saber e abre espaços de luz e inter-relacionamento no sistema, colaborando com o fluir da organização.
Gestão por confiança – Mas como conseguir um bom nível de confiança nos diferentes estratos da organização? Como criá-la nas relações interpessoais? Como geri-la? Como evitar que ela se perca? Como transmiti-la dentro e fora da organização? Essas são questões que inquietam os gestores, e, para equacioná-las estamos trabalhando em um modelo que chamamos de Gestão por Confiança (GPC).
Ainda que possa parecer desafiadora ou trabalhosa, a idéia de criar laços de confiança entre as pessoas se mostra como uma aposta que vale a pena ser feita. Compromisso e confiança se constituem, hoje, como elementos fundamentais das organizações dinâmicas e fluídas que mantém uma harmonia interna e obtém uma sustentabilidade rentável.
José María Gasalla é palestrante e consultor empresarial nas áreas de Mudança e Desenvolvimento Organizacional, Recursos Humanos, Gestão de Pessoas e Desenvolvimento de Talentos. É idealizador da Gestão por Confiança e preside o Grupo Desarrollo Organizacional em Madrid, Espanha. É Engenheiro Aeronáutico, Doutor em Ciências Econômicas e Empresariais pela Universidade Autônoma de Madrid e em Psicologia Social pela Universidade Complutense.

domingo, 17 de outubro de 2010

Criar confiança: o esforço vale a pena

Artigos
25/1/2009
Criar confiança: o esforço vale a pena
Amy Lyman
 
Buscar uma oportunidade profissional em empresas que tenham reconhecidamente um bom ambiente de trabalho é uma estratégia que deve ser sempre estimulada. Os líderes dessas empresas costumam buscar com mais empenho a melhoria permanente do clima interno e promover a identificação dos valores da empresa com os da sua equipe. Criar uma cultura em que os funcionários digam “este é um ótimo lugar” exige que os líderes promovam e desenvolvam uma relação de confiança com as pessoas.

Empresas com bom ambiente de trabalho geralmente apresentam altos níveis de confiança, cooperação e compromisso e costumam estar à frente de seus concorrentes. Elas têm um turnover abaixo da média de mercado, atraem e retém talentos com maior facilidade e demonstram um espírito de equipe único. A conseqüência disso é um desempenho financeiro melhor no longo prazo comparado ao das demais organizações.

Nas pesquisas que realizamos em 41 países, constatamos que há mais probabilidade de ocorrer uma comunicação eficaz entre os funcionários das melhores empresas do que nas demais. Os gestores, por sua vez, são mais respeitados e vistos como competentes e íntegros. Além disso, os funcionários desse grupo especial de organizações acreditam mais na gestão e que serão tratados com justiça em momentos como promoções, mudanças salariais, designação de tarefas e abertura para expor suas idéias.

Mais de dois terços dos funcionários das Melhores Empresas acreditam que recebem uma parcela justa dos lucros de suas organizações. No caso das 100 empresas com pior desempenho na pesquisa, menos da metade acredita nisso. Os números mostram ainda que 71% dos funcionários das melhores empresas crêem que, na maioria das vezes, as promoções vão para aqueles que mais merecem. Já naquelas 100 com desempenho pior na pesquisa, esse índice é de 52%. Portanto, não há dúvida: quanto maior o grau de confiança das pessoas na empresa, maior o seu nível de comprometimento.

*Amy Lyman é diretora do Great Place to Work ® Institute, Inc.
 
Fonte: O Estado de São Paulo
Autor: ABRH-SP

http://www.abrhsp.org.br/site/artigo_read.asp?id=111