Livro de Stanley Rosner e Patricia Hermes
Por que repetimos atitudes que destroem os nossos relacionamentos e nos fazem sofrer
"Há uma vitória e uma derrota - a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e a pior das derrotas -, que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos." ~ Platão, Protágoras
"Recebi em meu consultório um homem para quem tudo parecia correr bem. Louis era um quarentão, um homem de negócios que aparentava ser bem casado, o pai de um grande garoto, como chamava o filho de 10 anos, bem-sucedido na vida pessoal e profissional. Mas me procurou porque estava inquieto, pensando no sentido da vida. Estava tendo um caso com uma mulher que, admitiu, não amava. Mas, mesmo sem amá-la, estava prestes a deixar sua família. Ele não entendia o próprio comportamento, mas sabia que alto estava errado. Além disso, havia jurado que nunca faria com sua família o que o pai fizera com ele. Ele revelou que seu pai havia abandonado a família quando ele tinha a mesma idade do filho - 10 anos. E seu avô paterno também largou a família quando o filho tinha 10 anos. Ele estava prestes a se tornar o terceiro pai na família a abandonar a mulher e os filhos.
Encarar o ciclo de repetição é o primeiro passo para ter algum controle sobre o que a pessoa está provocando inconscientemente.
Pode parecer implausível acreditar que um indivíduo continue agindo exatamente da maneira que o faz sofrer. Concordo que seja um contra-senso. No entanto, é plausível e possível. E ocorre constantemente.
O que é importante sinalizar aqui é que essas vidas são infernizadas e destruídas pela compulsão à repetição. Por compulsão, estou me referindo aqui a um tipo de repetição menos instintiva, uma necessidade inconsciente de repetir muitas vezes um comportamento, um impulso de levar adiante um ato, não importando as consequências, mesmo que destrua a vida e a felicidade de alguém.
Existe um momento em que a pessoa consegue reconhecer essas repetições? É possível se dar conta disso e o ciclo ser rompido realmente? Acredito que as respostas a essas questões sejam "sim". Embora não seja uma tarefa fácil. Indivíduos que passaram a vida construindo uma concepção sobre si e sobre o mundo ao redor de uma determinada percepção equivocada podem ter medo de contestar aquela visão, e isto é compreensível.
É um medo real e imenso, porque envolve a única coisa que precisamos e pela qual ansiamos - o amor.
(...)
A maioria das crianças pequenas acredita que o mundo gira ao seu redor. Com o desenvolvimento normal, esse sentimento gradativamente se dissipa. Entretanto, quando certos pais colocam os filhos no meio de suas próprias vidas e também de seus próprios conflitos, esse processo normal pode ser interrompido. A consequência é que muitas dessas crianças desenvolvem um forte senso de responsabilidade, culpa e de recriminação a si mesmas. Elas recebem de herança uma consciência severa e punitiva, dúvidas sobre si mesmas e falta de confiança. Se algo vai mal com seus pais ou com sua família, acreditam que, além de ser culpa delas, é também sua responsabilidade corrigir os erros e consertar o estrago.
Sepultar sentimentos traumáticos, experiências e memórias de sofrimento acontece a muitas pessoas. Entretanto, enterrar essas experiências não significa que elas estejam mortas. Pelo contrário, elas se incorporam, tornam-se parte indelével da imagem que as pessoas têm de si. Consequentemente, a pessoa não sabe por que age de uma determinada forma, não consegue explicar. Surge uma lacuna entre o que se sente e a base de tais sensações.
A criança que vive no adulto, a criança que sepultou seu passado traumático, revive esse fato várias vezes, tentando inconscientemente dominar aqueles eventos incontroláveis. A finalidade, portanto, é facilitar a mudança, fazer com que chegue à consciência, ajudar a criança indefesa a se tornar o adulto livre, com o controle da própria vida. Com consciência e memória, esses eventos podem ser encarados de modo diferente.
Às vezes, é preciso chegar ao sofrimento para que os problemas sejam resolvidos."
http://valeschka.blogspot.com/2009/08/o-ciclo-da-auto-sabotagem.html
"A escolha do parceiro do casamento é, muitas vezes, a representação da relação mal resolvida com um dos pais, aquele que não conseguiu atender às necessidades do filho. A escolha inconsciente do parceiro representa uma tentativa de "mudar aquele pai/mãe", de conseguir o amor e o carinho que faltou. O resultado se apresenta na forma de queixas do tipo: "não foi isso que eu disse", "ele não me defende". Isto, por sua vez, gera lutas pelo poder, batalhas de vontades, brigas sobre quem está certo e quem está errado. Geralmente, o que vem a seguir é aquela sensação silenciosa, mas bastante incômoda, de estar pisando em ovos, para não desequilibrar a balança.
