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sábado, 10 de dezembro de 2011

O espírito de equipe

O espírito de equipe
Por Luís Sérgio Lico para o RH.com.br 

Algumas situações são sintomáticas nas organizações. Por exemplo, quando se quer melhorar as coisas e não se vê saída, sempre ouvimos a seguinte expressão: "Precisamos melhorar o espírito de equipe".
Fico pensando que tipo de fantasma será esse que todos perseguem e que, uma vez alcançado resolveria os problemas. Deste ponto de vista, parece que as pessoas são o grande fator de desajuste nas empresas e, bastaria apelar para a consciência de uma condição intangível, para evitar a fragmentação. Afinal, tudo aquilo que não pode ser mensurado em milissegundos e replicado ad aeternum, está na esfera do humano.
Mas, nos dashboards corporativos, não devemos esquecer que pessoas são apenas um terço da pizza. Também existem processos e ferramentas do modo produtivo, que se não estiverem adequadas, produzem mais dor que felicidade. Mais que isto: existem intrincadas redes relacionais de interação entre estas três dimensões e que compõe um cenário dinâmico, sem falar na questão do meio envolvente externo.
Logo, quando se fala em teambuilding, deve-se ter em mente não apenas indivíduos e seus supostos gaps, mas sua maneira de atuar no ecossistema corporativo, incluindo aí a instância crítica do comportamento frente a estas divisões.
Claro que uma organização significa a união de esforços, visando um fim produtivo e útil (embora poucas realmente cumprir este papel), que desenvolve suas atividades dentro de padrões estabelecidos, rumo a objetivos bem determinados. Mas, a pressão rotineira por metas e resultados, frente à maneira pela qual são feitas as coisas também determina os resultados alcançados. Isto significa que as ações, em qualquer profissão, precisam de um sentido claro, que oriente todo o trajeto de esforços diários.
Fora isto, poucos parecem levar em conta que existe toda uma trajetória de vida, que inclui desde a formação educacional e cultural deficitária do brasileiro, até as crenças, os valores e as necessidades do capital humano e que também deve ser considerada na equação. Mas, como a miopia organizacional é sempre o maior fator de atraso, a tendência de pessoas que lideram é colocar a culpa nas pessoas que devem ser lideradas. É aí que morre a responsabilidade social empresarial, não importa quantas cestas básicas ou ingressos o patrão distribua, pois o abatimento fiscal não proporciona aderência.
Contudo, se o caso é "mexer com o pessoal", precisamos entender que, frente a este cenário, fazer de um amontoado de colaboradores uma equipe de trabalho é realmente um grande desafio. Ali estão envolvidas algumas particularidades como comunicação aberta, disposição permanente para alinhar processos, melhorar ferramentas, instituir práticas democráticas, melhorar a delegação e permitir a flexibilidade no exercício das funções.
Não basta apenas chamar a atenção ou colocar cartazes pedindo a colaboração. Devemos estar atentos a tudo o que facilite o exercício das capacidades individuais e uma atuação criativa e saudável de cada um. É preciso criar espaços para a expressão humana e adequar as disciplinas. Fora isso, devemos lembrar que sempre cobramos posturas pró-ativas, mas esquecemos de três aspectos cruciais e uma quarta dimensão de instância ética:
1 - Desde o maternal até a faculdade, ninguém foi ensinado como aprender a aprender.
2 - Nunca nos avaliaram de forma coerente, de forma a possibilitar o melhor desenvolvimento de nossas competências e aptidões. Nem houve o menor suporte a estas possibilidades ou sequer pensaram em formar indivíduos conscientes.
3 - Neste mesmo trajeto, apenas em busca de reposição de peças, a educação brasileira sempre formou pessoas para serem funcionários, ou seja: focados estritamente na "atividade". Nunca formou empreendedores e nos ensinou a lidar com padrões de decisão, análise e risco.
