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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O Que é Espiritualidade?

Entrevista de Jair Moggi para o Jornal "O Dia" BH

No contexto do nosso ultimo livro (meu e do meu sócio Daniel Burkhard): Como integrar Espiritualidade e Liderança (Editora Campus Eslsevier), nós conceituamos espiritualidade diferenciando-a de religiosidade. A espiritualidade é uma coisa única, já as diversas religiões que existiram e existem são caminhos diferentes para a espiritualidade. É esse “religare” que faz o caminho para o espiritual, a partir do ponto de vista de cada corrente religiosa.
As religiões apareceram e aparecem em determinados contextos históricos, culturais da humanidade e representam uma forma de ver o mundo dos líderes fundadores dessas correntes, e normalmente essas visões são deturpadas pelos seguidores.
É importante dizer também que esses líderes sempre atuaram inspirados pelo mundo espiritual. Mesmo religiões que não tiveram um fundador como o hinduismo, por exemplo, que poderia se dizer ser a religião mais antiga do mundo e que inspirou muitas outras, tem no seu arcabouço uma sabedoria primordial inspirada por seres espirituais, o que era normal para aquela época cultural da humanidade e para aquele estagio de consciência do ser humano, quando ainda predominava uma consciência abafada ou mítica.
A expressão espiritual no livro deve ser compreendida no seu sentido místico, isto é: místico como denotado no radical da palavra mistério, ou seja, aquilo que não vemos, mas que intuímos existir, aquilo que não entendemos, mas que todas as tradições e culturas reconhecem e respeitam.
O conceito de espiritualidade se caracteriza por possuir elementos comuns a todas as grandes religiões como o amor, o respeito à vida em todas as suas manifestações, o livre arbítrio, a esperança, a fé, a ética, a integração, a verdade, a bondade, a beleza, a igualdade, a fraternidade e a liberdade.
No livro é destacados algumas leis ou princípios espirituais que fazem parte do oceano, formado pelo que é comum de todas as tradições religiosas e que estão por traz dos processos sociais e das instituições sociais que o ser humano cria, entre elas, as empresas e os grupos onde atua.
São leis e princípios inovadores, mas ao mesmo tempo antigos, por que são eternos. Eternos, porque são de natureza espiritual, isto é, estão na base de tudo o que sabemos e sentimos, como seres co-criadores da realidade que nos cerca.
Ao se trabalhar com conceitos espirituais nas empresas, no fundo estamos falando em elevar os níveis de consciência das pessoas e dos grupos sem perder de vista os resultados materiais. É entender que ninguém pode ganhar o máximo e o tempo todo sem que isso cause desequilíbrios no meio ambiente, infelicidade ou conseqüências nefastas para a sociedade no médio e longo prazos.
A nossa experiência de observações de longo prazo tem mostrado que para quem é causador ou se orienta por atitudes e ações excessivamente materialistas, a vida ou o destino acaba sempre colocando essas pessoas em situações onde essas ações são cobradas através de um profundo vazio existencial ou de uma infelicidade no seu círculo íntimo e até mesmo por doenças somatizadas.

Na prática como e por que integrar espiritualidade e trabalho?

A resposta a essa questão depende de uma digressão e respostas a algumas sub-perguntas do tipo:
Se olharmos para a situação atual do mundo e da humanidade, poderemos sem dúvida nos orgulhar pelos grandes avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas. Parece que somos capazes de realizar qualquer coisa: O que ainda não conseguimos realizar é apenas uma questão de tempo. Essa é uma verdade que pode ser assumida.
Exploramos o espaço sideral; arrancamos os segredos da vida através das descobertas da essência do DNA e do genoma humano. Podemos alterar geneticamente qualquer ser vivo; podemos clonar e podemos criar novos seres que nunca haviam existido antes. Podemos nos comunicar de qualquer lugar do Planeta com qualquer pessoa em qualquer outro lugar. Isso sem considerar toda a tecnologia que desenvolvemos em torno do átomo. Parece que a fronteira de nosso conhecimento não tem limites tudo é simplesmente deslumbrante!
Mas, apesar de todo esse deslumbramento com os avanços científico-tecnológicos, um número cada vez maior de pessoas começa a se questionar se estamos no caminho certo; pois os problemas não solucionados pela humanidade começam a se avolumar. Vemos poluição de todos os lados: da terra, do mar, dos rios, da atmosfera, dos lençóis freáticos, das calotas polares. Estamos em vias de contaminar todo o nosso meio ambiente.
Os desastres e fenômenos climáticos são cada vez mais severos e numerosos; a camada de ozônio se encontra em deterioração crescente. Parece que com cada conquista tecnológica, a Terra paga um preço com perda da sua vitalidade. O fato verdadeiro é que nós, enquanto humanidade, estamos sujando cada vez mais nosso próprio ninho, nossa própria casa. Cada vez mais pessoas, se perguntam: Onde isso vai dar?
É fácil constatar que a nossa evolução tecnológica com todas as suas conquistas está intimamente ligada a dois fenômenos crescentes: poluição e extinção. Estas duas expressões estão ligadas à perda de vitalidade e conseqüentemente à morte. Cada espécie extinta no planeta é um passo seguro na direção de nossa própria extinção como humanidade.
Outro fato inexorável é que o nosso processo de evolução científica e tecnológica é irreversível e isso não tem volta! Somente podemos ir para frente. As descobertas científicas ficaram cada vez mais poderosas em seus efeitos, que podem ser para o bem ou para o mal da humanidade. Não podemos desistir de fazer novas descobertas, pois estaríamos negando “a raça humana”. A curiosidade do ser humano não tem limites, mas a grande questão é: Como utilizamos as descobertas científicas?
Não apenas na questão tecnológica, estamos numa espécie de beco sem saída. Também na questão social parece não haver soluções. Pois o abismo entre os ricos e os pobres se aprofunda cada vez mais.
Na questão social, quanto mais afluente se torna uma sociedade com base nos paradigmas de reconhecimento das pessoas orientados para o Ter e não pelo Ser, mais se realça no horizonte social a sensação de que cada um de nós nos sentimos como um extra-terrestre em nossa própria cidade ou em nosso próprio mundo.
De que adianta ser detentor de um patrimônio adquirido através de uma vida profissional profícua ou de um empreendimento lucrativo, se não posso usufruir esse patrimônio, tamanha a miséria que me cerca. Se os empregados que fazem a segurança do meu condomínio de luxo ou que servem a mim e a minha família, podem ser vistos como inimigos potenciais, tamanha a diferença sócio-econômica entre a realidade que eles vivem nas suas casas e a realidade na qual eu e a minha família vivemos.
Como na física, toda pressão vai querer sair por algum lugar, a pressão social também. Se ela não for encaminhada, tenderá a se manifestar de alguma forma, isso ocorre quase sempre de forma violenta.
Em nosso país e em muitos paises do terceiro mundo, a concentração de renda chegou a um ponto insuportável. O resultado a olhos vistos é a violência. Os pobres se revoltam cada vez mais contra as injustiças sociais e o resultado é que os ricos nem podem mais andar despreocupados na rua. São obrigados a se trancarem dentro de verdadeiras fortalezas para não serem assaltados ou roubados. A mídia em sua maioria sensacionalista faz de tudo para encorajar ainda mais essa violência com reportagens e filmes onde o valor da vida humana é banalizado ao extremo.
Nas grandes cidades brasileiras a criminalidade e a violência se instalam gerando um clima coletivo de insegurança generalizado, onde o “mal não tem mais cara” onde cada um se sente impotente para resolver as situações de degradação e ameaça ou finge que não as vê.
Essa pressão social com certeza tem muitas explicações alem do desnível social; com certeza ela vai chegar num limite onde podemos ter “a guerra de todos contra todos” e aí, por mais afluente que a sociedade seja para alguns, todos perderão no final.
No que se refere aos aspectos ambientais, se você lembrar de como era a natureza nos locais onde você nasceu, viveu, brincou ou passou a sua infância ou as suas férias e fazer a comparação dessas lembranças da infância com a situação atual desses locais nos dias de hoje: Como você se sente? A nostalgia é grande?
Em que tipo de mundo e ambiente seus filhos e netos irão viver se as coisas continuarem nessa direção? Qual é a responsabilidade do mundo empresarial em relação a essas questões? Qual é sua responsabilidade hoje, no aqui e agora, em relação ao meio ambiente e ao futuro do planeta?
Isso olhando externamente, por outro lado olhando dentro de mim o que encontro?
De que adianta ter sucesso na vida pessoal e profissional, se meu filho é um drogado? Se a minha mulher ou meu marido, já não me ama mais? Se o meu sucesso foi obtido à custa da injustiça, de males irreparáveis causados à natureza, do sofrimento das pessoas que estão ao meu redor ou mesmo de pessoas que não consigo ver seus rostos, mas que de uma forma ou outra tiveram que se sacrificar para que o meu sucesso pudesse ocorrer? Como é isso para você?
Tudo isso sem falar em questões do tipo?
Quantas horas você está trabalhando por dia? Tem tempo para os amigos? Você tem amigos verdadeiros? Como você trabalha com a questão da solidão do poder?
Um executivo para o qual trabalhamos, que fez um grande processo de autodesenvolvimento, certa vez qualificou a sua situação como uma pessoa que sofria da “síndrome do aquário”. Dizia ele: “todo esse poder que me atribuem não é nada. Sinto que vivo numa redoma de vidro. Ouvindo o que as pessoas acham que eu quero ouvir! Eles fingem que são controlados e eu finjo que tenho a situação sobre controle”.
Enquanto não conseguimos romper com os paradigmas materialistas unilaterais, estreitos, não acharemos a saída da situação caótica em que se encontra a humanidade. Daí a emergência de novos paradigmas de liderança que considerem além dos aspectos materiais, também os aspectos psíquicos, sociais e espirituais, que responde em parte a sua pergunta no inicio.