Às vezes, há uma vaga consciência do que está acontecendo, pensamentos confusos de que o cônjuge está se comportando como o pai/mãe frustrador, mas tais pensamentos são geralmente repelidos. Porque fracassamos no reconhecimento da dinâmica da interação com o cônjuge e porque não queremos nos lembrar inteiramente do impacto prejudicial que aquele pai/mãe teve sobre nós, tendemos a repetir muitas vezes a relação. Temos a expectativa de que, da próxima vez, seremos bem-sucedidos naquilo que queremos. Vivemos com a esperança de que encontraremos, no casamento, a satisfação que não encontramos até agora.
Um outro problema é como os indivíduos reagem ao trauma. A interrupção na comunicação, apresentada de modo tão comum como a causa dos problemas nos relacionamentos, é, na realidade, parte da estrutura de defesa em resposta ao trauma. Não é apenas a interrupção na comunicação verbal, mas na comunicação emocional também. Há um entorpecimento dos sentimentos e da sensibilidade. "Se você não estende a mão para mim, por que eu devo estender a minha para você?" O resultado é que a relação baseia-se em tentativas, na qual cada indivíduo sente necessidade de pisar leve, para evitar qualquer situação incômoda ou real. Com medo de represália, medo da própria raiva, a tendência é isolar-se, calar-se tanto verbalmente quanto emocionalmente.
"Ela não fala comigo" é uma queixa comumente ouvida. Esse estado de alienação é baseado no medo de que o cônjuge se irrite se o outro expuser seus sentimentos. Esse medo também é expresso em termos de fragilidade: "não posso dizer nada, porque ela vai desmoronar, ela é tão sensível". Então o distanciamento continua e fica cada vez maior.
Não expressar sentimentos e reações em palavras, por sua vez, leva a pessoa a não expressão sentimentos em comportamentos e em reações emocionais. "Por que eu deveria dizer como me sinto? Ele não vai me ouvir. Não vai fazer a menor diferença".
Se um dos parceiros arriscar seus medos e reconhecer que a frieza é em razão da evitação da agressão ou da possibilidade de se magoar, então a barreira do silêncio pode começar a ser rompida. É necessário reconhecer que o medo da raiva e o medo da fragilidade são aprendizados trazidos de relacionamentos traumáticos anteriores. "Ela não é minha mãe, que não me defendia quando eu precisava". "Ele não é meu pai, que me fuzilava com os olhos se eu expressasse minha raiva".
Ao alcançar esse reconhecimento, é possível mudar relacionamentos atuais.
A compulsão à repetição é uma forma de traduzir em ação um trauma por meio de um comportamento destrutivo, embora quase sempre o indivíduo não tenha noção de que é exatamente isso que está fazendo.
Há uma grande diferença entre estar em situações difíceis que ocorrem sem que a pessoa tenha consciência do que está acontecendo e o reconhecimento de que há alternativas e que é possível efetivar mudanças em comportamentos de auto-sabotagem. A diferença, a diferença vital, é o reconhecimento. Freud escreveu: "Na verdade, eu sempre soube disso; só que isso não me passava pela cabeça".