4 - Corporações, em geral, assim como os consumidores não se interessam pelo bem estar planetário ou individual. Os primeiros desejam, mormente, produzir, reduzir custos e aumentar a lucratividade. Os segundos apenas querem acesso aos bens produzidos, utilizá-los e depois, descartá-los, para adquirir novos. É uma equação social sinistra.
Mas, voltando ao ponto das equipes, temos aqui exato momento onde o caldo entorna. Dificilmente o individualismo reinante consegue transpor barreiras. O espírito de equipe é essencial para o alcance do sucesso, mas historicamente esta condição sempre esteve ligada a um objetivo superior. Uma equipe participativa, homogênea, coesa, vale mais do que um batalhão de pessoas com posicionamentos isolados. Isso vale para qualquer área da nossa vida, especialmente a profissional. Porém, o que vemos é o egoísmo imperar!
Mas, se apenas desejarmos, de um lado, obrigar as pessoas a entregar toda sua capacidade produtiva, desprezando as pedras angulares da humanidade e dignidade, teremos na outra face da moeda profissionais que apenas entendem a organização como fonte de renda e espaço ocupacional compulsório. Assim, a conta nunca fecha! Existe uma profundidade intensiva de redes relacionais que deveriam estar interconectadas, mas na verdade estão em curto circuito.
Vivendo em ambientes confinados, lutando contra a assimilação corporativa do tempo individual, e desejando adquirir cada vez maiores quantidades de produtos, acabamos acumulando enormes índices de culpabilidade. Tanto que um dos mais interessantes hoaxes da Web nos dá conta que um novo produto chamado "Sacos de Culpa Descartáveis" apareceu no mercado Norte Americano, causando estrondoso sucesso.
Consistia, segundo a lenda, de um conjunto de dez simples sacos marrons, em que foram impressas as seguintes instruções: "Coloque o saco com firmeza sobre a boca, respirar fundo e explodir toda a sua culpa para fora, em seguida, descartar o saco de imediato". A maravilha disso é que a Associated Press relatou que 2.500 kits foram rapidamente vendidos a $2.50 por kit. Pena que não consegui comprar um!
Mas, será que podemos dispor de nossa culpa tão facilmente? Mas, no que ela consiste, senão na intuição clara de vivermos num mundo incompreensível, onde tememos confiar uns nos outros e necessitamos levar vantagem em tudo? O desespero oculto em nosso modo de vida leva à busca de soluções fáceis, indolores, para todos os descasos.
Só que, não há nada nesta terra bastante poderoso em si mesmo para eliminar nossa culpa, que não passe - obrigatoriamente - pela construção de uma coletividade responsável, pela conduta reta e por uma sadia relação com este novo modo de vida, que é o ambiente corporativo, onde passamos a maior parte de nossa existência.
Assim, ao se falar em espírito de equipe, esqueçam as manjadas frases sem efeito dos melodramáticos e ultrapassados motivadores profissionais. Também abandonem o chicote, pois ninguém mais suporta assédio e todos os profissionais repudiam a incompetência, seja de líderes ou subordinados. Privilegiem apenas o caráter! Se quiserem, leiam Emerson. Vai ajudá-los a compreender o que digo.
Pessoas hoje precisam entender o que fazem e porque fazem, para poderem interagir de forma produtiva. Assim, se as pessoas não estão colaborando como deviam, além de olhar para o que dissemos, procurem as soluções na melhoria dos processos e evoluam as ferramentas, de maneira a permitir uma interface amigável. Devemos ter em mente que estamos construindo uma nova matriz de sociedade e que a coerência e o desenvolvimento de boas práticas devem caminhar lado a lado com a eficiência.
Aliás, um mundo totalmente eficiente, sem margem para erros e experimentações, seria apenas um mundo cético. Absolutamente fenomênico, vazio e asséptico. Além disso, traria dentro de sua cientificidade, o germe de sua destruição. Pois, um mundo cético, como diz o professor Marcelo Moreira seria um mundo que aboliu toda a sua diversidade e padronizou todas as suas possibilidades, até o esgotamento de sua alma.
Um mundo que consistiria apenas de eucaliptos e pardais.