Quais são as resistências a esse tipo de abordagem?

Como muitos dos novos paradigmas que querem emergir transcendem os aspectos físico-sensoriais, eles perdem a credibilidade científica e esbarram na resistência de muitas pessoas que ainda não se despertaram, insistindo em manter as direções apontadas na resposta à pergunta anterior.
São muito comuns expressões do tipo: Isso não é comprovado! Isso é impossível! Isso é charlatanismo! Isso é delírio, o importante é dinheiro no caixa a qualquer custo! Isso é bobagem! Isso é picaretagem!
Essas são as expressões típicas de quem está tomado pelo paradigma materialista. Estas expressões escondem um preconceito que rejeita qualquer idéia que não corresponda ao seu paradigma de ver as situações e o mundo. Romper paradigmas provoca incertezas e inseguranças, e exige coragem. Talvez o primeiro ato de coragem poderia ser a formulação da pergunta: “Por que não?” Perante um novo fenômeno desconhecido anteriormente. É o que propomos no livro.

Por que esse preconceito existe na sua visão?

O que está por traz desse preconceito ou dessa resistência foi causado pelo a atual estágio de consciência do ser humano caracterizado pela consciência racional-lógica. Acho importante dizer que esse é um estágio de consciência atual. Existiram outros anteriores e existiram outros estágios futuros, como mostrados no livro.
Os próximos estágios que se vislumbram podem trazer respostas às questões colocadas anteriormente.  O problema é que estamos acostumados também ao paradigma evolucionário onde acreditamos que eles virão naturalmente. O fato relevante é que não será mais assim.  Os próximos estágios de consciência e de evolução do Planeta só virão se o ser humano conquistá-los a partir de um esforço consciente.
Retomando esse tema de uma outra perspectiva a evolução da consciência humana até os tempos atuais vemos que a consciência racional é baseada no pensamento linear, positivista, lógico. Toda a ciência moderna é baseada na consciência racional e o materialismo é fruto desse pensar racional.
Se olharmos para traz na história da humanidade, veremos que o pensar racional foi uma grande conquista. Através deste pensar conseguimos nos distanciar das forças da natureza, do medo dos deuses e nos tornar seres humanos livres de superstições. Por ouro lado, percebemos que a consciência racional é apenas um estágio da evolução humana, não sendo o seu ponto culminante. Até porque já percebemos também que esse pensar está nos levando a um beco sem saída, como visto anteriormente.
Se olharmos para frente, libertos de preconceitos, poderemos ver que o nosso pensar racional, tão claro e nítido, não passa de uma sombra quando comparado com futuros graus de consciência humana.
Explicando melhor isso: Na essência, os elementos da consciência ou do nosso Pensar Racional-Lógico são: Um objeto provoca uma impressão sobre os nossos sentidos, causando uma sensação, uma imagem ou uma representação mental desse objeto. A partir dessa representação o Eu forma um conceito e o Eu chega à compreensão ou faz um julgamento.
O “Eu” a partir desses elementos absorve a forma, o conceito, faz o julgamento, guarda a imagem e o conceito na memória.
Assim o nosso pensar racional depende dos estímulos do mundo material ou sensorial para ser ativado. Por exemplo, se tenho uma percepção olhando um objeto fora de mim, essa percepção imprime em mim imediatamente uma imagem. Se eu já tiver uma experiência anterior com esse objeto, eu aplico a este objeto um conceito que já tenho dentro de mim, através da minha memória. Então eu digo: “isso é uma casa”, “isso é uma cadeira”, etc. Se eu não tivesse aprendido anteriormente o que é uma casa, ou uma cadeira, eu não poderia denominá-los agora.
No mesmo instante em que eu conceituo o objeto visualizado, o meu sentir é ativado e denomino automaticamente um adjetivo ao objeto: “é uma casa grande, bonita, velha”, etc. Com isso eu expresso a minha relação com o objeto em forma de simpatia ou antipatia.
Percebe-se então que o pensar lógico-racional depende de observações do mundo exterior ou de memórias para ser ativado.  Dessa forma a pessoa se limita apenas ao mundo dos sentidos (conhecimento material), vivendo no âmbito de um mundo limitado, comum, normal.  O que é muito pobre diante do potencial ilimitado que se descortina diante de nós quando conseguimos conciliar matéria e espírito no nosso processo de desenvolvimento individual e coletivo.
A conseqüência do Pensar apenas racional lógico é ele estar acorrentado à matéria física. Com o nosso pensar racional, lógico nunca podemos transpor os limites do mundo físico onde estamos presos em nossa “Jaula Existencial”. Para sair desse paradigma precisamos adquirir uma nova maneira de pensar, independendo das nossas percepções sensoriais.

O  que vem a ser essa jaula existencial?

A imagem a seguir, tenta explicar esse conceito:

Imaginando o ser humano no centro da figura, acima vermos que o limite 1 refere-se ao que acontece à nossa observação do mundo externo. Quando olhamos um objeto externo a nós, estes objetos têm superfícies. Podemos olhar com um microscópio ou telescópio, sempre damos de encontro com novas superfícies que delimitam o nosso espaço de observação. Não conseguimos transpassar as superfícies das coisas materiais, por mais que entremos na essência da matéria, por mais que os nossos equipamentos se sofistiquem, dos mais poderosos microscópios aos mais poderosos telescópios inter e intra-estelares, sempre estaremos tangenciando a superfície das coisas.
O limite 2 refere-se ao mergulho que podemos dar dentro de nosso interior. Fazendo isso damos de encontro com nossos sentimentos em forma de alegrias, dor, sofrimento, medo e coragem, desejo e cobiça, etc. Este mundo interior já não pode ser alcançado com tanta definição e clareza como o mundo externo. O mundo interno abrangido pela nossa consciência encontra o seu limite no espelho da nossa memória. Todas as nossas vivências conscientes são refletidas pela nossa memória e nossa consciência não tem condição de atravessar esse limiar. Não podemos ir além da nossa memória.
O limite 3 é o limite dado pelo portal do nosso nascimento. Não podemos atravessar este portal com a nossa consciência e tudo que podemos dizer a respeito do que há antes da concepção são especulações ou uma questão da fé de cada um. E fé é uma coisa subjetiva.
O Mesmo vale dizer para o limite 4 que é o limite dado pelo portal da morte. Nada podemos dizer de concreto a respeito daquilo que existe além do portal da morte também é uma questão de fé.
Dentro deste espaço claramente delimitado a nossa Jaula Existencial, a nossa ciência materialista pesquisa, a nossa tecnologia constrói, a nossa vida social, cultural e econômica acontece, e a nossa economia opera.
Quando penetramos nas questões existenciais de essências do ser humano, com questões do tipo: De onde vim? Para onde vou? Quem sou? Que sentido tem a existência? Percebemos que as respostas ultrapassam necessariamente aos limites impostos pela nossa consciência racional comum. Quero crer que entendendo o conceito de Jaula Existencial que também ajude a responder a sua pergunta: Por que integrar espiritualidade e trabalho?