http://valeschka.blogspot.com/2009/08/o-ciclo-da-auto-sabotagem-2a-parte.html
Mostrando postagens com marcador Auto-sabotagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Auto-sabotagem. Mostrar todas as postagens
domingo, 21 de novembro de 2010
Livro recomendado - O Ciclo da Auto-Sabotagem
Trecho de O Ciclo da Auto-Sabotagem,
de Stanley Rosner e Patricia Hermes
de Stanley Rosner e Patricia Hermes
Capítulo 1
Repetição de comportamentos de identificação primária: conformidadeversus autonomia
Muitos de nós gostam de criar, experimentar, viajar, aprender, crescer — tornar-se alguém. Mas existem pessoas que além de não conseguir enfrentar esses desafios e aventuras, são incapazes até de imaginar tal coisa. Esses indivíduos agarram-se à crença de que a única maneira realmente boa e correta de levar a vida é seguir precisamente os passos de outrem — freqüentemente dos pais. Essa imitação dos pais é conhecida como "identificação arcaica". A menininha que se equilibrava nos sapatos de salto da mãe cresce para se tornar uma adulta que forçosamente usará o mesmo tipo de sapato. O garoto cuja família sempre passava as férias numa choupana em Rainbow Lake, cresce e insiste em levar a família para a mesma choupana em Rainbow Lake — às vezes, para a tristeza de sua atual família. Outros cozinham da mesma maneira que a mãe cozinhava (mesmo que os resultados possam ser aprimorados), vão para a mesma igreja, sinagoga ou mesquita, freqüentam o mesmo teatro, e, às vezes, até moram na mesma casa. Para esses indivíduos, tanto na vida real quanto na íntima, não há espaço para a mudança, para a inovação, não há espaço sequer para a imaginação.
Mas o que será que faz os indivíduos engajarem-se nesse comportamento repetitivo, nessa identificação arcaica, mesmo à custa do próprio eu? Se alguém lhes perguntasse, a resposta mais freqüente seria: "Bem, é a maneira correta." Também é confortável e familiar, e mudar não é fácil. Crianças pequenas querem e precisam adquirir estrutura. Elas precisam de exemplos de comportamento. Elas buscam liderança nos pais. Então, o que há de errado nisso?
Nada, claro. O que está errado, no entanto, é que alguns pais comunicam aos filhos que só a sua maneira de ser é a superior. A criança cresce acreditando que todos são inferiores a seus pais. Ninguém é tão bom ou tão correto quanto os pais. Para apoiar seu ponto de vista, esses pais podem zombar da permissividade, da polidez ou do estilo de vida dos outros. E isto é fato, mesmo quando coisas terríveis estão acontecendo no lar. Se os pais são esbanjadores, comprando tudo que aparece na frente, a criança percebe que é dessa maneira que as coisas devem ser. Ela não tem noção de que os pais podem estar à beira da falência. Se os pais são alcoólatras e a casa é uma bagunça, então a criança entende que pais são assim e que é desse modo que os lares são. Se os pais são cruéis e punitivos, então a mensagem é que essa é a maneira de manter a disciplina e de frear os desejos perigosos e desregrados de alguém.
Somente quando a criança cresce e observa outros estilos de vida, começa a questionar se o estilo de sua família é realmente o único, ou se é o melhor. Trata-se de uma etapa normal do desenvolvimento, mas para famílias repressivas, como as que menciono aqui, é justamente neste ponto que batalhas terríveis se iniciam, batalhas que por vezes duram toda uma vida. Como se confrontar com pais tão dominadores e controladores? A criança fica apavorada. É um medo real e imenso, porque envolve a única coisa que nós precisamos e pela qual ansiamos — o amor. Se a atitude da família pouco amorosa determina que só posso gostar de você se você for igual a mim, a criança entende que só poderá ser amada sendo os próprios pais, não ela mesma.
E, assim, começa a se desenvolver o estilo de vida repetitivo da identificação arcaica — identificação absoluta com os pais. Isto, por si só, já é uma tragédia e tanto.
A próxima tragédia é que a criança adulta começa agora a fazer o que os pais faziam, sempre tentando alcançar o amor — comportando- se exatamente como eles. É uma maneira triste de viver a vida, e o trabalho com pessoas oprimidas me mostrou que é um modo de viver difícil de ser mudado. A criança em fase de crescimento não poderia arriscar-se a ser ela mesma, porque isto traria rejeição e raiva. A criança adulta leva isso adiante. Mas há outra batalha subjacente acontecendo. Aqueles que imitam os pais renegam e acobertam um desejo real de se libertar.
Eu quero muito me libertar. Quero tanto ser livre. E fico possesso com você, por não me permitir a liberdade. Mas eu preciso de você. Sem você, fico sozinho. Sei como consertar isso. Serei exatamente como você, exatamente da maneira que você quer que eu seja, e assim você me amará, nem você nem eu saberemos quanto o odeio, quanto quero me ver livre de você.
É apavorante, e triste também. E porque a maneira deles está correta e a dos outros está errada, aqueles que repetem essas identificações primárias caem no mesmo padrão. O mundo deles é o melhor dos mundos; as regras de comportamento deles são as corretas e apropriadas.