Palavras-chave: | equipe | produtividade |

Novas regras para a produtividade

Novas regras para a produtividade
Por Luís Sérgio Lico para o RH.com.br 

Quer fazer mais no trabalho e impressionar seus chefes? Deixe de ser mole! A maioria dos consultores e de "especialistas" em transformar sua vida em um verdadeiro inferno, irá dizer: Você precisa trabalhar duro, trabalhar de forma consistente e eficaz por mais e mais horas e parar definitivamente de enrolar. Não é mesmo uma beleza?
Só que isso não costuma funcionar nem em uma fábrica - aquele meio ambiente mecanicamente hostil, regido pelos processos implacáveis e ganhos de escala -, quanto mais se você precisa ser flexível, criativo e colaborativo, desenvolvendo algum tipo de trabalho intelectual em um escritório. O que isso quer dizer? Simples: Faça menos e faça melhor! Isto deveria ser o óbvio - ao menos para aqueles que conhecem a distinção romana entre ócio e negócio.
Há anos tenho tentado dizer estas coisas aos profissionais e sempre esbarro na mesmice. Todos acham que a melhor forma de motivar as pessoas e cuidar da produtividade é manter o chicote à vista e desligar a vida pessoal. Por estas e outras é que costumo dizer que vivemos um neotaylorismo, pois trabalhamos de forma cada vez mais compartimentada e não comunicativa, apesar de todo o lindo discurso sobre a necessidade de se abrir a organização ao colaborador e buscar eficiência através da qualidade. O que a maioria desconhece é que a produtividade varia muito de dia para dia. Isso é normal.
Em um ambiente industrial, você sabe a previsão das operações e as quantidades exatas que serão montadas ou manufaturadas, inclusas as horas/homem de trabalho. Para os demais trabalhadores não é possível tal assertividade, pois você pode não saber de antemão se amanhã será um dia em que você terá uma ideia insightbrilhante, que poupará semanas de trabalho para sua equipe e trará mais dividendos à companhia; ou se será apenas um dia em que você gastará oito horas olhando desanimado para seu monitor. Aqui vale a regra Numero 01: Não se deve julgar sua produtividade, em um determinado dia, mas sim pela sua média ao longo de vários dias. Nada de novo nisto!
As organizações de qualquer segmento que prestam serviços, atendem consumidores, consertam coisas ou vendem produtos deveriam aprender com a própria indústria. Lá eles sabem desta verdade fundamental: Trabalhar mais horas significa obter menos efeito. Por isso eles têm turnos! O pessoal da segurança no trabalho pode confirmar esta condição, pois quanto maior tempo na operação, mais acidentes acontecem.
Segundo algumas pesquisas sobre os efeitos do horário de trabalho na produtividade e os erros resultantes, dão conta que - em média - a eficiência diminui pela metade, após oito horas de trabalho em uma semana consecutiva.
Isto pode parecer estranho, mas é importante para compreender a lógica da entrega de resultados: para a maioria dos trabalhadores não existe uma relação simples entre horas trabalhadas e quantidade de serviço efetuado. Se você dobrar seu esforço, pode terminar os relatórios e lançamentos e no dia seguinte está um caco! De que adianta, então, em termos de produtividade este esforço?
O que toda empresa precisa não é de sacrifício, mas de eficiência em bases regulares e previsíveis. O difícil é colocar esta equação na cabeça dos empresários. Em um ambiente industrial, onde máquinas e sistemas operam a toda força, quanto mais impulso, maior a produção (e rejeitos, também). Mas, para os colaboradores em geral, a regra é oposta. Submetidas à pressão e aos processos conflitantes e ineficientes, lideranças autocráticas e aliadas às longas e penosas cargas de trabalho, as pessoas acabam tomando atalhos ou simplesmente aderem ao presenteísmo mais eloquente. Você não pode forçar a criatividade, a proatividade, o raciocínio claro e o rápido aprendizado - se "todo dia temos que fazer hora extra". Assim, trabalhar mais tende a criar o efeito contrário e você consegue produzir muito menos dentro de um mês.
E quanto ao seu humor? Ele é essencial para que as coisas saiam direito! Muitas vezes adiar um trabalho chato pode ser mais produtivo e gerar mais resultados a empresa, do que seguir o cronograma. Se você tem um bom senso de prazos e responsabilidade, troque a ordem dos tratores e construa um melhor viaduto. Pode ser a coisa certa para se fazer em um momento particular. Have fun!
A felicidade no ambiente de trabalho é o melhor amplificador da produtividade. A única maneira mais eficiente para aumentar a sua produtividade é ser feliz no trabalho. Nenhum sistema, hierarquia, ameaça, ferramenta ou metodologia no mundo pode fazer você bater mais metas do que se sentir bem e desfrutar das realizações do seu trabalho. Nada de novo também! Se quiserem leiam Epicuro ou o último consultor da moda.
Finalmente, não se pode ter um mar de rosas e os desafios nos fazem suar a camisa e despertam as habilidades profissionais. Exercitar suas capacidades frente às dificuldades e testar limites de forma adequada faz muito bem para o caráter e desenvolve talentos. Mas, é importante saber que tudo é uma questão de equilíbrio auto-compensatório.
Direcione melhor suas atividades e você evitará a miséria do tédio administrativo, os becos sem saída dos processos "estupidificantes" e conseguirá fazer muito mais por muito menos.
Aliás, esta não era a regra de ouro da administração de empresas?

Palavras-chave: | produtividade | meta | aprendizado |