No livro o senhor fala em evolução da consciência humana: consciências (imaginativa, inspirativa e intuitiva), o que são e para que servem?

Como já foi dito, o pensar racional-lógico já atingiu o seu auge e nos encalacrou em nossa “Jaula existencial”, a princípio intransponível, mas que pode ser rompida a partir de novos estágios de consciência.
O conhecimento Antroposófico nos ensina que é possível desenvolver uma nova consciência que é independente do pensar cerebral e dos fatos externos que nos leva além do pensar racional-lógico. A antroposofia ela também ensina que esses estágios de consciência futura, só poderão ser desenvolvidos se já tivermos desenvolvido ao máximo a nossa capacidade racional-lógica. Esse paradoxo faz sentido, pois o processo de consciência só é possível quando temos clareza no nosso pensar.
Rudolf Steiner, fundador da antroposofia, caracteriza os três futuros graus de evolução da consciência em: a consciência imaginativa, a consciência inspirativa, a consciência intuitiva. Devido ao espaço da entrevista e para simplificar vamos resumir esses três estágios de consciência debaixo da expressão “O Pensar do Coração”.
Explicando melhor: uma característica geral dos novos estágios do pensar é que no estágio de consciência atual, só conseguimos ter um pensamento após o outro. É um pensamento linear, no sentido de só podemos ter um pensamento após o outro. Não conseguimos por mais que nos esforcemos ter a consciência de dois pensamento simultâneos. Isso no estágio atual da humanidade, ter pensamentos simultâneos é praticamente impossível e no fundo é a razão de nos enclausurarmos em nossa Jaula Existencial já descrita anteriormente.
Um exemplo dessa capacidade pode ser vista no livro e no filme que conta à biografia do ganhador do prêmio Nobel de Economia John Forbes Nash Jr. A passagem referida pode ser vista no filme “Uma mente brilhante”, do diretor Ron Haward e no livro “Uma mente brilhante” da Editora Record.
O Pensar do coração, no futuro, incorporará uma outra qualidade ao nosso pensar que é a qualidade de pensarmos em círculos, ou de termos a capacidade de sobrepor pensamentos com consciência. Podemos dizer que nesse tipo de pensamento os fatos estão ao redor do Eu em círculos e não linearmente, tendo o Eu então a possibilidade de, num relance percebê-los simultaneamente e formular juízos ou julgamentos a partir disso.
Para o entendimento adequado dos conceitos que virão a seguir é importante destacar que Pensar do Coração não é colocar as emoções no pensamento ou na ação.
As qualidades que diferenciam um pensar do outro são as seguintes: o Pensar do Coração é: supralógico, qualitativo, fluido, etérico, artístico, vivo, ativo, criativo, pensar imaginativo, linguagem do Cristo, e (novo testamento). Enquanto que o Pensar do Cérebro (Racional - lógico) é: lógico,     quantitativo, sólido, físico, científico, morto, passivo, contemplativo, pensar racional e a linguagem de Jeová, e (velho testamento).
Sabemos que todo processo de desenvolvimento não é homogêneo. Em qualquer cultura ou situação existem sempre aqueles seres humanos que se antecipam aos outros.  São os adiantados da classe, pessoas que demonstram essas qualidades do pensar do futuro, não acompanhando a grande massa.  Aqui estamos falando dos grandes gênios da humanidade, tanto na esfera política, militar, científica, religiosa ou artística que são reconhecidos como verdadeiros gênios ou lideranças carismáticas. Pense num Bethoven ou num Mozart que compunham operas aos 8 anos de idade. Num Einstein que desenvolveu a teoria da relatividade aos 24 anos apesar de ser considerado inábil pelo seu professor de matemática do curso primário, ou de um Ghandi que fez a libertação de um país a partir de uma estratégia incomum, ou de Jesus, Buda ou Maomé para ficarmos apenas com alguns exemplos.

Mas o que esse pensar do coração significa?

Como disse a expressão Pensar do Coração é uma síntese desses três conceitos ou estágios de consciência que significam o seguinte: Imaginação é a capacidade de enxergar o invisível através do fortalecimento do pensar, Inspiração é a capacidade de ouvir o inaudível através do fortalecimento do sentir, Intuição é a capacidade de saber fazer o certo através do fortalecimento do querer.
O verdadeiro líder pode usar todos os métodos científicos necessários para analisar a situação e fazer projeções, mas na hora da decisão final ele busca a resposta de dentro de si. Ele ouve a si mesmo. Isso é o novo!
Acontece que geralmente esse Líder não tem consciência destas faculdades que ele possui de uma maneira mais ou menos rudimentar. O novo também é que essas faculdades podem ser desenvolvidas conscientemente através de um caminho interior de autodesenvolvimento.
Em nosso dia-a-dia, também existem pessoas, que são como os alunos avançados da classe dos seres humanos no desenvolvimento da consciência. São aquelas pessoas que fazem a passagem dos limiares da “Jaula Existencial” de forma consciente. Ou melhor, dizendo, muitas pessoas do nosso tempo podem desenvolver essas características que os colocará num novo referencial de liderança. O que chamamos no novo livro de liderança espiritualizada.

O que é liderança espiritualizada?

A liderança baseada na espiritualidade é uma liderança calcada em preceitos éticos e morais elevados. Por que o mundo espiritual e o mundo moral são sinônimos. É o que reconhecemos em todas as tradições espirituais da humanidade.
Isso quer dizer que qualquer decisão ou ação de pessoas que ocupam posições de liderança deve obedecer a critérios éticos – morais elevados, para que possam fazer diferença no mundo físico e no mundo espiritual.
É importante alertar que quem chegou até esse ponto da entrevistas, que ao discorrer sobre esse tema andamos num terreno muito difícil, pois as tentações e valores que orientam o mundo dos negócios sempre colocam nos frente a frente ao que é ético e ao que não é ético, entre o que é moral e o que é imoral.
As Enros e as Parmalats da vida são apenas algum dos exemplos de escândalos morais e éticos que chegaram à mídia recentemente.

Como saber se as minhas decisões ou ações são éticas?

O que temos constatado ao longo da nossa trajetória pessoal e profissional, trabalhando com líderes empresariais diferenciados descobrimos que a maneira de checarmos se as nossas ações ou omissões como líderes atendem ao critério ético-moral é a resposta a uma pergunta simples.
Essa pergunta é: Esta decisão ou ação contribui para a evolução do ser humano e da humanidade?
Evolução aqui deve ser entendida como a direção da evolução da consciência humana para os níveis que chamamos de consciência imaginatva, inspirativa e intuitiva, ou o para o Pensar do coração como falamos há pouco.
Se ela prejudica essa evolução de alguma forma, reforçando o paradigma materialista que nos encalacra em nossa “Jaula Existencial” ela não é ética na sua essência.
A resposta que nós damos á questão acima depende do grau de consciência e da posição pessoal que nós temos em relação ao processo de evolução do ser humano.  Isso de um lado, de outro lado depende também da disposição interior que temos com relação à evolução como um todo. Para isso temos de nos enfrentar com outras questões do tipo: Qual é meu papel neste mundo? Como quero ser lembrado? Tenho algo a contribuir para a evolução ou sou apenas mais um habitante neste planeta que procura egoisticamente sobreviver, não interessando o que vem depois de mim? O que significa para mim: Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Sou mobilizado para a verdade, a bondade e a beleza?
Os verdadeiros líderes se preocupam com questões dessa natureza, porque sabem que contribuem para a evolução, caso contrário não são lideres.
Podem ser sedutores, impostores, usurpadores, oportunistas, manipuladores etc. O verdadeiro líder anda na frente dos demais abrindo caminhos para a evolução, criando a visão do futuro, agarrando oportunidades, enfrentando desafios, estimulando os seguidores e não seguidores ao crescimento e a contribuir positivamente para a evolução das pessoas, dos grupos, das empresas, da comunidade, do pais, da humanidade e do planeta.
Para isso é necessário optar conscientemente por um caminho de desenvolvimento interior.