Mas, então, como esses indivíduos conseguem fazer terapia? E por que um indivíduo como esses chega a pensar em fazer terapia? Afinal, ele está agindo do modo que considera correto.
Às vezes, a pessoa vem para a terapia por causa de conflitos causados por forças externas — o simples fato de conhecer pessoas ou mesmo de se apaixonar. O ser amado pode pensar e agir diferentemente de sua família original, pode questionar os modelos e valores daquela família. Isso pode começar a minar aquele ponto de vista aceito e adotado por anos. O que acontece a seguir é uma imensa confusão interior e, com isso, uma grande tensão no relacionamento com a família de origem.
Embora seja assustador, pode ser um bom começo. Geralmente nesse ponto, o indivíduo fica paralisado. Ele não consegue continuar reprimindo o impulso, em direção à liberdade. Mesmo que não vá adiante, voltar atrás é impossível. O que fazer? Alguns movem-se para os lados. Começam a agir de modo passivo-agressivo, — externamente, concordam e aceitam as críticas aos pais, mas, por dentro, ficam se corroendo.
Este embate gera conseqüências para o indivíduo e para o relacionamento com a família.
Talvez seja nesse ponto que alguns indivíduos resolvem recorrer à terapia. Às vezes os próprios pais determinam a terapia na esperança de que "endireite" a criança — leve a criança a se conformar. Eles acreditam que o tratamento vai fazer com que a criança pare de se comportar daquele modo e se torne obediente, passiva.
Marcadores:
Artigo - Veja,
Auto-sabotagem,
Autoconhecimento,
Livros recomendados
Como evitar a auto-sabotagem
Em entrevista, o psicanalista americano Stanley Rosner revela como funcionam os ciclos negativos de repetição, que levam a problemas no casamento, na relação com pais e filhos e no trabalho, e conta a história de alguns de seus pacientes
MARTHA MENDONÇA - 19/04/2009 - 20:05 - ATUALIZADO EM 19/04/2009 - 20:05
Todos os seres humanos têm padrões de repetição - a maioria, irracionais. Alguns calçam o pé direito sempre antes do esquerdo, ou vice-versa, outros sempre dão topadas nas mesmas quinas dos móveis ou gostam de comer determinados alimentos antes de outros. Quando são acontecimentos corriqueiros, não há grande importância. O problema é quando a repetição é destrutiva. “São compulsões que levam indivíduos à beira da loucura e destroem vidas - as suas próprias e as de outros”, diz o psicanalista freudiano americano Stanley Rosner. Com quarenta anos de experiência, Rosner detectou esse tipo de comportamento em muitos de seus pacientes e agora, em co-autoria com a escritora americana Patrícia Hermes, lança O ciclo da auto-sabotagem (ed. Best Seller). O livro, que acaba de ser lançado e já esgotou a primeira edição, explica o que são e de onde vêm tais atitudes, que se manifestam no casamento, entre pais e filhos ou no trabalho. Também traz relatos de muitas histórias de pacientes que tiveram parte importante de suas vidas desperdiçadas pela insistência em agir em ciclos negativos. Rosner sugere a terapia como única forma de estancar a auto-sabotagem. Veja a entrevista do psicanalista e alguns trechos do livro:
ÉPOCA - O que é o ciclo da auto-sabotagem?
Stanley Rosner - É a tendência a se repetir, indefinidamente, atitudes destrutivas. É claro que a maioria das pessoas não percebe o que faz. Prefere acreditar que a insatisfação é apenas fruto de algo externo. E essa negação faz com que ela siga em frente, sempre sofrendo. Pode se manifestar em absolutamente todos os aspectos da vida: no namoro, no casamento, na criação de filhos, na escola, no trabalho.
Stanley Rosner - É a tendência a se repetir, indefinidamente, atitudes destrutivas. É claro que a maioria das pessoas não percebe o que faz. Prefere acreditar que a insatisfação é apenas fruto de algo externo. E essa negação faz com que ela siga em frente, sempre sofrendo. Pode se manifestar em absolutamente todos os aspectos da vida: no namoro, no casamento, na criação de filhos, na escola, no trabalho.
ÉPOCA - Em que situações a auto-sabotagem acontece?
Rosner - No casamento, por exemplo, que é um espaço de luta de poder e desejos, é comum o marido ou a esposa deixar o outro controlar, dominar e punir, enquanto o outro simplesmente age de forma que esse controle e essa dominação cresçam ainda mais. Ambos seguem um acordo silencioso, não importando se ele traz culpa ou dor. Também é muito frequente uma pessoa casar várias vezes e, apesar de os parceiros serem absolutamente diferentes, criar situações e problemas idênticos com todos eles. Qualquer um pode perceber que um padrão está sendo repetido - menos ela própria. Outro ponto: em meus pacientes de terapia de casais, costumo encontrar semelhanças entre cônjuges e seus pais. E o paciente se assemelha com quem ele mais teve dificuldades: o pai frio e distante deu origem ao marido insensível. É a representação de uma relação mal-resolvida do passado.
Rosner - No casamento, por exemplo, que é um espaço de luta de poder e desejos, é comum o marido ou a esposa deixar o outro controlar, dominar e punir, enquanto o outro simplesmente age de forma que esse controle e essa dominação cresçam ainda mais. Ambos seguem um acordo silencioso, não importando se ele traz culpa ou dor. Também é muito frequente uma pessoa casar várias vezes e, apesar de os parceiros serem absolutamente diferentes, criar situações e problemas idênticos com todos eles. Qualquer um pode perceber que um padrão está sendo repetido - menos ela própria. Outro ponto: em meus pacientes de terapia de casais, costumo encontrar semelhanças entre cônjuges e seus pais. E o paciente se assemelha com quem ele mais teve dificuldades: o pai frio e distante deu origem ao marido insensível. É a representação de uma relação mal-resolvida do passado.
ÉPOCA - A infância é, então, a origem dessas repetições?
Rosner - Sim, é basicamente na relação entre pais e filho que se constroem esses padrões. É de traumas, grandes ou pequenos, do começo de nossas vidas que isso tudo nasce. De um sentimento de abandono, nasce a crença de que se aquilo for repetido, as coisas serão transformadas. Tudo é inconsciente, é claro.
Rosner - Sim, é basicamente na relação entre pais e filho que se constroem esses padrões. É de traumas, grandes ou pequenos, do começo de nossas vidas que isso tudo nasce. De um sentimento de abandono, nasce a crença de que se aquilo for repetido, as coisas serão transformadas. Tudo é inconsciente, é claro.
ÉPOCA - O divórcio dos pais faz com que as crianças tenham dificuldades emocionais no futuro?
Rosner - Não o divórcio em si. Mas se o divórcio é complicado e, principalmente, se a criança é usada como uma bola de futebol neste processo, isso deverá, sim, acarretar problemas mais tarde. O mesmo se os pais ficam anos falando mal um do outro na frente da criança. Tudo que quebra a confiança e a segurança de uma criança pode fazê-la ter dificuldades emocionais na vida adulta.
Rosner - Não o divórcio em si. Mas se o divórcio é complicado e, principalmente, se a criança é usada como uma bola de futebol neste processo, isso deverá, sim, acarretar problemas mais tarde. O mesmo se os pais ficam anos falando mal um do outro na frente da criança. Tudo que quebra a confiança e a segurança de uma criança pode fazê-la ter dificuldades emocionais na vida adulta.
ÉPOCA - Quais são os casos mais comuns de auto-sabotagem no trabalho?
Rosner - Todos conhecemos alguém que pula de emprego em emprego e está sempre culpando um chefe ou os colegas. Nos novos empregos há sempre problemas semelhantes aos anteriores. Isso é porque o relacionamento interpessoal é um fator muito importante no trabalho - tanto quanto dedicação ou competência. As percepções das pessoas no local de trabalho muitas vezes são distorcidas por relações mal resolvidas do passado, da mesma forma que no casamento. Vê-se um chefe como o pai severo ou uma colega como a irmã competitiva. A auto-sabotagem nasce daí: questiona-se a autoridade do chefe, negligencia-se uma meta, começa-se a chegar a atrasado. Como forma de combater inconscientemente algo do passado que ainda nos atormenta.