O que é recomendado para um caminho de desenvolvimento como o senhor fala?

Basicamente o caminho interior do desenvolvimento do Líder espiritualizado passa pelos seguintes aspectos: Fortalecer o pensar para compreender os fenômenos do mundo. Fortalecer o sentir para julgar com certeza o que é justo. Fortalecer o querer para interferir com coragem na vida.
È importante mais uma vez, que se ressalte que quando falamos de liderança espiritualizada ou do caminho interior do Líder, que isso não tem nada a ver com misticismo e o flutuar numa volúpia espiritual, mas sim num caminho consciente de auto-educação, autodesenvolvimento e autocondução a partir da própria essência espiritual de cada um.
Quais são as condições para um desenvolvimento interior?
A condição básica para um caminho interior é o cultivo de um sentimento de devoção. Devoção perante a verdade, a sabedoria, a vida. Quem teve a sorte de poder cultivar este sentimento quando criança tem uma enorme vantagem sobre quem não teve esta sorte.
Vivemos numa época em que as possibilidades para cultivar o sentimento de devoção são cada vez mais difíceis de serem encontradas.  A nossa época atual dá muito mais ênfase para a crítica e o julgamento negativo do que para o cultivo de um sentimento de devoção. As aulas de ecologia nas escolas podem resgatar o sentimento de devoção perante a sabedoria existente na natureza, por exemplo.
Espiritualmente, podemos afirmar que quanto mais eu consigo me aprofundar no sentimento da devoção tanto mais eu consigo erguer a minha cabeça acima das mazelas da vida diária e me colocar a caminho da integração espírito-matéria.
O sentimento de devoção perante a verdade, a bondade, a beleza, o conhecimento, a natureza, a criação e perante a divindade é alimento para a alma, assim como os elementos naturais o são para o nosso corpo.
Uma outra condição básica para qualquer processo de auto desenvolvimento espiritual é a calma interior.
Criar diariamente alguns momentos de silêncio interior, onde tentamos diferenciar o importante do corriqueiro. Esses são os momentos onde podemos conscientemente olhar para o nosso pensar, sentir e querer como uma pessoa estranha a nós mesmos. Onde podemos nos distanciar de nos mesmos e observar-nos com nossos prazeres, sofrimentos, preocupações, experiências e ações.
Quem consegue se autodisciplinar para essa prática percebe um poderoso efeito positivo no sentido de uma maior certeza interior de condução da vida e das situações do dia-a-dia.
Esse hábito, não precisa levar mais do que 5 a 10 minutos por dia. Nesse tipo de exercício, o importante é a regularidade. Após algumas semanas já sentiremos uma grande transformação interior. A nossa maneira de se comportar e de agir se torna mais calma e mais segura. Imprevistos já não conseguem mais nos atropelar interiormente. Seremos conduzidos cada vez mais por nos mesmos e cada vez menos pelas circunstâncias externas.
Outra condição para o líder ou qualquer pessoa que queira aprender a liderar a si próprio e iniciar um processo consciente de libertação e emancipação que o coloque em direção ao processo de desenvolvimento imaginativo, inspiriativo e intuitivo, deve reconhecer que esse é uma caminho interior que só ele pode fazer por si. Ele precisa ter a coragem de descer ao porão da sua alma. 
Para ajudar na descida ao porão e enfrentar as nossas sombras de maneira segura e produtiva existem 6 exercícios, que devem anteceder a introdução do habito de meditar, são eles: O Controle dos Pensamentos, o Domínio da Vontade, a Serenidade, a Positividade, a Receptividade Imparcial e o Equilíbrio.

Porque meditar e quais são os efeitos da meditação ou desses exercícios propostos?

No fundo o próprio nome dos exercícios citados, são qualidades espirituais da liderança diferenciadora ou espiritualizada.
Os efeitos percebidos são os seguintes, ao praticá-los: evitar pensamentos ilógicos aprendemos que tudo que fazemos depende de algo impulsionado por algo externo e que o nosso “eu é fraco”. Evita-se desarmonia no agir, desenvolve-se maior percepção consciente do efeito dos nossos atos, o desenvolvimento da força do pensamento e da vontade, o desenvolvimento de timing para a ação certa, libertamo-nos da antipatia-simpatia, não nos deixando levar por essas polaridades nos assuntos do dia-a-dia. Aprendemos a estar acima do bem e do mal em toda e qualquer situação. Tornarmos-nos donos do nosso sentimento, não enxergando, julgando e criticando apenas o negativo quando o positivo, o belo, o verdadeiro também existe. Para se aceitar opiniões contrárias, fortificar a fé nas situações complicadas. Não ter medo do desconhecido. Aceitação do novo e o que não se entende. Aprender a não ver as coisas sempre de um mesmo ângulo, libertar-nos da ditadura das experiências do passado, desenvolver o “espírito da criança” ou de pureza e desenvolver o juízo certo.
Outros efeitos gerais desenvolvidos pela meditação, observado em pessoas que tem longa prática: Desenvolvimento da “a presença de espírito”, do fortalecimento do caráter, da serenidade, da objetividade para as coisas da vida, do genuíno interesse, da compreensão para fatos novos, da capacidade de concentração, da segurança interior para se atingir novos níveis de consciência, da palavra certa, da perseverança.
Desenvolve-se a habilidade para falar para o coração e não para o intelecto das pessoas, nos tornarmos conscientemente donos dos nossos pensamentos, sentimentos e da nossa vontade. Desenvolve-se também a harmonia e paz interior.

Quais são os requisitos para a meditação?

Ter um local adequado. Não precisa ser um altar ou coisa parecida, estamos falando aqui de um local, onde você não seja interrompido, durante um certo período do dia, pode ser na sua casa ou no seu escritório. Definir um horário adequado. O melhor horário é pela manhã ou duas vezes ao longo do dia. Regularidade: diária como se fosse um hábito novo. Iniciar, buscando a calma interior: sentar-se de forma ereta, concentrar-se na respiração, fechar os olhos ou não. Geralmente quando ficamos de olhos abertos nos desconcentramos, mas se você conseguir se concentrar com os olhos abertos é o ideal, pois muitas pessoas quando fecham os olhos viajam literalmente.
Quais são os riscos da meditação?
Há um risco imanente ao se fazer esse caminho de desenvolvimento interior. Muitas pessoas ao fazerem essa viagem acabaram fazendo um desserviço a si próprios, para os outros e para a causa da evolução, ficando pelo caminho. Os sintomas de queda no caminho são: confusão no pensar, ambições, orgulho, arrogância, prepotência, apego, egocentrismo, superstição, misticismo, fala excessiva, negligência, delírios, perda do senso de realidade, ilusões, obsessões, excesso de sensualidade, mal humor e a perda do sentimento da devoção e a desumanidade.
Os exercícios propostos inicialmente funcionam como uma blindagem ou proteção a esses riscos, que pela sua natureza, são gravíssimos uma vez que encalacram as pessoas mais e mais na “Jaula existencial”. Voltamos a lembrar que pessoas que ocupam cargos de liderança têm uma responsabilidade redobrada, por que são imitados por outras pessoas que estão ao seu redor.
Líderes que perseguem esses atributos com consciência chegam às decisões com confiança. São intuitivos sem esquecer a razão. São capazes de conviver com conflitos, lidar confortavelmente com paradoxos e com os aspectos intangíveis que se apresentam em todas as situações. Aceitam o que não pode ser compreendido ou controlado. Aceitam e trabalham com as contingências de forma objetiva e aceitam também o fato de que um ser humano não recebe de presente, e nem tem inato, suficiente discernimento para conciliar seus valores pessoais com as práticas da vida empresarial.

Mas fazer tudo isso não é muito difícil?

É! Como seres humanos podemos melhorar porque somos imperfeitos. Em termos espirituais, essa é a grande aventura? A aventura definitiva diria eu. O importante a fazer é tentar sempre.  Tentar, mesmo sabendo que muitas vezes perceberá que seus ideais e esperanças não poderão ser atingidos, mas que a vida sem essas âncoras é uma vida vazia, sem sentido nem objetivo; e que um dia, ao se aproximar a morte e se perguntar: O que eu deixarei para esse mundo? Ou, Como serei lembrado? Possa estar em paz ao concluir que valeu a pena ter feito o que fez em todos as áreas da sua vida pessoal e profissional.
Esse conjunto de atributos, fruto de uma filosofia pessoal de vida e de um sistema de valores reais, não pode ser encarado como mais um item da agenda para o dia seguinte, como se fosse uma reunião importante e nem ser visto como a garantia de resultados materiais, mas deve ser encarado como um compromisso com a sua essência como ser humano.
No caminho do desenvolvimento da Liderança Espiritualizada, provavelmente, salvo uma ou outra exceção, não seremos clarividentes nem iniciados. O importante não é o resultado, mas sim o processo. O esforço que dispensamos para caminhar nesta direção torna a nossa alma mais acordada, mais presente e com uma visão ampliada, pois aquelas faculdades que o verdadeiro líder tem de uma maneira rudimentar e que denominamos como imaginação, inspiração e intuição se tornarão cada vez mais acentuadas e isso será um resultado muito alvissareiro.
Porém o importante ao nos mobilizarmos para o desenvolvimento de uma liderança espiritualizada, que não o focamos, visando interesses pessoais, pois isso nos faria derrapar para a magia negra com conseqüências nefastas em todos os sentidos.
Trabalhando no sentido de melhorar o mundo, esquecendo um pouco nós mesmos, nos tornará verdadeiros líderes, fazendo a diferença não só para as organizações que nos abriga, como para as pessoas que o destino colocou em nosso caminho na vida e para a evolução futura da humanidade.


http://www.adigo.com.br/br/artigos.asp?mode=show&ID=88

A espiritualidade é o grande capital desta era

A espiritualidade é o grande capital desta era

Em entrevista exclusiva, Jair Moggi explica como a mudança do paradigma de pensamento linear para o “pensar do coração” nas organizações pode gerar saltos quânticos, qualitativos, nos resultados dos negócios.

Artigo em pdf. Clique http://www.4shared.com/document/S6_E43f3/Moggi-EntrevistaHSM.html  para acessar.

http://www.adigo.com.br/br/artigos.asp?mode=show&ID=113

Ética - Base de confiança

Ética - Base de confiança*


Entrevista de Jair Moggi a Rachel Regis - Revista Inovação

Países, empresas e profissionais descobrem as desvantagens do jeitinho e da maracutaia. E se esforçam para criar um futuro diferente.

Você deve ter notado: na última década, as empresas e organizações bateram recordes na emissão de códigos de ética. Não estavam sozinhas na sua preocupação com valores. Nunca antes o País tinha decretado um impeachment de um presidente da República, nunca o Senado tinha cassado um senador, nunca o Legislativo tinha feito tantas CPIs, nunca tantos colarinhos brancos foram parar detrás das grades. Nem é preciso dizer que, antes disso, também havia comportamentos antiéticos, maracutaias, roubalheiras, corrupção e mentiras(*).

Se é possível que o comportamento ético de algumas pessoas e em alguns meios tenha piorado, é certo que, para a maioria da sociedade, o fator ético passou a ser decisivo nas decisões de voto, de negócios, parcerias e alianças. "Na verdade, sempre houve uma preocupação com a ética", avalia o consultor André Castellini, da Bain Consultoria. "A mudança é que, agora, ela é explicitada, consciente e motivo para discussão em praticamente todos os meios."

Isso não acontece por acaso. Contrariar a ética tem custado muito caro para todos. No âmbito das nações, por exemplo, a corrupção corrói a riqueza dos países e reduz o crescimento econômico, desencorajando a aplicação de capital e resultando numa perda para toda a sociedade. A conclusão é de um estudo dos professores Marcos da Silva, Fernando Garcia e Andréa Bandeira, da ONG Transparência, Consciência e Cidadania, seção brasileira da Transparency International. Outro estudo, este da Universidade de Harvard, constatou que altos níveis de corrupção constituem obstáculos a investimentos estrangeiros. A diferença entre a taxa cambial para empresas que fazem negócios no exterior pode variar em até 20 pontos percentuais entre países de baixa corrupção, como Cingapura, e um mais corrupto, como México (veja o ranking no quadro).

No âmbito empresarial, "só a adoção dos valores éticos como inspiradores dos indivíduos e orientadores das ações da organização é capaz de gerar a confiança de parceiros, funcionários e consumidores", disse Jair Moggi, diretor da Adigo Consultoria, numa palestra do seminário Organizações Orientadas por Valores, realizado na Câmara Americana de Comércio, em São Paulo, em maio e junho passados. "E, sem confiança, está cada vez mais difícil realizar negócios." Com ele concorda Maria Cecília Arruda, professora da FGV e coordenadora da edição brasileira do livro "Ética Empresarial", de Ferrel e Fraedrich, uma das mais melhores obras sobre o assunto: "Há sinais significativos de que a ética declarada e efetivamente praticada é um fator de competitividade empresarial."

Ela se refere a vários estudos apresentados no livro apontando para as vantagens econômicas das empresas que adotam a ética como norma de conduta. "Hoje em dia, cada vez há mais consciência de que a adoção de princípios éticos impacta fortemente o desempenho de uma organização", diz. E explica: "O ambiente ético influi na confiança de clientes e funcionários, no compromisso dos empregados para com a organização, na satisfação do cliente e na qualidade da empresa como um todo, ou seja, na facilidade de conseguir acionistas e de fazer alianças com outras empresas com as mesmas preocupações."

Segundo Moggi, isso acontece porque "a confiança é a virtude que cria a predisposição para ter fé na conduta dos outros. Os outros sabem o que podem esperar porque os valores são declarados e, também, consistentemente praticados."

Stephen Covey, autor do best-seller "Sete Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes", acha que os efeitos que a ética exerce sobre os resultados dos negócios podem ser medidos. Ele chega a aconselhar as empresas a avaliar o impacto da confiança sobre os balanços, além do impacto sobre os lucros, sobre o rendimento por ação e sobre outros fatores de sucesso. Diz que, quando é baixa a confiança, a empresa entra em decadência, os relacionamentos se deterioram, disso resultando manobras políticas, lutas internas e ineficiência geral; fraqueja a lealdade do empregado à empresa, declina a qualidade dos produtos, os consumidores vão embora e a rotatividade do pessoal aumenta muito. Segundo Covey, se a confiança for pequena ou não existir, tampouco haverá alicerces para sucesso permanente.

Embora se possa dizer que existem alguns valores éticos universais - tanto que nos Estados Unidos e no Canadá há comissões de normas de conduta que orientam as empresas na confecção dos seus códigos de ética, responsabilizando-as por eventual má conduta dos seus empregados, e que as organizações regionais, como Comunidade Européia e Nafta, também estão definindo padrões éticos obrigatórios para todos os participantes -, a verdade é que os princípios variam muito.

Segundo Moggi, “os valores são verdadeiros quando eles expressam a identidade de um grupo”. Ele dá o exemplo de algumas empresas com as quais já trabalhou na confecção de códigos de ética: “Na metalúrgica Mangels, o que sempre valeu é a expressão 'seja duro, mas seja justo', quer dizer, uma mescla de disciplina com justiça. Já na Método Engenharia, o que é mais valorizado é o respeito à vida, ao ser humano e ao meio ambiente. Na seguradora Porto Seguro, o mais importante é o sentido de conjunto, a noção de que cada um deve lutar por todos e que todos devem apoiar cada indivíduo. Nesses e em outros casos, os valores são como uma bússola que mantém o grupo e os indivíduos num rumo comum, mesmo havendo calmarias ou tempestades.” Para Castellini, os indicadores éticos "tornam-se mais necessários à medida que os funcionários têm mais autonomia e alguns chegam a trabalhar longe das sedes". Para se ter uma idéia de como é difícil orientar e controlar grandes corporações, basta saber que as 500 maiores empresas industriais do mundo controlam 25% da produção econômica do planeta, embora empreguem apenas 0,05% da população mundial. Mais de 20 companhias têm um valor econômico maior do que o PNB da Hungria, da Irlanda ou da Venezuela. "Se empresa e funcionários não compartilharem dos mesmos princípios, a tendência é a desagregação", diz Castellini.