Rosner - Todos conhecemos alguém que pula de emprego em emprego e está sempre culpando um chefe ou os colegas. Nos novos empregos há sempre problemas semelhantes aos anteriores. Isso é porque o relacionamento interpessoal é um fator muito importante no trabalho - tanto quanto dedicação ou competência. As percepções das pessoas no local de trabalho muitas vezes são distorcidas por relações mal resolvidas do passado, da mesma forma que no casamento. Vê-se um chefe como o pai severo ou uma colega como a irmã competitiva. A auto-sabotagem nasce daí: questiona-se a autoridade do chefe, negligencia-se uma meta, começa-se a chegar a atrasado. Como forma de combater inconscientemente algo do passado que ainda nos atormenta.
ÉPOCA - Como controlar a auto-sabotagem?
Rosner - Evitar essas repetições destrutivas é muito difícil, porque elas estão consolidadas em nosso inconsciente desde muito cedo. Uma pessoa pode até perceber sua compulsão em agir daquela maneira e, a partir disso, acreditar que poderá controlar-se da próxima vez. E mais uma vez ela age destrutivamente e crê que na próxima ela evitará e assim por diante. Por isso eu digo que estar ciente de seu padrão de repetições é extremamente importante, eu diria que é o primeiro passo. Mas o caminho para estancar esse comportamento é ir de encontro ao trauma que está na raiz de tudo. Enfrentar esta tristeza.
Rosner - Evitar essas repetições destrutivas é muito difícil, porque elas estão consolidadas em nosso inconsciente desde muito cedo. Uma pessoa pode até perceber sua compulsão em agir daquela maneira e, a partir disso, acreditar que poderá controlar-se da próxima vez. E mais uma vez ela age destrutivamente e crê que na próxima ela evitará e assim por diante. Por isso eu digo que estar ciente de seu padrão de repetições é extremamente importante, eu diria que é o primeiro passo. Mas o caminho para estancar esse comportamento é ir de encontro ao trauma que está na raiz de tudo. Enfrentar esta tristeza.
ÉPOCA - O senhor diz em seu livro que o caminho é a terapia. Por que?
Rosner - Muitos pacientes iniciantes agem como se tivessem nascido ontem e se recusam a falar do passado. Acham que é no presente que está a resolução de seu problema. Aos poucos vão percebendo que é preciso voltar no tempo para interromper o ciclo. A chave está na origem dos conflitos.
Rosner - Muitos pacientes iniciantes agem como se tivessem nascido ontem e se recusam a falar do passado. Acham que é no presente que está a resolução de seu problema. Aos poucos vão percebendo que é preciso voltar no tempo para interromper o ciclo. A chave está na origem dos conflitos.
| Trechos do livro relevam a história de auto-sabotagem de alguns dos pacientes de Rosner |
|---|
| "Sally e Mark estavam casados há 10 anos. Não tinham filhos. Mark era instruído, mas não ganhava muito. (...) Sally, por outro lado, ocupava um cargo de responsabilidade havia bastante tempo. Conseguia bons relatórios anuais de desempenho, era agraciada com bônus e recebia um bom salário. Quando vieram até mim, ela se apresentou como uma pessoa dotada de autoconfiança e independência. Estava brava e acusava Mark de não contribuir de modo apropriado para a família. (...) O que começou a sobressair rapidamente foi que Sally na verdade era insegura. Ela não se sentia merecedora da posição que ocupava. Pedia que Mark a ajudasse na pesquisa ou nos cálculos necessários para solucionar os problemas de seus projetos. Mark estava sempre disposto a ajudar e era bastante eficiente. (...) Mas Sally se ressentia disso. Ela se ressentia de lhe pedir ajuda, de ser ajudada. Precisar da ajuda de Mark era algo que a humilhava. (...) Mark se sentia em apuros. Recebia mensagens contraditórias de Sally. Por um lado, estava sendo chamado a ajudar. Quando ajudava, ela ficava com raiva. (...) Era combativa em sua necessidade de ser independente, mas, quando não conseguia, sentia-se enfraquecida e vulnerável e pedia ajuda, e...sim, era um círculo vicioso. (...) Sally havia me dito logo no começo: não queria ser como sua mãe. A mãe era uma mulher brava. Sentia raiva por ter marido e filhos que precisavam dela. Como mãe, cedia, porque sentia que precisava fazer isso, mas depois se ressentia e se afastava daqueles que se agarravam a ela. Sally estava se comportando tal qual a mãe. Ela, assim como a