Outro ponto de vista é o defendido por Ferrel e Fraedrich, no livro "Ética Empresarial". Eles entendem que uma organização pode definir os princípios, valores e padrões que vão orientar o comportamento, mas que quem determina se um comportamento específico é certo ou errado, ético ou não, aceitável ou não, são os chamados stakeholders, ou seja, investidores, clientes, grupos de interesse, empregados, o sistema jurídico vigente e a comunidade. Como a mulher de César, não basta às empresas ser éticas, precisam também parecer éticas.

Isso dá a impressão de que o comportamento das organizações está sendo o tempo todo vigiado, analisado e avaliado, certo? Certíssimo. Segundo a pesquisa "Does it pay to be ethical?", feita em 1997 nos Estados Unidos pela Cone/Roper, empresa norte-americana de pesquisa de marketing, três em quatro consumidores recusam-se a comprar produtos de certas empresas, e a conduta dessas é um motivo fundamental para esse boicote. Quem tem uma imagem ética sai lucrando. No livro “Começando com o Pé Direito”, Jô-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella revelam uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o que passa melhor impressão ao consumidor. Itens como ter boa aparência, ter classe ou ser bem sucedido têm um impacto desprezível, na faixa de 10%. Já ser honesto, sincero e confiável ficaram com 75% em média.

Há outras formas de ganhar dinheiro com um comportamento ético. O comprometimento dos funcionários com os objetivos da empresa e o baixo turn-over, motivados pela identificação dos empregados com os valores da organização, tendem a se refletir diretamente no caixa. Pelo menos essa é a crença na Cisco System, o maior fornecedor mundial de servidores para a internet. A empresa orgulha-se de ter um dos menores índices de rotatividade e de que cada empregado contribui para um aumento de receita de 650 mil dólares anuais, contra uma média dos seus concorrentes de 300 mil dólares. A empresa credita esses resultados ao fato de todos os seus empregados participarem do planejamento e acreditarem em comunicações abertas, com decisões tomadas no nível mais baixo. A norma, na firma, é trabalhar em equipe, fazer com que os funcionários sintam-se seguros e sejam reconhecidos nos seus esforços para uma melhor interação com clientes.

Maria Cecília Arruda, que também é presidente da Alene (Associação Latino-americana de Ética, Negócios e Economia) e vice-presidente da ISBEE (International Society of Business, Economics and Ethics), acredita que "a confiança é a premissa sobre a qual se fazem os negócios no mundo globalizado. Muitas empresas que operam globalmente negam-se a manter parcerias com outras que não sigam alguns padrões mínimos de comportamento ético. O mesmo vale para as pessoas - se o comportamento for duvidoso, fica difícil encontrar colocação."

Moral da história: cada vez mais países, organizações e indivíduos precisam ser orientados por valores. Até mesmo para sobreviver.

Algumas confusões

Quando se discute ética, vários termos se confundem. Conheça alguns deles.

Ética e moral: A ética é formada pelos valores fundamentais de uma pessoa, de um grupo ou de uma nação. É perene. A moral tem a ver com os costumes praticados num grupo e num período determinados. É mutável.

Ética nos negócios e responsabilidade social das empresas: Ética nos negócios compreende princípios e padrões que orientam o comportamento empresarial. Responsabilidade social é a obrigação que a empresa assume com a sociedade. Há as responsabilidades econômicas, de produzir a um preço que possa garantir a continuação das atividades; as responsabilidades legais, como observação de leis e normas; e responsabilidades éticas, ou seja, ter comportamentos que a sociedade espera das empresas, mas não estão na lei; e responsabilidades filantrópicas, formadas por atividades voluntárias.

Transparência e comunicação eficiente: Uma boa comunicação é aquela que leva uma informação a um público determinado na hora adequada. Transparência é a capacidade de demonstrar o que se é, de revelar-se, em tudo o que se faz, e de manter as portas abertas para quem quiser conhecer dados, normas de procedimentos etc.

Antiético e ilegal: Para muitas pessoas, ser antiético é o mesmo que ser criminoso e ter um comportamento ético é semelhante a agir segundo as normas legais. Mas isso não basta. A ética compreende justamente o que não é codificado em leis. Não há lei que proíba ouvir uma conversa na mesa ao lado na empresa ou no restaurante – mas é ético?

Justiça de processo e justiça de resultado: A justiça de processo tem a ver com os critérios utilizados (por exemplo, para uma promoção ou para uma condenação). Baseado num processo justo, é possível chegar a um resultado injusto, por exemplo, multando o carro que passou o sinal vermelho quando estava levando alguém para o hospital - trata-se de injustiça de resultado. Normalmente, as pessoas têm alguma tolerância com a injustiça de resultados quando consideram que o processo foi justo. Mas não toleram um processo injusto. O povo define a justiça de processo com a máxima: "Não é caro o que é combinado."

Honestidade, equidade e isonomia: Honestidade implica veracidade, integridade e confiabilidade. Equidade é a capacidade de ser justo, imparcial, equânime. Isonomia é tratar situações semelhantes com os mesmos critérios – por exemplo, salariais.

Agente e mandante: Tanto quem ordena uma ação ilegal ou antiética (mandante) como quem executa a ação (agente) são responsáveis por ela. A alegação de estar cumprindo ordens é inaceitável como atenuante legal e indefensável do ponto de vista ético.

Revolução cultural
O psicólogo Salomão Rabinovich, presidente da Comissão de Ética, Cidadania e Direitos Humanos da Academia Paulista de Psicologia, acha que a única saída para a questão ética é uma “revolução cultural, para evitar que o Brasil se torne um imenso 'topa-tudo por dinheiro'.” Ele escreveu o livro “Vamos Recomeçar o Brasil”, no qual analisa o comportamento eleitoral dos brasileiros, e criou uma organização não governamental com o mesmo nome.

Sua idéia é promover uma retomada de valores éticos, morais e religiosos, controlando de perto o comportamento das autoridades. Ele não acha que o fenômeno da falta de valores seja recente: “Acontece que, com o passar dos anos, os cidadãos começaram a resolver os conflitos –pessoais, trabalhistas, familiares, comerciais ou de trânsito – diretamente, porque não confiam mais na justiça e nas autoridades. Isso beneficia o clientelismo, os quebra-galhos, o jeitinho e, também, a violência. A única saída de romper esse círculo vicioso é acabar com a impunidade e retomar os valores éticos.” Com essa proposta, o psicólogo tem percorrido escolas, empresas e entidades, com palestras e participando de debates.

Esfarrapadas
Segundo pesquisa do Ethics Resource Center, de 1997, estas são as principais desculpas apresentadas por quem não denuncia a má conduta observada nas empresas:

Medo de não ser considerado um bom componente da equipe.
Não acreditar que medidas corretivas sejam aplicadas.
Receio de vingança ou represália do chefe ou da alta administração.
Ninguém liga para a ética empresarial. Por que eu faria isso?
Não acreditar que a empresa mantenha a denúncia em sigilo.
Roubalheira tem ranking
A Transparency International faz um ranking da corrupção em 86 países, baseado numa pesquisa com empresários nacionais e internacionais. Os índices vão de zero (mais corrupção) a dez (menos corrupção) e são utilizados pelas empresas de consultoria que analisam os riscos políticos e econômicos para investidores internacionais.

Segundo a mais recente pesquisa, feita em 1998, os países menos corruptos do mundo são a Dinamarca, Finlândia, Suécia, Nova Zelândia, Islândia, Canadá, Cingapura, Holanda, Noruega e Suíça. Os mais corruptos são Rússia, Equador, Venezuela, Colômbia, Indonésia, Nigéria, Tanzânia, Honduras, Paraguai, Camarões e Bangladesh, que ocupa o pior lugar da lista. O Brasil, em 46o lugar, tem 4,0 de pontuação.

(*) A lista dos comportamentos antiéticos é imensa. Confira alguns: enganação, mentira, propina, falsidade, suborno, fraude, coação, deslealdade, improbidade, falta de decoro, desonestidade, inverdade, insensibilidade social, comportamento suspeito, adulteração, invasão de privacidade, poluição ambiental, abuso, indecência, desvio de verba, lavagem de dinheiro, prevaricação, tráfico de influência, sonegação, caixa 2, irresponsabilidade, comportamento indecoroso, falta de educação, engodo, embromação, falsificação, desrespeito, irresponsabilidade, discriminação, grosseria, omissão, imoralidade, exploração, trapaça, armadilha, indução ao erro, falsa promessa... e por aí vai. Quer completar a lista?

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Visão espiritual no trabalho: autodesenvolvimento em favor da produtividade

Visão espiritual no trabalho: autodesenvolvimento em favor da produtividade


Artigo de Jair Moggi publicação interna da Caramuru - Alimentos S.A.

Um código de ética próprio, em que visão, missão e valores são respeitados por todos os colaboradores é a referência que norteia o comportamento individual e coletivo dos 2.300 funcionários que trabalham na Caramuru Alimentos- empresa processadora de grãos, de capital nacional, localizada em Itumbiara, interior de Goiás.

Com 40 anos de vida,  a empresa combina espírito empreendedor, investimentos em tecnologia e uma política de gestão de pessoas, focada na valorização de seus colaboradores. “Quem faz os resultados são as pessoas, por isso procuramos valorizar sempre nosso pessoal, desenvolvendo internamente conceitos de ética, coerência, transparência, simplicidade e respeito”, diz a diretora de Recursos Humanos e Administrativa Margareti Scarpelini.

Para elaborar o código de ética da Caramuru, a empresa investiu no resgate de sua própria história, buscando em suas origens modelos de conduta que pudessem ser implementados no ambiente corporativo, como os princípios de liderança, integridade, comprometimento, honestidade entre outros. “Fizemos entrevistas com o corpo diretivo e lideranças para levantar esses valores e construir o código de ética da empresa, que é seguido por todos os colaboradores”, explica a diretora.

Outro foco de ação nesse terreno é o constante esforço de aproximação das lideranças às respectivas equipes de trabalho, por meio de treinamentos de pessoal. Na prática, a empresa promove vivências periódicas, de onde se tiram conclusões do que é preciso melhorar; onde foram identificados os pontos de desgastes e os ajustes que devam ser processados; além da realização de reuniões mensais para repassar aos colaboradores os resultados dos negócios da empresa.

“A empresa tem por princípio valorizar seus profissionais, dando prioridade aos colaboradores no preenchimento de novas vagas e promoções”, comenta a diretora de RH, ela própria um exemplo desta política: começou na empresa há 14 anos como encarregada de Recrutamento e Seleção.

Conceito
Modelos como esse implantado na Caramuru Alimentos fazem parte de uma prática empresarial que se vem fortalecendo e, não raramente, recebe a denominação conhecida como visão espiritual no trabalho ou espiritualidade corporativa, que em sua essência não tem nada que ver com religião e misticismo.

“Essa é uma visão antroposófica, que compreende o ser humano sob os pontos-de-vista profissional, físico, emocional e espiritual”, esclarece o consultor Jair Moggi, que é também co-autor do livro “Como Integrar Liderança e Espiritualidade- A Visão Espiritual das Pessoas e das Organizações”, escrito em parceria com Daniel Burtkhard (Negócio Editora).

A partir dos anos 90, segundo Moggi, a humanidade começou a transitar pela era da consciência, com alto potencial de espiritualidade e forte preocupação com a ética. As empresas, ao acompanhar essa transformação, estão buscando modelos de governança corporativa também baseados na ética e nos valores. “Ao se trabalhar conceitos espirituais no contexto das organizações, estamos falando em elevar os níveis de consciência das pessoas e dos grupos, sem perder de vista os resultados materiais”, explica Moggi.

Na sua opinião, o ser humano que desenvolve a bondade, o amor, o livre arbítrio, a verdade, a humildade, o respeito ao outro, à vida e à diversidade é uma pessoa espiritualizada e tem  muito a contribuir no ambiente empresarial.

“As empresas que procuram desenvolver espiritualmente seus funcionários tem a produtividade aumentada porque eles ficam mais motivados, mais criativos e menos estressados”, argumenta o consultor. “O importante não é apenas crescer, mas crescer e desenvolver”.

Investir em programas e ações de responsabilidade social pode ser um sinal de que as empresas estão caminhando no sentido da espiritualidade? “Já é uma conduta”, responde Moggi, “mas só terá sentido se essa prática de cidadania organizacional estiver presente do lado de dentro das empresas também.”

Sonho, causa, valores
A Método Engenharia, de São Paulo, também adota a filosofia antroposófica para compactuar valores e princípios éticos. Recentemente a empresa substituiu os termos “visão” e “missão” por “sonho” e “causa” respectivamente, por considerar essa nova linguagem mais humana.

“O que vincula as pessoas à organização é a possibilidade de alinhar seus sonhos individuais aos da empresa”, diz o gerente de Desenvolvimento Organizacional da Método Engenharia, Roberto Mingroni.

E para descobrir a sua identidade, a Método- como a Caramuru- também foi atrás de sua biografia, da sua essência, de seu sonho. “A partir daí os valores foram revistos e revigorados, sob a égide da espiritualidade e da humanização”, afirma Mingroni.

Posteriormente, todas as informações foram passadas aos 250 funcionários da empresa por meio de workshops e dinâmicas, onde os participantes tiveram a oportunidade de se manifestar, expondo suas aspirações, idéias e sonhos.

Na opinião de Mingroni, essa “orquestração harmoniosa” é que faz a grande diferença, já que salário e benefícios estão dentro das referências do mercado.

“Percebemos um aumento no espírito de equipe, no volume de produção, no clima de motivação e na conquista de resultados”. Prova disso é que em 2001, a Método foi premiada pela revista “O Empreiteiro” como a empresa que conseguiu o maior número de contratos da construção civil no ano.

Como desenvolver a visão espiritual
Jair Moggi seleciona algumas qualidades que, se forem bem trabalhadas podem trazer importantes benefícios individuais e, conseqüentemente para o ambiente das organizações: controle do pensamento; domínio da vontade; serenidade; positividade; receptividade imparcial e equilíbrio.

Para Moggi, os caminhos para o desenvolvimento de um líder espiritualizado devem passar pelo fortalecimento do pensar, para compreender os fenômenos do mundo; do sentir, para julgar com certeza o que é justo; e do querer para interferir com coragem na vida.

E, se houver dúvida quanto à questão ética na hora de tomar uma decisão, a orientação do consultor é simples. Basta perguntar: “Esta decisão ou ação contribui para a evolução do ser humano e da humanidade?” A indagação já é um bom começo para quem está buscando a inteligência espiritual.

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E a família, vai bem?

E a família, vai bem?


Por Jair Moggi


O que pensar diante de tantos sinais contraditórios?

de cada 100 empresas familiares menos de 10 alcançam a quarta geração (dado internacional, corroborado pela experiência brasileira).
parte considerável das empresas que abriram o capital na Bovespa nos últimos anos é controlada por famílias. As ações têm bom desempenho no mercado e os negócios dessas famílias também vão bem. Algumas repetiram a dose, atraindo o interesse dos investidores.
diversos estudos internacionais apontam a empresa familiar como capaz de obter melhor desempenho ao longo do tempo.
são de controle familiar diversos dos grandes bancos que resistiram ao choque da crise financeira de 2008/2009.
A verdade é que, a despeito das elevadas taxas de mortalidade, as empresas familiares continuam oferecendo boas surpresas ao ambiente corporativo. Os negócios de pai para filho chegam ao terceiro milênio com status de modernidade. Não estará muito longe da verdade quem descrever a empresa familiar de décadas atrás como uma contradição em si mesma. “Ou é empresa, com predominância do que é racional, cientifico e mensurável, ou é família, na qual governa o emocional”, diria um especialista da época. E, sem pestanejar: “Para a empresa vencer, é preciso afastar dela toda a família e contratar profissionais de fora para gerir os negócios”.