mãe, precisava preservar a imagem de pessoa competente e independente que construíra - porque vulnerabilidade signfiicava se machucar. Mark se tornou a mãe de Sally - ajudava quando ela pedia, mas Sally recriou o enredo no qual pedir ajuda equivalia a ser rejeitada depois.” "Louis era um quarentão, um homem de negócios que aparentava ser bem casado, o pai de um 'grande garoto', como chamava o filho de 10 anos, bem sucedido na vida pessoal e profissional. Mas me procurou porque estava inquieto, pensando no sentido da vida. E, como revelou depois de algumas sessões, estava tendo um caso com uma mulher que, admitiu, não amava. Mas, mesmo sem amá-la, estava prestes a deixar sua família. Ele não entendia o próprio comportamento, mas sabia que algo estava errado. (...) O que se manifestou nas sessões seguintes produziu forte impacto - não necessariamente em mim, mas em Louis. Ao conversar, ele revelou que o pai havia abandonado a família quando ele tinha a mesma idade do filho - 10 anos. Além disso, o avô paterno de Louis também largou a família quando o filho tinha 10 anos. Tudo isso ficou arquivado na mente de Louis, mas sem nenhuma conexão. Somente quando chamei sua atenção para a idade dos meninos, ele disse: “Você acha que estou agindo da mesma maneira?” "Eric tinha 50 anos, era obeso e deprimido, e se sentia impotente e desanimado. Disse que a última vez que se sentira bem consigo mesmo foi quando esteve internado por um mês numa famosa clínica. Perdeu 14 quilos. Depois que saiu da clínica, engordou novamente, perdeu o emprego e passou a se sentir desamparado. Os sentimento depressivos sempre estiveram presentes, mas ficaram mais intensos depois de divorciar-se da esposa com quem esteve casado por quinze anos. Segundo ele, 'me contentei com ela. Nunca pensei que alguém me quisesse'. (...) Os pais se divorciaram quando ele tinha 13 anos e ele nunca questionou seus sentimentos em relação a isso. Disse que as brigas dos dois o fizeram pessimista, sempre esperando pelo pior. Ainda adolescente, perdeu a fé e a confiança nos pais, que não sabiam o que queriam. Tornou-se independente deles, embora precisasse de orientação e direção. 'As coisas entram no meu caminho e me impedem de fazer o que quero', disse Eric. (...) Ele era extremamente carente e jamais assumia a responsabilidade por sua situação e por seus atos. Na relação terapêutica, ele reeditava o conflito básico entre querer alguém que lhe dissesse o que fazer e querer fazer as coisas a seu modo. Ele tomou alguma medidas para emagrecer: clínicas e psicoterapia. Mas minava cada um desses esforços. (...) A falta de confiança na habilidade de manter a própria vida sob controle tornou-se clara quando optou por um procedimento cirúrgico que tiraria de suas mãos a responsabilidade por si mesmo - uma operação de redução do estômago." "Lembro-me de uma jovem e atraente mulher, Cory, que foi ao consultório com uma preocupação bastante prática. Ela queria que eu a ajudasse a organizar seu tempo, suas tarefas. Elas queria estruturar sua vida profissional. Parecia um pedido singular para uma mulher jovem, brilhante e capaz. Cory cursara uma ótima faculdade de Direito e conseguira o emprego, depois de uma rigorosa seleção, em uma grande e prestigiada firma de advocacia. Mas logo começou a enfrentar dificuldades em cumprir cronogramas e priorizar seu tempo. (...) Saiu do emprego. Abriu sua própria forma de advocacia, mas estava com os mesmos problemas que enfrentara. Quando tentei investigar mais profundamente sua história, ela se impacientou: 'Só quero me ater ao problema que tenho aqui e agora', disse. (...) Mas logo ficou claro que ela estava sabotando a si mesma. O pai havia decidido transformá-la em alguém bem-sucedido, o filho que ele não teve. E, embora tudo levasse a crer que era aquilo que Cory desejava para si, não era este o caso. Cory tinha outros objetivos, inclusive alguns que só conseguiu perceber depois de muitas sessões.(...) Os conflitos do passado não haviam sido resolvidos. Cory e a figura internalizada do pai ainda estavam brigando, numa triste repetição do que tinha começado bem antes." http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI68994-15228-2,00-COMO+EVITAR+A+AUTOSABOTAGEM.html |
Marcadores:
Artigo - Época Negócios,
Auto-sabotagem,
Autoconhecimento
Assinar:
Postagens (Atom)