Mas, ao contrário do que previam esses mestres de um passado recente, o que se registra neste começo de novo século é um verdadeiro renascimento da empresa familiar. Isso se deve, em grande parte, ao fato de ter sido superada a adoração pelo gigantismo das corporações, uma vez que as pequenas organizações, entre elas as familiares, demonstraram, na prática da concorrência, ser mais ágeis e eficazes. Mas também, em parte, pela constatação, por especialistas, da existência de muitas coincidências entre as necessidades da economia moderna e as características da empresa familiar.

Um dos melhores exemplos dessas coincidências é que as empresas familiares costumam ser orientadas por filosofia e por valores bem definidos, os de seu fundador, assim como as melhores organizações dos novos tempos. Portanto, o ato mecânico de afastar a família da gestão dos negócios pode ser uma forma de diminuir essa força vital que mantém a organização viva.

Quando este autor, logo após uma carreira executiva em organizações familiares, dava seus primeiros passos como consultor, acompanhava com vivo interesse as impressões de Flávio de Toledo, um expert muito reverenciado, que dizia: “Os valores são a maneira de integrar a filosofia e a estratégia da empresa familiar”. Ele apontava outro traço de modernidade na forma mais tradicional de organização comercial: “As pesquisas indicam que a maioria das empresas familiares tem orgulho da qualidade do produto e cuidado com a reputação do nome, de forma que costumam ser mais voltadas para o bom atendimento do cliente”.

Toledo participava de uma corrente de pensamento que identificava que a empresa familiar utiliza com mais freqüência a intuição e a visão – ambos atributos herdados dos fundadores. E dizia mais: geralmente inclui a lealdade entre seus valores fundamentais e enfrenta com mais facilidade as turbulências (já que a própria família tem o dom de sobreviver às suas turbulências naturais). Toledo dizia também que a empresa familiar é mais vocacionada para ações simples e espontâneas, costuma contar com a participação da mulher - o que a torna mais humana e intuitiva- e tende a ser mais adaptável às mudanças de cenário, na busca da perpetuação do nome da família. Muitas dessas características estão presentes em empresas familiares de sucesso. Por falar em sucesso, alias, é preciso registrar que, em diversas economias européias, as ainda numerosas empresas familiares, atuando sinergicamente e usando as técnicas de gestão avançada, acabaram constituindo um modelo de modernização. A esta altura, ao lembrar de Itaú/ Unibanco, Votorantim e Pão de Açúcar, é possível incluir muitas empresas brasileiras nesse balaio.

Mas, se a empresa familiar tem tantos pontos favoráveis, por que criou má fama, principalmente nos anos 1970/1980? E por que tantas fracassaram? (Nunca é demais lembrar o exemplo do grupo industrial Matarazzo, um gigante de algumas décadas atrás que virou pó e acabou se transformando num fantasma que assombra todos os outros grupos familiares. O Matarazzo assumiu até décadas atrás peso equivalente ao desfrutado hoje pelo grupo Votorantim). E há vários outros, como Pignatari, os Bonfiglioli, os...

O insucesso pode acontecer em qualquer organização, familiar ou não, que se negue a mudar e acompanhar as novas tendências de negócio. Um dos principais fatores que costumam impedir a modernização das empresas familiares é uma espécie de promiscuidade entre negócios e relações pessoais. É comum, por exemplo, manter parentes, amigos ou pessoas de confiança em cargos inadequados somente por conveniência dos ramos familiares rivais entre si. Ciúmes, ódio, inveja e outros sentimentos destruidores tornam-se mais poderosos do que o bom senso administrativo. E, na ausência de limites separando os domínios da família dos da empresa, muitos parentes que nem sequer trabalham na organização- filhos do dono, genros, noras- acabam influindo indevidamente na condução dos negócios, às vezes com direito, até de dar passadinhas periódicas pelo caixa.

Outro fator que costuma criar problemas é excessivo apego à empresa acalentado por seus fundadores. O apego em si é uma grande qualidade das organizações familiares. Mas tudo depende do tipo de amor ao negócio. Quando se trata de amor à marca e ao tipo de serviço que a empresa presta, ele é benéfico, pois permite a adaptação das estruturas e dos processos às exigências dos novos tempos. Acontece que às vezes o fundador prefere preservar aquela primeira máquina, comprada com tanto sacrifício, em vez de substituí-la por equipamentos mais modernos; ou prefere manter sistemas de trabalho ultrapassados apenas por que foi ele quem os criou – esse é o amor paralisante.

Uma metáfora ilustra o provável destino da empresa que responde às características acima mencionadas: ela corre o risco de acabar enterrada na pirâmide. A metáfora faz alusão à tradição dos faraós do Egito Antigo, que construíram pirâmides para, ao morrer, ser enterrados juntamente com todos os seus bens. As organizações estruturadas na forma rígida da pirâmide, com o poder excessivamente centralizado e exercido de forma autoritária para manter pessoas, estruturas e processos que não seriam defensáveis pela razão, tendem a se transformar em mausoléus quando o fundador desaparece.

Mas existe, sim, um caminho das pedras para as empresas familiares que desejam fugir desse triste destino. As perspectivas tornam-se promissoras quando se entende que cada pessoa jurídica é uma entidade do mundo das ideias, assim como cada pessoa física é uma entidade humana -- e que, portanto, as empresas podem e devem sobreviver aos seus fundadores, mantendo, cada uma, a sua própria identidade.

Um dos momentos mais delicados na empresa familiar é a passagem de uma geração para outra. É muito difícil tratar da sucessão, pois ela significa a morte – real ou simbólica -- do fundador ou do dirigente mais velho. E, também, por que é sempre o sucedido que se encarrega de preparar a continuidade, tendendo naturalmente a conservar a estrutura e os métodos que criou. A situação de risco tornou-se generalizada nas ultimadas décadas, uma vez que milhares de empresas familiares fundadas no surto industrializante das décadas de 1950/60/70 (quando, a partir do governo JK, instalou-se no país o setor de montagem de automóveis) já atingiram ou estão atingindo agora o delicado momento de sucessão.

É importante recordar sempre que a empresa familiar está ancorada em princípios espirituais, uma vez que entendemos que uma empresa familiar é, na sua essência, a manifestação de uma ideia, de uma iniciativa ou de uma vontade individual ou coletiva que se concretiza no mundo material para atender às necessidades dos seus fundadores/sócios e do mercado. Nessa linha, as empresas familiares que já transcenderam a geração dos pioneiros-fundadores são herdeiras de sonhos, tradições, marcas, símbolos, imagem e valores legados pelas gerações anteriores.  Essa herança precisa ser transcendida no tempo, em honra daqueles que se sacrificaram e que deram sua contribuição para a  construção do patrimônio tangível e intangível da geração atual.

Nas empresas em que os pioneiros-fundadores ainda estão presentes na gestão, é fundamental  que eles se preocupem  de forma consciente --  no momento e na  forma adequada ao  estágio individual de  vida de cada um  -- com a passagem planejada do bastão para as gerações futuras,  antes que,  por qualquer razão, eles não estejam mais presentes no dia-a-dia da empresa. Desta forma, eles podem criar condições para a perenidade dos negócios.

Cabe às gerações atuais, depositárias dos impulsos das correntes genéticas, culturais e espirituais dos fundadores da empresa, em conjunto com eles ou com os seus remanescentes, potencializar os aspectos positivos da empresa atual, neutralizar os negativos e incorporar novos impulsos, sem perder a conexão com o “DNA ou com o espírito original  da  empresa “, impulsionando-a em direção ao futuro.

A nossa experiência mostra que a perenização da empresa irá sempre depender da sabedoria e da coragem dos seus fundadores e gestores em perceber e encaminhar as demandas típicas de cada estágio de desenvolvimento, no momento adequado. Em geral, estes estágios são caracterizados por tensões, crises e conflitos de diversas naturezas, no âmbito da família  e/ou no âmbito da gestão da empresa. Trata-se de um importante desafio. Mas quem o encara de frente sempre se sai bem.

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